Ocinei Trindade — Ferreira Gullar em três atos ou mais

 

Ferreira Gullar e Analice Martins
Ferreira Gullar e Analice Martins

 

 

Há dois dias Ferreira Gullar está morto. Porém, não tanto. Soube no domingo pela televisão de sua partida. Lamentei. Tive vontade de ir velá-lo, mas não tanto. Sei lá. Quis me despedir. Quis até falar-lhe, mas perdi a chance. Aliás, perdi três exatas chances de poder dirigir-me a ele. Trago nitidamente em minha memória estas tais três ocasiões.  Lamentei também por isto. Perdemos o poeta e eu perdi a oportunidade de poder trocar algumas palavras. Mas o que poderia eu falar a ele?

Era sábado, no Rio de Janeiro, em plena Avenida Rio Branco, na calçada em frente aos prédios da Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes, na semana em que se encerrara o carnaval, mas naquele dia haveria o desfile das escolas de samba campeãs, na Marquês de Sapucaí. Eu estava acompanhado de um amor que muito amei e ainda amo, mas que se foi. O sol da tarde era forte sobre nossas cabeças e o centro da cidade estava bem esvaziado de gente. De repente, a uns cinquenta metros, surge Ferreira Gullar caminhando em nossa direção. Não demorou reconhecê-lo assim que o avistei. Magro, muito elegante, cabelos alvíssimos e lisos caindo sobre os olhos. Fiquei nervoso. Ensaiei um cumprimento, um aceno assim que nos cruzássemos. Emudeci. Ele passou e eu fiquei parado olhando-o seguir pela avenida semi-deserta. Silêncio.

Dois anos depois, Ferreira Gullar participa da Bienal do Livro de Campos, minha cidade natal. Ele divide o palco com Analice Martins, doutora em literatura, amiga amada, mestra e musa de muitos de nós. A bela e a fera em cena, alguém poderia provocar. O auditório lotado ouviu suas opiniões acerca de muitos temas literários, sobretudo a poesia. Fiz várias fotos da apresentação, uma delas ilustra esta crônica. O homem espantoso do poema sujo e de ideias neoconcretistas entrou e saiu do local sem chance de falar-lhe. Era tanto assédio em cima daquele ilustre convidado com mais de oitenta anos de idade que ele sumiu rapidamente no meio da multidão que abarrotava os corredores do evento.

Não demorou muito, alguns meses, creio, voltei ao Rio de Janeiro para assistir ao espetáculo teatral À beira do abismo me cresceram asas, de Maitê Proença, outra musaEra fim de novembro, lembro bem.  Enquanto aguardava a peça começar, fui circular pelo antigo shopping em Copacabana que abriga o Teatro Tereza Raquel (atual Net Rio) e tantas galerias de arte. Em uma delas acontecia um coquetel durante  exposição de esculturas e livros de arte caríssimos. Entrei sem convite, já que a porta estava aberta. Logo descobri que a mostra era de peças produzidas por Ferreira Gullar, e em seguida, soube que ele estava atrás de mim, bem presente, a uns dois metros de distância, Cercado de gente, animado, ele sorria e conversava com seus convidados. Na festa, encontrei a cantora Silvia Machete, musa e amiga de redes sociais digitais. Ela estava linda com um decote inacreditável. Nos cumprimentamos eu e ela e, quando dei por mim, estava em cima da hora para a peça com Maitê Proença começar. Me despedi e sai correndo. Ferreira Gullar ficou para trás. Não consegui outra vez lhe cumprimentar, pelo menos.

Não sei exatamente quando ouvi falar de Ferreira Gullar pela primeira vez. Por falta de dinheiro, não comprei a reunião de seus livros em uma publicação comemorativa no início deste ano. Mas levei Drummond para casa, pois o dinheiro deu. Gullar era um homem soturno, apesar de ter nascido na ensolarada e linda São Luis do Maranhão. Demorei saber que ele era maranhense, Quando estive lá, só me lembrava dos Sarney, do Josué Montello e da cantora Alcione. Entretanto, Gullar foi, talvez, o mais nobre dos maranhenses (sem querer desmerecer os outros). Não era bonito. Também não era feio. Era o que minha mãe costumava chamar alguns seres especiais: um feio-bonito, assim como Maria Bethânia (que eu acho belíssima) é.

Seu poema que mais gosto? Nunca poderia responder, pois minha memória não acolhe tantos gênios.  Todavia, passei a prestar mais atenção em Ferreira Gullar justamente em um show de Maria Bethânia chamado Brasileirinho (2003)dirigido por Bia Lessa. Na abertura do espetáculo registrado em dvd, uma imagem enorme de Ferreira Gullar é projetada em tela líquida, onde ele aparece recitando os seguintes versos do poema Descobrimento, de Mario de Andrade:

 

Abancado à escrivaninha em São Paulo

Na minha casa da rua Lopes Chaves

De supetão senti um friúme por dentro

Fiquei trêmulo, muito comovido

Com o livro palerma olhando pra mim.

 

Não vê que me lembrei lá do Norte, meu Deus!

muito longe de mim

Na escuridão ativa da noite que caiu

Um homem pálido magro de cabelos escorrendo nos olhos,

Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,

Faz pouco se deitou, está dormindo.

 

Esse homem é brasileiro que nem eu.

 

    Eu poderia jurar que o poema fora escrito por Ferreira Gullar, mas cabe a Mario de Andrade a autoria. De algum modo, o Descobrimento também é de Gullar, é meu, é de todos nós. Há pouco, antes de escrever esta crônica, troquei mensagens de texto com Analice Martins, e comentei com ela as muitas fotos que tenho dela com o poeta que veio do Maranhão e que se portou valentemente diante da vida até o fim. Ela fez uma referência a ele como um homem de espantos com a frase “a poesia é fruto do espranto”, mas depois corrigiu a grafia e escreveu “espanto”. Eu a respondi afirmando que a poesia é para mim um “espranto” mesmo, misto de espanto e pranto. Ainda não chorei a morte de Ferreira Gullar, mas assim que conseguir, não perderei a chance.

 

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Este post tem um comentário

  1. Gildo Henrique

    Sobre o seu perder de vista o Gullar na Bienal de Campos, fui eu o culpado. Distraí você ao lado do palco conversando.
    Sorry.

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