Opiniões

Paula Vigneron — Para não esquecer

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Em um engarrafamento no Centro de Campos, três pessoas conversam sobre os rumos políticos do país em um momento no qual os cidadãos buscam soluções rápidas. No cenário nacional, debates e divergências — em sua maioria, dominados por muitas vozes e poucos ouvidos, devido à incapacidade de escutar o próximo — aceleram o descrédito em relação ao futuro. Redes sociais afogam-se em brigas ideológicas infrutíferas. De um lado, quem acredita na violência como solução para a violência. Do outro, quem continuar a crer a despeito dos anos de desgaste.

Ao volante, o homem, firme em suas posições, aponta que não há outra solução a não ser Jair Bolsonaro na presidência. Ele, sim, em sua concepção, pode consertar o Brasil. Os argumentos vão da conhecida violência até o crescimento da discussão sobre a questão de gênero:

— Criança é criança. Não pode ser assim. Querem colocar até em livros didáticos. Eu nunca vi o país desse jeito. É muita bagunça. Mas é minha opinião.

Mas a opinião dele era partilhada por, em média, 30% dos brasileiros, entre 16 e 33 anos, que, de acordo com pesquisas recentes, votariam em Bolsonaro em situações simuladas durante a coleta dos dados. No entanto, não só essas gerações se posicionaram a favor do militar. Acima dos 40, é possível encontrar outros eleitores do candidato. Entre eles, está um comerciante de Campos.

Em setembro, o homem foi vítima de uma tentativa de assalto dentro de seu estabelecimento comercial. Outros homens chegaram e pediram que ele passasse seu cordão. Enquanto fingia tirá-lo de seu pescoço, ele caminhou até seu carro, abriu a porta e afirmou estar armado para afastar os bandidos, que atiraram e quase atingiram uma pessoa que estava no local.

No momento em que narrava o caso, sendo atentamente ouvido por clientes apavorados com a crescente violência, no caixa da padaria, o homem fez elogios ao período ditatorial:

— Na ditadura, a gente podia andar tranquilamente pelas ruas a qualquer hora. Não tinha esse perigo, não. Não houve nada disso de que falam. Eu vivi esse período. E sou eleitor de Bolsonaro.

Apesar da crise política pela qual passa o Brasil, com somente 3% da população aprovando o governo de Michel Temer — que escapou de investigações sobre evidenciados atos de corrupção e se mantém no poder por meio de conchavos com deputados e senadores —, é necessária uma retrospectiva para compreender melhor os ideais do segundo principal candidato à presidência da República. Marcado por tentativas de vandalismo em quartéis e outros pontos do Rio de Janeiro, Bolsonaro também é lembrado por celebrar torturadores do período ditatorial e por sua comemoração solitária dos 51 anos do golpe militar.

No dia 31 de março de 2015, em frente à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o deputado estendeu uma faixa em que parabenizava os militares, agradecendo-lhes por terem impedido o Brasil de se tornar Cuba. Na ocasião, ele soltou rojões e usou o artifício para chamar atenção para si, visto que, até se destacar por polêmicas, sua atuação era pouco conhecida por grande parte da sociedade.

Pouco mais de um ano depois, em 18 de abril de 2016, durante a votação do processo de Dilma, que resultou em seu impeachment, o deputado federal dedicou seu discurso aos militares de 1964 e seu voto favorável à retirada da presidente “à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (único militar brasileiro reconhecido pela Justiça como torturador), o pavor de Dilma Rousseff”. Em outro episódio recente, ocorrido em dezembro de 2014, Bolsonaro afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela não merecia e por achá-la feia.

Atualmente mais contido em seus posicionamentos, visando à corrida eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro busca a consolidação de uma imagem diferente da já conhecida pelos brasileiros. Mas, para que os eleitores não sejam novamente trapaceados, é necessário sempre se recordar da trajetória do candidato. No artigo “No 40º triste aniversário do triste evento de 1964: o golpismo contra a História”, o historiador e cientista brasileiro Jacob Gorender alertou a sociedade sobre a fragilidade do nosso sistema de governo: “Há muita criminalidade, o país está longe de ser um paraíso, mas é uma democracia. Trata-se, contudo, de uma democracia que veio à luz num parto difícil, cuja sobrevivência e consolidação exigem vigilância constante e esforço político incansável”.

 

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