Opiniões

Ocinei Trindade — Grandes mentiras e uma verdade

 

 

 

Na última semana, a rede social Facebook foi tomada por confissões de seus usuários em um jogo de verdades e mentiras. A proposta era que os seguidores de cada perfil adivinhassem o que era verdadeiro ou falso nas declarações postadas. Li algumas dessas listas, achei divertido (e cansativo), ensaiei fazer a minha lista, mas desisti rapidamente. Não sou um bom mentiroso ou não tenho tanto talento para a mentira. É verdade, acreditem ou não (apesar da desonestidade estar em alta no Brasil, especialmente no falido estado do Rio de Janeiro governado por políticos inescrupulosos nas últimas décadas).

Ao ler as confissões das pessoas, lembrei-me de um texto que escrevi há seis anos em meu blog, cujo título é A maior mentira do mundo. O conteúdo daquela crônica se refere à uma piada machista muito comum em rodas de conversas sobre práticas sexuais (homo ou hétero), quando se utiliza da proposta de coito superficial feita por sedutores com um pé na cafajestagem, e outro pé na mentirinha pseudo-inocente. Os seduzidos também se entregam à mentira em jogos de fingimentos.

A piadinha infame parece até a relação entre políticos e eleitores. Quando aqueles dizem que não vai doer nada, estes creem e cedem sofrendo todo tipo de consequência ou violência depois do voto-coito. Sigmund Freud explicaria.Darcy Ribeiro também discorreria desses joguinhos promíscuos brasileiros. Somos tão mal-educados que nem o sexo escapa de nosso mal-estar (in)civilizatório. Já faz algum tempo, há um “estupro coletivo” e “roubo generalizado” por parte das autoridades fluminenses e do governo do país com a população (além de alguns megaempreiteiros, como bem sabemos).

Quanta mentira o Brasil vive! O Rio de Janeiro experimenta os resultados de muitas mentiras praticadas em atos de corrupção dos últimos governos (diversas prefeituras fluminenses também podem ser incluídas nestas listas de muitas mentiras e poucas verdades em se tratando de verbas públicas desviadas ou mal-empregadas) que arruinaram as finanças do segundo estado mais importante da federação.  A situação que já não era boa na segurança, nos hospitais públicos e escolas estaduais, fez com que as universidades Uerj, Uezo e Uenf também amargassem caos e incertezas.

Fomos tomados pela indignação, mas também por um estranho silenciamento que até pode ser rompido em postagens de redes sociais. Para mim, não basta (mas fazer exatamente o quê em curtíssimo prazo se temos urgências?). Sei que protestos e enfrentamentos também carecem de estrutura, financiamento e dinheiro (coisas que muitos servidores sem salários ou mal-pagos não têm, além de haver milhões de desempregados em toda a parte). Reféns e cansados de esperar soluções de políticos desmoralizados, os cidadãos fluminenses reagem como boa parte dos brasileiros diante da opressão de um Estado calhorda e ineficiente: deixa o barco correr, a ver até onde se chega, sem muito a fazer. Será o fim? Haverá como cavar ainda mais o fundo do poço no Rio de Janeiro e no Brasil com seus dramas sociopolíticos?

Espera-se por milagre ou pela morte (esta é verdadeiramente certa de acontecer). Eu sinto raiva dos políticos, mas também da sociedade que não reage. Não posso esquecer que faço parte desta sociedade que abriga esses políticos ruins. Somos todos tão ruins assim?  Há muitos interesses em jogo. E, brasileiramente, “falamos” em defesa do coletivo, mas não esqueçamos que nossa vontade pessoal tende a ser mais valorizada. O jeitinho brasileiro é uma sacanagem generalizada em busca de vantagens.

Repito a frase de Maria Bethânia: “estou morrendo de pena do Brasil”. Eu também estou morrendo de pena do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual do Norte Fluminense. País polarizado e dividido? Sempre foi: milhões de pobres explorados e pouquíssimos ricos poderosos. Nessa casta elitizada e privilegiada verificamos representantes dos grandes partidos políticos brasileiros (todos os partidos estão desmoralizados, nenhum escapa).

