Guilherme Carvalhal — Filho Imaginário

Carvalhal 30-11-16

 

 

Sobre o criado mudo, ela imaginou um porta-retratos. A foto reproduzia o filho ou a filha — jamais saberia o sexo — banhando-se no lago, segurando um balde na mão com expressão estampada de alegria. Ao redor, todo o restante da família passando férias, desfrutando a procrastinação ao vento apaziguador em uma tarde quente. O retrato surgia como a emanação do passado idealizado e sua memória recompunha essa cena em colorações críveis.

Ali, reclinada na janela de casa, conseguiria esperá-lo(a) para o almoço quando chegasse da escola. Ouviria com sabor as palavras gritadas além da calçada, os passos de tênis nas poças de lama e a sola marcando pegadas no carpete de sala. Sua mochila lançada de qualquer jeito causaria o grito maternal, aquele grito que tanto desejava ter dado.

Agora, parando de frente ao depósito onde guardava tranqueiras, vislumbrou o quarto da criança, o bercinho adornado com desenhos de estrelas e um urso de pelúcia ajeitado ao lado do travesseiro. À medida em que crescesse substituiria o berço por uma cama e passaria os últimos minutos do dia contando histórias e ouvindo aquela respiração suave até o sono chegar.

Todas essas quimeras se erguiam das frestras do piso e infundiam tons primaveris pelas paredes gélidas e sua atmosfera melancólica. O cheiro de talco infantil perfumaria aquele ambiente inodoro, conspurcando o clima hospitalar e profilático da solidão. Um arco-íris infundiria vida na residência onde o luto se impôs e nunca se retirou.

E a busca por essa remissão crepuscular, por um cerrar de cortinas propenso a encerrar uma abstração interpretativa e que a levasse de volta à realidade sonhada ao invés daquela relegada por vontades alienando a sua própria, a forçava a um abrir e fechar de portas, constantemente tentando reaver o ser escondido, o filho que contra seu desejo escapou-lhe pelo útero, roubado por mãos esterilizadas — ou não. Talvez se escondesse por trás da máquina de lavar roupas ou dentro do box do banheiro. Às vezes havia trepado na goiabeira do quintal e se camuflava entre as folhas. Assim, ela perambulava a esmo, uma alma penada assombrando sua moradia.

E, quando se despia do véu de quimeras e confrontava a verdade, uma verdade de gosto amargo, a porta do armário se iluminava com a lembrança mais cintilante e permanente. O único objeto efetivamente tangível e verídico mantinha-se ali, trancafiado, ajudando-a a pagar por seus pecados, assustadoramente concreto. Na segunda prateleira, o frasco repleto de formol contendo o pequeno embrião ainda inteiro. Igual um girino em tamanho maior, roubado de uma sacola antes que lhe incendiassem, a marca principal de um pecado imperdoável, um perdão que procurava vagando aleatoriamente pelo mundo como se em algum canto obscuro pudesse encontrar um botão capaz de mudar o passado.

 

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