Manuela Cordeiro — Protagonismo indígena

 

Enoque Raposo (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Nessa semana, gostaria de utilizar o espaço no blog para apresentar Enoque Raposo. Ele é representante indígena Macuxi da comunidade Raposa I/Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde atua como produtor/elaborador de projetos culturais. Graduado em Secretariado Executivo pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e Pós-graduado em Empreendedorismo em Gestão de Turismo pelo The FullbrightProgram – Flórida/USA. É autônomo e aprimora suas experiências como produtor e articulador cultural, destacando-se na pesquisa aplicada e formação de roteiros guiados, em conformidade legal, sobre turismo em áreas indígenas. Com a palavra quem tenho o prazer de chamar amigo, comentando sobre um pouco da História de protagonismo e vivências dos povos indígenas no mundo globalizado.

“Gostaria de falar sobre a profissão de Secretariado Executivo no mundo artístico contemporâneo indígena, uma nova relação organizacional no contexto socioeconômico e sociocultural dos povos indígenas do estado de Roraima onde vivo, que são: Macuxi, Taurepang, Wapichana, Ingaricó, Sapará, Mayongong, Patamonas, Waiwai e Yanomamis. O interesse de trabalhar em prol do reconhecimento cultural é desafiador, porque partiu do complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade. Por isso que digo aos meus parentes indígenas, temos que valorizar, manter, praticar e compartilhar com o mundo. E para o profissional de Secretariado que se qualificou para assessorar altas gerências em organizações é preciso agregar conhecimentos em outros campos, além de organizar eventos, montar planilhas de custo, trabalhar a redação e tradução de documentos. Em outras palavras, é preciso ter o espírito de empreendedor para lhe dar com as exigências das situações da vida cotidiana do mundo globalizado em que vivemos.

Os povos indígenas têm assumido cada vez mais o papel de protagonistas no processo de construção das políticas indigenistas, tratando de seus interesses a partir de uma maior visão crítica das normas positivas que lhe dizem respeito. Internacionalmente, os povos indígenas estão construindo uma vasta área de direito internacional dos direitos humanos com base no respeito à diversidade cultural dos povos e no reconhecimento de direitos coletivos. Citarei como exemplo para nós indígenas, cidadãos de bem, o nosso artista plástico indígena macuxi, JaiderEsbell, que está percorrendo os estados brasileiros com o projeto itinerário de sua autoria que tem por título: IT WAS AMAZON – (ERA UMA VEZ AMAZÔNIA). A exposição apresenta 16 obras inspiradas nos horrores que acontecem nesse exato momento na Pan-Amazônia. Como algo recorrente no cotidiano, ficando tudo sujeito a algo comum, normal, o artista pede que a arte não deixe isso banal. As obras revelam em preto e branco o impacto que deve causar em nós usos e abusos da natureza, na natureza e na condição humana como parte integral da paisagem do lugar. A exploração da pessoa, o alto impacto na vida selvagem, os contrabandos e desmandos que tornam a maior floresta tropical do mundo um palco nada desejável. É a primeira vez que o artista indígena apresenta uma coleção tão impactante e necessária. A ocasião não é menos importante; olhar com outros olhares as realidades da qual fazemos parte é uma das propostas do movimento que reforça todos os esforços de incluir na grande pauta demandas urgentes para os povos nativos, seu habitat e o grande mundo como uno ambiente coletivo. Mais detalhes sobre o trabalho de JaiderEsbell: http://www.jaideresbell.com.br/site/projeto-itinerante/.

A minha parceria com a galeria tem sido uma experiência única. Colocamos em prática as atividades culturais, tradicionais à tona para a sociedade que desconhece ou desvaloriza a cultura indígena. Com a galeria podemos experimentar outras formas de economia, de comunicação e ocupação de espaços antes impossíveis para nós indígenas. Como executivo indígena, o interesse de elaborar projetos partiu de levantar informações sobre o empreendimento e também é uma etapa importante que alimenta outras fases como planejamento, execução, controle e encerramento. Culturalmente, nós, brasileiros, somos pouco afeitos ao planejamento. Preferimos executar, fazer, pôr a mão na massa, ver resultados e, se possível, rápido. Desconhecemos técnicas de elaboração de projetos.

Eu, indígena Macuxi, graduado em Secretariado Executivo pela (UFRR), conhecedor deste cenário, ressalto que os povos indígenas trazem uma importante contribuição ao incremento da diversidade cultural brasileira, estamos evoluindo. Todavia, o reconhecimento oficial da contribuição da diversidade sociocultural dos povos indígenas para a formação da Nação brasileira é recente. E, digo com toda certeza que o nosso território indígena está sendo gerenciado, administrado muito bem pelos índios que lutam pela sua autonomia. É desafiador, claro, mas a nossa grande chance com certeza vem daí. Sou filho de um grande líder indígena que um dia se chamou de Caetano Raposo (in memorial), que foi uma das maiores lideranças indígenas do meu estado, busco manter vivo o legado do meu pai e fazer meus próprios caminhos, sempre respaldado por seus valores a nós transmitidos. Para concluir, eu digo que ‘hoje somos exemplos de resistência e, se buscarmos cada vez mais a união, nunca seremos derrotados’. Salve SalveSalve os povos indígenas! Protagonistas de uma nova história! Povo guerreiros! Inovadores”.

 

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