George Michael — Da fé dos anos 80 ao Natal do ano que não acabou

 

George Michael Faith

 

 

Só hoje (26), pelo comentário (aqui) de uma leitora no blog, na postagem do artigo (aqui) no qual já me despedia de 2016, descobri que o ano ainda não havia acabado. Ontem (25), dia de Natal, morreu aos 53 anos o cantor e compositor inglês George Michael. Nascido Georgios Kyriacos Panayiotou, era filho de um restaurador cipriota de origem grega e de uma dançarina britânica.

Quem foi brasileiro e adolescente nos anos 1980, não precisou ir muito além da produção nativa para cantar, dançar e descobrir a vida tendo o pop-rock como música fundo da sua geração. Afinal, com Blitz, Lulu, Marina, Lobão, Barão, Legião, Paralamas, Capital, Plebe Rude, Titãs, Ira, vivia-se o auge do BRock.

Ainda que achasse meio açucarado o som da dupla inglesa Wham, formada em 1981 pelos ex-colegas de escola George Michael e Andrew Ridgeley, era inevitável se ouvir pelo ar músicas como a dançante “Wake Me Up Before You Go-Go” (“Acorde-me ante de você ir-ir”), ou a balada “Careless Whisper” (“Sussurro descuidado”). Tratavam-se do que o jornalista e crítico brasileiro Maurício Kubrusly classificou de “música chiclete”: gruda no ouvido.

 

 

 

 

Querendo-se ou não, as duas faziam parte necessária da trilha das rádios FM, festas na casa de amigos e noites de rebeldia cabocla sem causa na saudosa boate Metrô — aos fundos do antigo Fórum e atual Câmara Municipal de Campos, formosa e intrépida amazona.

E vai daí que era 1987. Naquele ano do último Campeonato Brasileiro de Zico pelo Flamengo, foram lançados os discos “D”, com a gravação ao vivo do show do Paralamas no Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça; além de “Vida Bandida”, que o sempre polêmico Lobão gravara após passar três meses preso por porte de drogas.

E, não fosse mais nada, o Legião ainda traria “Que País É Este”.

Mas 87 foi também o ano no qual, após ter desfeito o Wham, George Michael lançou seu primeiro disco solo: “Faith” (“Fé”). Sem perder seu público cativo, o artista o ampliou num mergulho mais profundo no Rhythm and Blues (R&B) e no Soul, para compor, tocar e cantar mega-sucessos dançantes como “I Want Your Sex” (“Eu quero seu sexo”), em cuja letra pregava o sexo casual; além da música que batizou o álbum.

 

 

A bem da verdade, foi depois de conferir a exibição do videoclipe da música título de “Faith”, que me interessei em comprar o primeiro álbum do artista. Era como assistir ao Elvis Presley (1935/77) jovem do final dos anos 50, com a mesma guitarra nas mãos e botas de cowboy nos pés, mas repaginado pelos cabelos oxigenados e o casaco de couro negro rockabilly já customizado pelo punk — sem contar os jeans rasgados e o brinco solitário de crucifixo, que a partir dali se tornariam referências de uma época.

Quem quiser matar as saudades dessa indumentária típica, que dita moda até hoje, uma boa dica é (re)assistir a “Os Garotos Perdidos”, misto de comédia, terror e filme sobre jovens dirigido por Joel Schumacher, também lançado naquele profícuo ano de 1987.

Para além do movimento frontal dos quadris, que chocou a “moral” e os “bons costumes” dos meados do século 20, pelo qual Elvis ficou também conhecido como “The Pelvis”, George Michael acrescentava a ousadia de virar de costas para também requebrar as nádegas ao público — talvez numa antecipação da homossexualidade que ainda não havia assumido.

E, o que importa, a música era muito boa, assim como o clipe, inciado com o refrão de “I Want Your Sex” numa jukebox — outra reminiscência física dos tempos do Rei do Rock:

 

 

Considerado até nossos dias como um dos maiores discos da história da música pop, fui comprá-lo na saudosa Caiana Discos, do meu tio Dionísio Barbosa (1934/94), no cruzamento da esquina da Santos Dumont com 21 de Abril. Lá chegando, o atendente da loja era o Léo Zanzi, que me sabia apreciador de música mais “séria”, como Blues e Jazz.

Meio sem jeito, perguntei pelo novo LP do George Michael. No lugar de estranhar, lembro que ele endossou: “Esse inglês tem um suingue muito bom!”

Talvez antecipado pelo julgamento de Léo e meu, “Faith”  foi o primeiro álbum de um artista branco a chegar ao topo dos chats de R&B, voltados à música negra dos EUA. Em todo o mundo, foram mais de 20 milhões de cópias vendidas.

