Gustavo Alejandro Oviedo — Os direitistas saem do armário

 

Assembleia francesa em 1789 — liberais girondinos à direita, extremistas jacobinos à esquerda

 

 

Sempre foi muito confortável se autodeclarar ‘de esquerda’. Até pouco tempo atrás, havia  quase unanimidade no entendimento de que aquele que era de esquerda estava do lado ‘do bem’, em contraposição àqueles que eram apontados como ‘de direita’, que, logicamente, estavam do lado ‘do mal’.

Resumindo grosseiramente, ser de esquerda é ser a favor de que todo mundo tenha, aqui e agora, aquilo que necessita. E que seja o Estado o principal responsável de satisfazê-lo.  Essa descrição pode parecer um tanto exagerada, mas é bom lembrar que  esse voluntarismo aparece na própria Constituição Brasileira, a mais alta e prolixa expressão normativa das boas intenções da nação. Até 2003, por exemplo,  a Carta Magna determinava  que a taxa de juros não devia ultrapassar de 12 por cento ao ano – limitação que nenhuma instituição financeira, nem mesmo o governo, respeitou jamais, até ser finalmente revogada.

Dado que todo mundo se coloca do lado ‘do bem’ e ninguém se autopercebe malvado ou egoísta, acontecia que quando alguém manifestava que a manta era muito curta e não dava para cobrir o corpo todo, era chamado de direitista. Uma categoria determinada por exclusão. Daí que praticamente não existam partidos políticos que se reconheçam de direita.

Quem é de direita é (ou deveria) ser a favor do capitalismo. E o capitalismo goza de muita má-fama. É bem curioso, porque foi esse sistema econômico, e não o socialismo, que tirou da pobreza extrema 90% da população mundial nos últimos 200 anos. Mas com o anti-capitalismo acontece coisa similar ao que acontece com a religião. A maioria diz acreditar em Deus, mas no dia-a-dia se comportam como se não existisse. Por sua vez,  todo mundo quer ser  ‘de esquerda’ — e todos somos  burgueses, assalariados e consumidores.

Como disse, isso era assim até pouco tempo atrás. Hoje em dia as coisas se equilibraram um pouco. Já existem vários grupos que se atrevem a autodenominar ‘de direita’. Tem sentido: treze anos de governo do PT, que acabaram numa crise institucional e econômica, animou a muitos a saírem do armário ideológico.

No entanto, ser de direita ainda é uma categoria muito grande, que junta nacionalistas, liberais, fascistas, conservadores ou simples odiadores do PT. As subcategorias são tão distintas entre si como as que existem entre um socialdemocrata e um trotskista.

É lamentável, contudo, que hoje o máximo representante da direita seja Bolsonaro. Um sujeito que, entre outras barbaridades, reivindica a tortura e a ditadura. Apesar disso, penso que há, na maioria de seus simpatizantes, mais oportunismo do que afinidade ideológica, pois Bolsonaro atende àquela crescente parcela da população que associam a corrupção à falta de resposta às demandas da sociedade, principalmente no que diz respeito à segurança. Um sujeito como esse só sobressai quando as pessoas ficam fartas, e infelizmente há de se reconhecer que há motivos para tanto: o aumento da criminalidade é um fato inconteste. Parafraseando um poema de Borges, o que une aos Bolsonaristas não é o amor, mas o espanto.

Como liberal, ainda aguardo a aparição de um líder que me represente. Alguém que reconheça sem medo que o capitalismo é o sistema que efetivamente melhora a vida das pessoas, mas que esse capitalismo precisa garantir a livre concorrência e assegurar igual oportunidades para todos. Quero um político que tenha a coragem de se declarar contra a punibilidade do aborto e a favor da legalização das drogas, pois acredita que o individuo tem direito a fazer o que bem entende consigo mesmo, desde que não prejudique terceiros. Um condutor que entenda que o governo não é uma finalidade em si mesma, e que a sociedade não tem condições de bancar suas mordomias e excessos, e menos ainda sua ineficiência e corrupção. Que acredite na capacidade das pessoas de se virarem para melhorar suas vidas, garantindo a elas o essencial para poder decidir seus destinos: uma excelente educação básica, um prato na mesa, saúde e paz, e a certeza de que vivem num país onde ser ‘do bem’ compensa, sejam de esquerda ou de direita.

 

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Este post tem um comentário

  1. Júlio Crespo

    O liberal e o socialista são sujeitos que acreditam que um feto é como uma unha ou um cabelo que a mulher pode cortar e jogar no lixo. Ainda bem que as mães deles não os abortaram e eles podem assim com toda liberdade e igualdade, falar suas bobagens por aí hoje. Enquanto para o liberal, a liberdade é a sua religião, o seu deus, para o socialista, o seu dogma de fé é a igualdade. Como se a liberdade e a igualdade pudessem ser um fim em si mesmas. No fundo são duas faces da mesma moeda materialista. Mas esses dois tipos decadentes da era moderna não sabem que nem só de pão vive o homem.

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