Marcelo Amoy — Nós na vida, pelo tempo

 

Amoy 02-01-16

 

 

 

Indagado sobre o que Deus fazia eternidade afora, como se entediado estivesse fadado a viver antes de criar um mundo para cuidar, Santo Agostinho respondeu que antes da criação, nem mesmo o tempo existia. Séculos depois, a Ciência afirmou a mesma coisa com a apresentação da Teoria do Big Bang: a grande explosão que deu origem a tudo que existe no universo, da matéria ao tempo. Já segundo a poética (mas implacável) mitologia grega, o Tempo (Cronos) é o filho mais jovem do Céu Estrelado (Urano) e da Terra (Gaia). Cronos se tornou o Deus do Tempo: o rei dos destinos que a tudo devora, embora tenha sido em seu reinado que a humanidade nasceu e viveu sua Idade de Ouro — até Zeus lhe tomar o trono e começar a mandar na gente, rsrsrs. De lá pra cá, balançando entre desígnios alheios e livre-arbítrio… o que temos feito com nossas vidas e com nosso tempo?

Enquanto é comum que crianças e adolescentes desejem que o tempo passe rápido para poderem desfrutar logo das liberdades do mundo adulto, não é raro que os crescidos sintam saudade daquele tempo em que não carregavam o peso de tantas responsabilidades — um tempo que tão rapidamente ficou pra trás. E que peça o Tempo não nos prega, hein?: enquanto custa a passar lá na infância, acelera e dispara depois de uma certa idade. Para todos, no entanto — em retrospectiva —, fica a certeza tatuada em cada vinco de pele e pensamento: “tempus fugit”. Sim, o tempo nos escapa. Supersonicamente.

A percepção (da passagem) do Tempo é variável, claro: cultural e individualmente — e daqui a alguns séculos, se viajarmos por entre as estrelas, será variável também por causa da Física descrita na Relatividade de Einstein. Por enquanto, com nossos pés bem fincados na Terra, nossa preocupação se concentra em três palavras: passado, presente e futuro. Por causa delas sentimos saudade e fazemos planos; nos arrependemos e orgulhamos; rimos e choramos; lidamos com nossas consciências e encaramos o despertador a cada manhã. Nossas realizações, lembranças e expectativas são filhas do Tempo porque nós o somos. Daí toda a pressão e a esperança com que forramos essa cama inquieta que chamamos de calendário.

Passar mais tempo com a família, emagrecer, arrumar um trabalho melhor, adotar hábitos mais saudáveis, entrar pra academia, investir em educação, curtir mais a vida… são todos imperativos do nosso Tempo — e coisas que levam um tempo pra se conseguir ou se dispor a fazer. Mas precisamos mesmo — e sempre — só projetar isso para o primeiro de cada janeiro? Ano novo: vida nova? Por que não nos renovarmos e reinventarmos a qualquer tempo?

Então, meus votos de vida nova para todos partem da recomendação de que deixemos de ver o tempo como algo exterior a nós. Recorrendo novamente a Santo Agostinho, repito que o Tempo é, sobretudo, psicológico e que lidamos com ele internamente. Assim, para além das “marcas do que se foi, sonhos que vamos ter”, fico com a parte que diz “como todo dia nasce novo em cada amanhecer” — desejando a todos que possam dizer, quando perguntados como medem o Tempo: “Meço com o meu espírito”.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Ocinei Trindade

    Texto belo e sábio. Tempo e morte me fascinam. A vida idem. Tempo de ler e viver.

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