Desde que a lista do ministro Luiz Edson Fachin finalmente veio ao conhecimento público (esperava-se por isto antes do ministro Teori Zavascki morrer em um acidente aéreo suspeito) com o teor das delações de executivos da construtora Odebrecht sobre as operações de caixa dois e propinas nos últimos governos estaduais e federal; vemos de um lado, políticos serem desmascarados com detalhes, e do outro lado, políticos negando tudo e afirmando que as delações são invenções mentirosas, e que seus autores não possuem provas do que dizem. Alguém duvida sobre essas verdades e mentiras? Pois é, alguns fanáticos e criminosos só enxergam a verdade que lhes convém.

Há pessoas que mentem com tanta frequência e convicção que a mentira passa a ser confundida com a verdade ou se transforma em verdade. Isto ocorre com a ficção quando vemos filmes e lemos romances em demasia; quando jogamos determinados games esquisitos em ambiente virtual (a tal baleia azul anda ajudando a matar gente que sofre de depressão, por exemplo); quando passamos a viver conectados em rede, mas sem saber dirigir a palavra ou ouvir uma pessoa ao lado.

Assim, entre ilusões e omissões, construímos realidades falsas ou verdadeiras mentiras. Infelizmente, a educação brasileira está inserida nesse contexto. Quando enfim produzimos conhecimento científico e pesquisas nas universidades, alcançamos êxito ou reconhecimento de uma comunidade acadêmica, vem o golpe dos governos com corte de orçamentos e verbas, além de sequestro de dinheiro público para favorecer empresários e empreiteiras suspeitas (o pior é que sempre soubemos e nunca provamos).

No país dos mentirosos, apesar de tantos escândalos financeiros e roubos de dinheiro público por parte de políticos e empresários gananciosos, o que nos restará? Não sei se a população quer, de fato, encarar verdades e se livrar das mentiras que nossos opressores nos impõem, pois nenhum de nós, acredito, tem sido honesto e verdadeiro o bastante. No entanto, diante de tantos crimes contra a nação, vemos o Brasil falir, hospitais agonizando, escolas depredadas, servidores públicos sem salários, avanço da criminalidade, escalada da violência nas cidades e no campo, população cada vez mais insegura: o dinheiro público que deveria ser aplicado nessas áreas tem sido roubado para abastecer uma lista enorme de políticos mentirosos que ajudamos a eleger.

E qual o papel dos juízes e promotores públicos de justiça diante dessa bandalheira toda? Sinceramente, tenho dúvidas. No Brasil, dizem, a justiça não funciona para pobres e pretos (a imensa maioria). Para condenar ricos e poderosos, o tempo se arrasta em recursos e manobras de advogados caros, até prescrever o crime, praticamente. O debate é amplo e espinhoso, eu sei.

Temos sido escravizados e usurpados por mentiras há várias décadas no Brasil. Desde que a democracia foi retomada no país, em 1985, não paramos de errar e de afundar em um oceano de lama podre. Os discursos dos partidos políticos não servem para mais nada; simpatizantes pelo extremismo começam a ganhar espaço com acenos para a volta do regime militar ou a eleição de radicais e ditadores. Quando Cazuza compôs “Brasil” e pedia para que o país mostrasse sua cara e revelasse o nome do seu sócio, a Odebrecht já existia e já aprontava todas com o dinheiro público, muito semelhantemente com esta era. Mais de trinta anos depois, o cenário não mudou quase nada, mas piorou em matéria de roubalheira e descaso.

O evangelista João afirma em seu texto que quem conhece a verdade é libertado por ela. Hesito quanto às mentiras que parecem verdades e que nos confundem. Há verdades que pessoas não querem acreditar. Se há solução para o Brasil? Isto vai depender verdadeiramente de profundas mudanças, mas não sei até quando e onde conseguiremos suportá-las. Viver em um mundo de ilusões e de mentiras também tem seu preço. E como temos visto nesta operação Lava-Jato, verdades e mentiras custam muito caro a todos os brasileiros. Estamos em uma guerra de nervos. Sobreviremos? Espero que sim.

