Manter o legado de Rosinha ou resolver o caos deixado?

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

Até bem pouco tempo, o discurso do líder governista Fred Machado (PPS) era bem parecido com o hoje ecoado pelo líder do PR na Câmara de Campos, Thiago Ferrugem. E vice-versa. Mantida boa parte das análises presentes de ambos entre oposição e governo, Executivo e Legislativo, elas se diferem do passado recente basicamente pela troca de lados e nomes: do prefeito Rafael Diniz (PPS) pelo do ex-governador Anthony Garotinho — na sexta (17) ameaçado pelo PR de expulsão, antes que esta entrevista fosse feita. Para Fred, a maior dificuldade do governo “será o imediatismo de certas pessoas que acham que todos os problemas herdados serão resolvidos num passe de mágica”. Já para Ferrugem, a missão “é garantir a continuidade das conquistas do governo da (ex-)prefeita Rosinha Garotinho”.

 

Fred Machado e Thiago Ferrugem (Montagem: Eliabe de Souza, o Cásssio Jr.)

 

Folha da Manhã – Hoje, em Campos, é mais fácil ser governo ou oposição? Por quê?

Fred Machado – Acho que tudo que acreditamos é mais fácil. Acredito piamente no governo do prefeito Rafael Diniz (PPS). Sei das dificuldades iniciais que passaremos, tendo em vista o caos deixado pelo desgoverno anterior, mas também sei que com coragem, trabalho e criatividade iremos reconstruir a nossa cidade.

Thiago Ferrugem – A Câmara hoje nos mostra que ser governo é mais fácil, haja vista o crescimento vertiginoso da bancada governista. Rafael elegeu em sua coligação apenas três vereadores e, hoje, já conta com uma bancada seis vezes maior. Porém, se o governo continuar com o comportamento atual de desorganização, falta de diálogo com diversos setores e no descumprimento de compromissos firmados durante a campanha eleitoral, este quadro deve mudar.

 

Folha – Qual considera ser sua maior missão como líder de bancada na Câmara Municipal? E qual deve ser seu principal obstáculo?

Ferrugem – Como líder do PR, nossa missão será duas. Uma é garantir a continuidade das conquistas do governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR) como: passagem social, programas de transferência de renda, pagamento em dia do servidor público, crescimento acima da média nacional na pontuação do Ideb, convocação de novos concursados, entre tantos outros projetos. Outra missão importante, que se confunde como maior obstáculo, será trabalhar pela independência da Câmara, principalmente em seu papel de fiscalizar. O prefeito tem se mostrado como uma velha raposa política em suas negociações com o Legislativo, conquistando na câmara uma maioria invejável.

Fred – Ser líder do governo Rafael Diniz muito me orgulha e minha missão não será diferente da Legislatura anterior, ou seja, manter a independência e harmonia entre os poderes, respeitando e ouvindo todos vereadores, independente de serem situação ou oposição, como sempre prega nosso prefeito. Não vejo obstáculos se realmente quiserem primar pelo diálogo.

 

Folha – Nomeações de parentes de vereadores foram denunciadas como manobra para garantir a eleição do vereador Marcão (Rede) como presidente da Câmara. Concorda? Por quê?

Fred – Na política falam o que querem. Somos homens públicos sujeitos a todo tipo de comentários e temos que respeitá-los. Porém, não concordo com certas afirmações, partindo de pessoas que sempre viveram situações escusas, sendo sempre questionados judicialmente. Acho Marcão o mais bem preparado entre os vereadores para o exercício da presidência. E, assim como eu, a maioria dos vereadores também teve este entendimento. Fizemos uma eleição para a Mesa com toda formalidade regimental e lisura.

Ferrugem – Infelizmente essa prática ainda insiste no Brasil. Rafael tem sido apenas mais do mesmo. De diferente nem o discurso. Eu jamais me sentiria confortável em ter um parente trabalhando em um órgão cuja minha obrigação é fiscalizar. Acho que estas nomeações vão além da própria eleição do vereador Marcão para chefe do Legislativo. Mas com as redes sociais irrefreáveis, o eleitor tem feito seu julgamento.

 

Folha – Até que ponto a proibição da Justiça para Garotinho voltar a Campos facilitou o trabalho do novo governo e dificultou a vida da nova oposição?

Ferrugem – Tenho uma visão menos maniqueísta dos conceitos de oposição e situação. Não tenho dúvidas de que o Garotinho é um político singular. Políticos com o perfil como o dele, arrojado, faz com que o amor e o ódio estejam em seu entorno. Mas não o impedem de cumprir com o seu papel. Foi o Garotinho, com todo o seu arrojo e singularidade, que trouxe à tona as mazelas dos bastidores da política, não só local, mas nacional. Foi o Garotinho, por exemplo, que deu destaque as nomeações de parentes de edis pelo prefeito. Tanto foi assim, que as denúncias feitas por ele nas redes sociais ganharam as ruas e se tornaram pauta de infinitas conversas na famosa rua “do homem em pé”, no Centro da nossa cidade. Assim, com o fortalecimento das redes sociais, a presença física deixou de ser fundamental.

