Fabio Bottrel — Escravos do tempo

 

Sugestão para escutar enquanto lê: José Siqueira – Oração aos Orixás

 

 

 

 

 

 

Julho de 1.832

Vila de São Salvador

 

Cabrósio, visionário homem de negócios, desembarcava mais uma remessa de escravos na sua tão querida Vila de São Salvador. Após uma viagem extensa, vendia quase toda a remessa no mercado de escravos do Rio de Janeiro e reservava os mais valiosos para seus amigos de engenho nessa Vila que jurava, de pés juntos quando escutava: “Aqui sempre existirá escravos!” Mal havia chegado e os rumores saltavam aos cantos de seus ouvidos, em cada canto que saltavam seus pés, de que em breve nas terras brasileiras todos os escravos serão libertados, sem indenização ou coisa alguma para quem os tenha comprados. Esbravejava os senhores de engenho contra essa gente transgressora que visa destruir a economia dessa nação! – Cabrósio pestanejava. Pela primeira vez ao chegar à Vila, teve dificuldade de vender seus escravos, que acorrentados ao carro de boi, emagreciam e desvaliam cada dia mais seu abençoado lucro.

Barão Labareto Boafortuna, fiel cliente e maior comprador de escravos, recebeu Cabrósio de braços abertos em suas largas terras de braços fechados. Sentaram afastados da sede, onde os homens conversavam de negócios longe da família, ao redor de uma mesa no jardim, com um café que eterniza o sabor amargo a colher sempre nessa planície.

— Cabrósio, sabeis vosmecê que os boatos d’alforria correm nessas terras tão rápidos como corre o sangue em nossas veias… e seus escravos são caros… investimento muito ousado para um iminente dissabor dessa nobreza tão ignóbil.

Os pelos do homem de negócios se arrepiaram ao ouvir do barão sua recusa tão instantânea, via seu negócio falir, ali mesmo, nas breves palavras baronesas. Mas Cabrósio, bom comerciante que é, aprumou-se logo em sua mente uma maneira de persuadir Labareto Boafortuna. Afeito à ficção e ficcionistas, dejá pensou n’uma que lhe parecia muito mirabolante, mas sua lábia trataria de esmiuçá-la a ponto de transformá-la palpável.

— Grande barão Labareto Boafortuna, dileto amigo e irmão de negócios, se me honras o debate ao que lhe fora dito, é dever da amizade lhe informar que agoniza por algo sem sentido. És um visionário, nobre Boafortuna, olhe para essa paisagem não com o verde que sopra a juventude à nossa face, mas o marrom que apodrecerá essas folhas em tempos longínquos.

Veja, barão, o som que emana do berrante a unir essa gente é ensurdecedor, teremos não só escravos vindouros, mas transformaremos toda a Vila, que em breve se transformará na cidade Campos dos Goytacazes, em escrava. Em tempos distantes venderemos o futuro de todos que nela habitam. – Disse Cabrósio, tão confiante quanto podia.

— Mas que estapafúrdia! – Disse Labareto com os olhos arregalados. – Como seria possível transformar toda uma cidade em escrava, como venderia o futuro das pessoas, para quem??

— Ora, barão, não é difícil notar, quantas universidades vosmecê vê aqui brotar? Pr’onde pensas que vai o futuro dessa gente, que dejá é demente? Em breve o povo que habita essa terra será tão alienado que venderemos o futuro de seus filhos, antes mesmo de terem nascidos, seus pais e demais, forçando-os a trabalharem por anos para pagar. E digo mais, querido Boafortuna, eles nem saberão que são escravos, pois as algemas do tempo não estão aos olhos do corpo.

— Mas por que isso não existe em tempo presente?

— Por que estamos apenas começando o processo de alienação, no futuro haverá tanta corrupção, que honestidade perderá o sentido. De fato, naquele que a couber, será relevo para todos os demais erros.

Confie em mim, barão, aqui nunca deixará de ter escravos.

Labareto Boafortuna aquiesceu à lábia e aceitou de bom grado o sabor amargo do café que molhou as palavras videntes.

 

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