 

* * * * *

 

Já contei neste espaço do meu encontro com Darcy Ribeiro nas primeiras reuniões para a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense: foi uma honra. Depois que me tornei jornalista, perdi a conta de quantas reportagens realizei na instituição. Em 2014, fui aluno especial no programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem no Centro de Ciência do Homem. Em 2015, fui aprovado como aluno regular, e nesta semana, enfim, defenderei minha dissertação para receber o título de mestre. Uma grande conquista pessoal auxiliada pelos professores e servidores da universidade. Caminhar pela Uenf, passear por entre os prédios projetados por Oscar Niemeyer é uma inspiração para mim. Estudar é privilégio e um caro investimento.

Tenho muito orgulho de estar na Uenf, de aprender com a comunidade acadêmica, de pensar soluções para nossa sociedade, para Campos, o Rio e o Brasil. Os campistas precisam e devem se orgulhar dessa universidade (muitos estrangeiros e imigrantes sentem esse orgulho). É preciso promover e estreitar laços das pessoas que vivem na cidade e região com os responsáveis pelo ensino (e vice-versa).

A Uenf não é e não deve ser uma instituição para uma determinada “elite”. Ela pertence à população. É um desafio enorme batalhar por um país justo e democrático em qualquer lugar. Por acreditar na educação, só vejo saída evolutiva e desenvolvimentista passando pela família e pela escola fundamental e cidadã, por uma universidade (que deveria se chamar diversidade ou multidiversidade) capaz de dialogar com todas as pessoas e segmentossociais e econômicos (inclusive com o setor privado que também pode contribuir em parcerias com o poder público).

O futuro da Uenf está em jogo. A ameaça ao Rio de Janeiro é enorme, pois há um colapso em andamento. A solução só acontecerá quando a população fluminense realmente decidir solucionar. Como fazer? Não sei exatamente. Alguns cogitam até uma divisão da federação, a independência do estado do Rio, já que a União (com pouca credibilidade), ao que parece, não demonstra muito interesse em resolver nossos problemas sociais, econômicos e políticos (que são muito graves e que nos pertencem, sim). Não defendo divisionismos. O Brasil carece de unir forças contra a corrupção e necessita fazer uma série de autocríticas: é preciso decidir a Campos, o Rio de Janeiro e o Brasil que queremos. É necessário rever a Uenf que precisamos e podemos ser. O tempo é de lutas diárias. Para vencer tantas adversidades e mentiras, vamos precisar de todo o mundo.

A foto do praticante de slackline que ilustra este texto fiz há alguns meses durante minhas caminhadas pelo lindo campus da Uenf (há bosques magníficos que muita gente da cidade desconhece, pois nunca entrou ali). A imagem serve para refletirmos sobre o equilíbrio que necessitamos para lidarmos com os problemas do Rio de Janeiro e da universidade. Repensemos e atravessemos sem cair.

 

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Este post tem 10 comentários

  1. “Desde que a democracia foi retomada no país, em 1985, não paramos de errar e de afundar em um oceano de lama podre (…) Quando Cazuza compôs “Brasil” e pedia para que o país mostrasse sua cara e revelasse o nome do seu sócio, a Odebrecht já existia e já aprontava todas com o dinheiro público, muito semelhantemente com esta era. Mais de trinta anos depois, o cenário não mudou quase nada, mas piorou em matéria de roubalheira e descaso.”

    Supimpa!

  2. Achou cansativo o jogo de verdades e mentiras do facebook? E depois do primeiro parágrafo escreveu outros 18? Entendi …

    1. Sim, Mario, é verdade. O jogo do Facebook é bem melhor que 18 parágrafos. Eu te entendo. Grato pelo comentário.

  3. A matéria tem 19 parágrafos e não 18. Não é facil pensar em um jogo tão cansativo.

    1. Sim, são 19 parágrafos pensativos e cansativos. Você tem razão. Pensar cansa.

      1. Contradições cansam mais.

        1. Muito mais, Mario, com certeza, muito mais.

  4. Palavras de mestre gostei,o tempo que politicos estao perdendo com CPI, corram enquanto e tempo para salvar a UENF.

    1. O tempo é um bem de todos, mas temos desperdiçado, Cesar

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