Tragédia mais próxima na figura que ficou faltando

Mário Sérgio, o “Vesgo”, figura mais difícil do álbum da Copa de 1982 (Reprodução)
Mário Sérgio, o “Vesgo”, figura mais difícil do álbum da Copa de 1982 (Reprodução)

 

 

Era 1982. Tinha 10 anos e acompanhava desde o ano anterior, nas eliminatórias sul-americanas e amistosos vencidos contra as mais poderosas seleções europeias, a brilhante campanha da Seleção Brasileira treinada por mestre Telê Santana (1931/2006).

Antes e durante a Copa do Mundo na Espanha, eu e todos os amigos do prédio, da rua e da escola colecionávamos o álbum de figurinhas das seleções de cada país. Vinham nos chicletes Ping-Pong, que acabavam amontoados nos pátios das escolas, derretidos ao sol, sem conhecerem a boca das crianças interessadas apenas nas figuras.

Na Seleção Brasileira, o craque do time, Zico, era figurinha das mais fáceis. Já Mário Sérgio, relacionado pela CBF na lista da Fifa, mas que acabaria cortado e nem jogando aquela Copa, era a mais rara. Com valor majorado pela lei da oferta e procura, apareceram até falsificações da sua figura.

Mário Sérgio não jogou a Copa de 82 por aquela Seleção Brasileira, até hoje reconhecida no mundo como uma das mais técnicas de todos os tempos, apesar da derrota por 3 a 2 diante à Itália, nas quartas de final. Todavia, mesmo entre meias como Zico, Sócrates (1954/2011), Falcão e Toninho Cerezo, o “Vesgo” não fazia feio.

Hoje politicamente incorreto, o apelido se dava pelo jogada característica em que Mário Sérgio olhava para o lado e tocava a bola na direção contrária. No futebol, Ronaldinho Gaúcho reeditaria o lance. Contemporâneo do “Vesgo”, mas em outro esporte, Magic Johnson também produzia jogadas muito parecidas no basquete da NBA.

Em 1983, o Flamengo de Zico conquistaria seu terceiro título brasileiro, quase em sequência. Já vencera antes o Brasileirão em 80 e 82, além da Libertadores da América e o Mundial Interclubes em 81. Mas em 83, quem conquistou o Sul-Americano, para depois vencer o campeão europeu em Tóquio, foi o Grêmio.

O técnico do time brasileiro, que havia encerrado há pouco a carreira de jogador, era Valdir Espinosa. Para enfrentar a força do alemão Hamburgo, o treinador gaúcho queria técnica. E, na sua busca, convenceu a diretoria do Grêmio a contratar Mário Sérgio, que ditou o ritmo da vitória por 2 a 1, com dois gols de Renato Gaúcho.

Jogador talentoso, mas de temperamento difícil, Mário Sérgio esteve envolvido em polêmicas desde o início de carreira, repetidas por quase todos os clubes em que passou. E continuou sem papas na língua com o passar do tempo, quando passou a atuar como comentarista e treinador de futebol.

Como jogador, sua última partida é o resumo do que foi dentro e fora dos campos. Já veterano, era a quinta rodada do Brasileiro de 1987, quando recebeu a camisa 10 do Bahia. Jogou o primeiro tempo com atuação extraordinária, desceu para o intervalo, antes de todo mundo, como protagonista da vitória parcial por 1 a 0 sobre o Goiás.

Nas palavras do meia Bobô, ídolo do Brasileiro que o Bahia conquistaria no ano seguinte: “Quando chegamos ao vestiário, Mário Sérgio já estava trocado, perfumado. Fez um pronunciamento muito educado, agradeceu a todos nós e disse que não voltaria ao segundo tempo. No vestiário, ele anunciou o fim de sua carreira”.

Hoje, com a notícia da queda do avião com o time da Chapecoense, na Colômbia, a tragédia pareceu mais perto ao saber que entre os 71 mortos estava o atacante campista Bruno Rangel. Pai de dois filhos e morador do Parque Prazeres, passou por Goytacaz e Americano antes de ganhar o mundo. Ele completaria 35 anos no próximo dia 11.

Ser conterrâneo da dor nos aproxima dela, tanto quanto ser contemporâneo. E ela ficou mais íntima quando soube que Mário Sérgio também perdera a vida. Tinha 66 anos e viajava como comentarista da Fox para cobrir a final da Copa Sul-Americana, que seria disputada amanhã pelo time catarinense, contra o Atlético Nacional da Colômbia.

Na lembrança pretérita e presente, não deu para imitar o “Vesgo”. Impossível olhar para um lado e tocar a bola do outro. No álbum de figurinhas do menino, num mundo que se começava a descobrir pelos ídolos do futebol, Mário Sérgio foi aquela que permanecerá faltando.

 

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