Igor Franco — Lutar o bom combate

 

Frederick Charles Copleston e Bertrand Russell

 

 

Data de 1948 um famoso debate (aqui) transmitido pela BBC entre o padre católico Frederick Charles Copleston e o matemático Bertrand Russell. Em comum, ambos possuíam sólida formação filosófica e o interesse pela lógica e pela metafísica. Em divergência, todo o resto. Russell tornou-se famoso por suas contribuições à lógica, mas foi recentemente resgatado por certas correntes de filosofia pela sua negação à existência de Deus. Durante o debate, editado diversas vezes como livro e cuja transcrição dos áudios originais está amplamente disponível na internet, padre Copleston e Bertrand Russell digladiam-se ao longo de diversas batalhas que percorreram os pontos mais comuns de divergência filosófica quanto à realidade do divino: o argumento moral, o argumento da contingência, a experiência do divino entre outros. Um ponto, porém, é distintivo na guerra travada entre os dois sábios: a polidez com que se tratavam e os termos claros com os quais expunham seus argumentos. Não havia desrespeito, tecnicalidades ou mesmo fuga das controvérsias levantadas.

Não consigo imaginar qualquer outro grande debate que não possa ser nuançado ou matizado a depender de determinada abordagem ou experiência histórica. Na disputa pela validade ou não da metafísica, não pode haver meio termo. Ou bem Deus existe e, nesse caso, tudo o que Bertrand Russell propagava estava completamente equivocado, ou bem o Altíssimo é ficção e cai por terra não só a metafísica do padre Copleston, mas a maior parte do seu sistema de valores. A aniquilação do outro lado era conditio sine qua non da validade argumentativa de qualquer um dos debatedores.

A ingrata tarefa daqueles debatedores possuía um outro agravante: a resposta não pode ser conhecida pelos envolvidos. Ao tratar de algo além da física, além da experiência, além do real, somente os termos definitivos jamais estariam ao alcance daqueles debatedores ou de quaisquer outros que empreendessem a mesma jornada. Nada disso, porém, impediu a crença na liberdade de ambos defenderem o que acreditavam e, mais que isso, fossem respeitados por suas ideias.

Remonta ao filósofo pré-socrático Parmênides a fundação da metafísica. Sua única obra conhecida tratando do Ser e do Não-Ser inaugura uma tradição que terá como expoentes imediatos Platão e Aristóteles. A metafísica helênica encontra abrigo e transformação na tradição judaica que é transformada em doutrina cristã. Santo Agostinho, Santo Anselmo e, principalmente, Santo Tomás de Aquino alicerçaram a ideia filosófica do Deus cristão sobre o terreno preparado anteriormente. Kant, entretanto, emerge para decretar a morte da metafísica a reboque da crescente contestação religiosa empreendida pelo ceticismo e pelo racionalismo. A partir daí, o desenvolvimento da metafísica é interrompido e sua sobrevivência depende de confrontos diretos com outras correntes de pensamento – como exemplificado na disputa Copleston-Russell.

Faço essa longa introdução para saudar o evento a ser sediado (aqui) na próxima quarta-feira no auditório da Uniflu (prédio da Faculdade de Direito de Campos) às 18:30, quando, além deste escriba, outras pessoas se empenharão em elevar o debate que permeia a vida política brasileira há pelo menos quatro anos. A partir das Jornadas de Junho, lembradas (aqui) nesta Folha na última edição de domingo, tem início uma vida ativa nas redes sociais em que a disputa pela hegemonia do discurso muitas vezes descaminha para agressões verbais e abalo em relações de amizade ou mesmo familiares.

Alegremo-nos por tratarmos de temas que não representam uma necessária anulação da outra parte em caso de razão pontual. Diversos acontecimentos históricos provam que o fim da história não pode ser previsto para um determinado tempo, ou mesmo identificado em ocorrências passadas. A queda do muro de Berlim e a crise financeira de 2008 demonstram a força das ideias e a capacidade de adaptação das mais variadas correntes de pensamento que transformam e são transformadas pelo mundo.

Que na próxima quarta possamos contribuir para o aumento da tolerância e para, sem dúvidas, o objetivo maior de cada um: o desenvolvimento do país com justiça, liberdade e prosperidade. Que lutemos o bom combate!

 

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Este post tem um comentário

  1. Guiomar Valdez

    Avante!E congratulações!

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