Em 1990, George Michael lançou seu segundo disco solo, na pretensão de se tornar um cantor mais sério. “Listen Without Prejudice Vol. 1” (“Ouça sem preconceito”) teve boa acolhida da crítica, mas não repetiu o estrondoso sucesso popular de “Faith”, vendendo “apenas” 8 milhões de cópias.

Ainda assim, o novo álbum trouxe uma música que até hoje transcende os limites geralmente efêmeros do pop. “Fredom! ‘90” (“Liberdade 90”) tratava do descompromisso de relações mais fluídas de um novo tempo. E em seu sensualíssimo clipe, no qual a jaqueta e a jukebox de “Faith” eram emblematicamete destruídos, trouxe a participação de cinco supermodelos de então: Naomi Campbell, Tatjana Patitz, Linda Evangelista, Christy Turlington e Cindy Crawford.

 

 

Nos anos 1990, a partir do suicídio de Kurt Cobain (1967/94), do Nirvana, parei de acompanhar as novidades do pop-rock, sobretudo o internacional. Mas não deixei de atentar, até pela concordância política, ao provocante clipe do single “Shoot The Dog” (“Atire no cão”), de 2002.

Feito em animação, nela a estupidez do então presidente estadunidense, George W. Bush, sofreu dura sátira. Assim como a subserviência do primeiro ministro britânico à época: Tony Blair, trabalhista (esquerda na GRB) que apoiaria incondicionalmente a invasão do Iraque, em 2003, numa aventura dos republicanos (direita dos EUA). A causa seriam armas de destruição em massa desenvolvidas pelo ditador Saddam Hussein (1937/2006) que nunca existiram.

 

 

Além da sua música, George Michael ficou também conhecido pela ativa militância LGBT. Embora os mais próximos sempre soubessem de sua sexualidade, só a revelou publicamente em 1998. Na ocasião, foi preso ao tentar seduzir, num banheiro público de Bevelly Hills, em Los Angeles, um policial disfarçado na indisfarçável hipocrisia do puritanismo que a Inglaterra degredaria a bordo do navio May Flower, no início do séc. XVII, para fundar os EUA.

No litoral de outros mares e tempos, a lembrança de George Michael que levo pela vida num estojo, foi sua participação no Rock in Rio II. Era o verão de 1991.

Em frente ao Grussaí Praia Clube, no lado oposto da rua, jogava totó — aquilo que os paulistas chamam de pebolim — numa das muitas mesas de jogo e de bar espalhadas no entorno de um trailer de sanduíches (e cervejas). Nele, uma TV exibia a transmissão ao vivo, pela Globo, do grande evento de rock na Cidade Maravilhosa.

Tinha 18 anos. Lembro que meu adversário no totó era o Juliano Vilela, um ano mais novo e conhecido por “Whisky”, mais por uma brincadeira fonética juvenil do que por seu gosto pela bebida. Então, em meio ao burburinho das pessoas, a maioria jovens como nós, George Michael começou a cantar ao vivo na TV uma arrepiante interpretação de “I’m Calling You” (“Eu estou te chamando”).

A música foi composta por Bob Telson para o filme cult “Bagdad Café”, de Percy Adlon, lançado nos cinemas naquele mesmo ano de 1987, de “Faith”, de “D”, de “Vida Bandida”, de “Que País é Este”, de “Os Garotos Perdidos”, do último Brasileiro de Zico no Flamengo.

Sem que meu adversário de totó entendesse nada, simplesmente abandonei o jogo, dei as costas e fiquei parado de pé, diante à TV. Foi assim que ouvi a música até sua estrofe final:

 

A hot dry wind blows right through me

The baby’s crying and I can’t sleep

But we both know a change is coming

Coming closer, sweet release

 

“Um vento quente e seco sopra através de mim

O bebê está chorando e eu não posso dormir

Eu sinto que a mudança está próxima

Chegue mais perto, doce libertação”

 

 

 

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Este post tem 6 comentários

  1. Sandra Santos

    Como vc escreve bem!!
    Captou com sensibilidade toda esta alma “desajustada”ou “ajustada”.
    Como deve ter sofrido nos seus dilemas

    1. Aluysio

      Cara Sandra,

      Infelizmente, nem todos tiveram a sorte de ser ajustados como vc.

      Abç e grato pela generosidade!

      Aluysio

    1. Aluysio

      Cara Sandra,

      A dúvida é um bom ponto de partida.

      Abç e feliz ano novo!

      Aluysio

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