Fred – Esse senhor, que foi citado, não nos incomoda em nada. Ele nos incomodou deixando a cidade com mais de R$ 2,4 bilhões em dividas, notas atestadas sem empenhos, escolas e UBS sucateadas, obras inacabadas e não pagas, mais uma série de artimanhas para tentar travar nosso governo. Mas com uma gestão responsável iremos reverter esse quadro. Quanto à oposição a dificuldade é deles, e eles que podem responder. Falei durante a posse e na primeira sessão legislativa que ainda há tempo de abandonarem a canoa furada e vivermos um novo tempo.

 

Folha – Com o declínio de Garotinho, que tem colecionado erros e derrotas eleitorais sucessivos desde 2014, há espaço em Campos para uma nova oposição? Quem pode ser para Rafael, o que ele foi para Rosinha?

Fred – Acho cedo falarmos em oposição, precisamos deixar o governo trabalhar. Como sempre fala nosso prefeito: “precisamos voltar a entregar Campos dos Goitacazes ao seu devido dono, que é a população campista”. Temos que dar as mãos às pessoas do bem, que acreditam na mudança, inclusive, pessoas estão nos procurando para formarmos uma grande aliança em prol do município. Entre elas, pessoas que viveram do outro lado e hoje se dizem enganadas e dispostas a nos ajudar. O declínio e as derrotas eleitorais sucessivas, nada mais são do que a realidade vivida por essas pessoas.

Ferrugem – O Garotinho é um político inegavelmente vitorioso. Em uma análise holística vamos ver altos e baixos ao longo de sua trajetória. Ele já passou por outros momentos assim. Se pegarmos o período de 2004 a 2008, por exemplo, vemos isto. Assistimos também a sua volta por cima. Ele é uma fênix e não deve ser desprezado. A exemplo da oposição na Legislatura passada, eles atuaram dentro da Câmara em conjunto, mas em palanques eleitorais distintos. Tanto que dois deles foram candidatos a prefeito. Não sei se alguém ali vai cumprir este papel, mas, com toda certeza, eu não serei. Rafael se comportou de forma oportunista com objetivo de alcançar o poder puro e simplesmente pelo poder. Na Legislatura passada o governo anunciou que não teria o carnaval. O que fez ele? Criticou. Depois o governo conseguiu realizar o carnaval, ato contínuo, Rafael mudou opinião e passou a criticar a realização do Carnaval. Nós não nos comportaremos de forma irresponsável e incoerente. Atuaremos com senso de justiça e em defesa do povo de Campos.

 

Folha – Os desdobramentos da Justiça, em Campos, no Rio, em Brasília e em Curitiba, podem mudar o cenário da política fluminense e goitacá? Quais são suas expectativas?

Ferrugem – O que temos acompanhado no cenário, principalmente nacional, é o crescimento das forças políticas conservadoras, que é um fenômeno global e cíclico, mas que vem ganhando intensidade com esses desdobramentos, especialmente com as atuações das Operações Lava Jato e Calicute. Primeiramente esperamos que o Judiciário alcance o real sentido da justiça. E esperamos que a população assimile que cabe apenas a ela o papel de transformação, de mudança de cenário. Se assim não fizerem, mudarão apenas os atores e manterão o roteiro que aí está.

Fred – Acho que estes desdobramentos mudarão não só o cenário da política fluminense e goitacá, como também mudará o cenário político nacional. Minha expectativa é que a população brasileira não deixe que esse movimento esfrie e cobre sempre que os culpados sejam punidos. Nosso papel como legisladores municipais nos cobra um posicionamento no nível de município. E tenho certeza que faremos nossa parte diante de sociedade, abrindo CPIs que possam estar mostrando que Campos se envergonha de ter políticos envolvidos no esquema da Lava Jato, no qual foi citado o clã da família Garotinho.

 

Folha – O que esperar da nova Câmara e do novo governo municipal? Em seu entender, quais as principais dificuldades que uma e outro devem enfrentar em 2017?

Fred – Podem esperar muito trabalho, muita disposição, coragem e fé. Precisamos resgatar a confiança na classe política tão abalada com operações como a Chequinho, Lava Jato e outras. Acredito que nossa dificuldade será o imediatismo de certas pessoas que acham que todos os problemas herdados serão resolvidos em um passe de mágica. Precisamos de paciência da população para resolvermos os problemas financeiros e estruturais herdados. E nós, como legisladores, temos que buscar harmonia, parcerias e principalmente mostrar aos nossos eleitores que o caminho é árduo, mas a vitória e o sucesso estão próximos.

Ferrugem – Na Legislatura passada, Rafael Diniz chamou a Câmara de “puxadinho” da Prefeitura. E me parece que gostou deste termo e quer perpetuar assim. É certo que a interferência do Executivo atrapalhará, e em muito, o andamento dos trabalhos do Legislativo. Mas acredito que, ainda assim, teremos bons debates e propostas, justamente por termos uma pluralidade de parlamentares de ambos os lados, oposição e situação, com formações distintas e que poderão contribuir muito com nosso município. Em relação ao governo, é nítido que o prefeito se preparou para disputar as eleições, mas se esqueceu de se capacitar para governar. Ele abusou da retórica brincando com a esperança do povo, e agora não consegue corresponder, em nada, às expectativas. Mesmo assim, torço para que dê certo. Torço porque é aqui que eu moro e crio meu filho. Mas, sinceramente, do jeito que esse governo começou, confesso que como cidadão campista me deixa assustado esse final.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

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