Gustavo Alejandro Oviedo — O amigo da liberdade

 

“A expulsão dos mercadores”, de Quentin Matsys

O filósofo espanhol Antonio Escohotado publicou no final do ano passado o último dos três volumes de “Los Enemigos del Comércio”, um ensaio monumental de história, sociologia e política que o teve ocupado durante 17 anos. O tratado é uma apologia do capitalismo através da revisão de todas as ideias e doutrinas contrarias a ele, ao longo da história ocidental.

A tese de Escohotado é  a seguinte: quem é contra o comércio é contra a liberdade, o conhecimento e o progresso. O filósofo defende essa hipótese através de mais de dois mil páginas que revelam uma pesquisa exaustiva e minuciosa, partindo desde a Grécia antiga até chegar ao século XX.

“Quando comecei o livro — esclarece Escohotado no prefácio — tinha me proposto a princípio uma coisa simples, impulsionado pela necessidade de reconstruir para aprender. O objetivo era precisar, tanto quanto possível, quem, e em qual contexto, sustentou que ‘a propriedade privada constitui um roubo, e o comércio é o seu instrumento’. Vários anos mais tarde — após saber quais foram essas pessoas e grupos desde o século XIX — entendi que a sua tese era anterior, que tinha reinado vários séculos sem oposição e que aquela área da árvore genealógica comunista era pertinente para não confundir o tronco com as folhas, o perene com o efêmero”.

Escohotado pode (e deve) ser chamado de liberal, mas de forma alguma de conservador. Fervoroso defensor da liberação total das drogas, ficou famoso ao final década de 80 pela sua “História General de las Drogas”, um tijolão de 1.400 páginas, e do qual existe um resumo chamado “História Elemental de las Drogas”, editado no Brasil. O escritor certamente sabia do que falava: é um reconhecido  consumidor de alucinógenos e outras sustâncias ilícitas. Até hoje, com 76 anos, fuma 3 maços de cigarros por dia.

Em 1976, morando em Ibiza, Escohotado abriu uma boate chamada “Amnésia” com os recursos da herança de sua mãe. “Amnésia” viria a ser uma das casas noturnas mais célebres e badaladas do mundo, mas também seria a causa de um processo criminal contra o escritor, sob a acusação de comandar a “máfia hippie” da ilha. Condenado pelo curioso delito de “tráfico de drogas en grado de tentativa imposible”, Escohotado preferiu ficar preso a recorrer da sentença, e considerou aquele período de reclusão como “humildes férias pagas”. O “Tratado General de las Drogas” foi escrito na cadeia.

Não se pode dizer, portanto, que a defesa ao capitalismo de “Los Enemigos del Comércio” provenha de um direitista reacionário. E nem se cogite associar o anticomunismo de Escohotado ao dogmatismo católico. Para o espanhol, a Igreja é tão coletivista  — e hipócrita — quanto os socialistas. O economista Javier Paz Garcia explica:

“O livro, como o indica o seu título, se concentra na influência das ideias contrárias à propriedade privada, ao comércio livre e voluntário, à geração de riqueza e à liberdade em geral. Desde os admiradores da militarista Esparta por sobre a culta e democrática Atenas, até o alvorecer do comunismo, Escohotado analisa a evolução de uma seita judia cuja ascensão coincide (e não por coincidência) com a decadência do império romano e a submersão da Europa num período de mil anos de obscuridade e estagnação”.

Em síntese, trata-se de um livro fascinante de um sujeito ainda mais fascinante. Um livre pensador que desconfia dos dogmas, pois, segundo ele, “dogmatismo é preferir o prejuízo ao juízo, a legislação ao direito, a costume ao livre exame. A minha obra está destinada a combatê-lo”.

 

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