Guiomar Valdez — Em tempos de intolerância e desmedidos, é possível pensar também a realidade através da relação psicanálise e política?

 

 

 

Fiz esta pergunta a mim, a partir do conhecimento das ideias, de alguns poucos artigos e de um livro, do psicanalista brasileiro Christian Ingo Lenz Dunker**. Portanto, ainda é muito embrionário o meu aprendizado (sempre aberto ao diálogo e ao debate, é claro!). Para mim, que assumo, por livre opção, a análise do mundo, preferencialmente, a partir do campo da teoria social crítica, em especial, o materialismo histórico-dialético, foi estimulante conhecer esta relação, que parecia algo impossível, até, então.

Encontrei neste aprendizado uma articulação e sintonia com o tema ‘Crise’, que vem me ocupando há algum tempo, e, que cheguei a apresentar por aqui alguns apontamentos. Ou seja, os campos da Psicanálise, da Política e a Crise (pessoal e/ou social que estamos imersos), se relacionam, em busca de respostas para os desafios contemporâneos, em especial, para as Dores, para os Sofrimentos, e, por que não, para a Felicidade.

Aprendi que entre a Psicanálise e a Política, existem conexões e similaridades orientadas para a transformação social, não somente individual, a partir de alguns conceitos e/ou categorias comuns aos dois campos do conhecimento, como a ‘Palavra’, o ‘Conflito’, a ‘Associação livre’, a ‘Liberdade’, a Resistência’ e a ‘Censura’, por exemplo.

Segundo Dunker, esta aproximação se deu de maneira mais sistematizada e de alcance Político, a partir do desafio de pensar ‘a psicanálise de massa do fascismo’, considerado o primeiro momento desta relação, especialmente sobre o tema ‘passividade’ no contexto deste fenômeno histórico. O segundo ‘capítulo’ desta conexão, se desenvolve na riquíssima ‘Escola de Frankfurt’, que contribui, dentre outros aspectos, no repensar, no reteorizar as ideias de ‘Dominação’, de ‘Corpo’, de ‘Consciência’, de ‘Alienação Cultural’. O ‘Maio de 1968’ ou o ‘Marxismo francês’, é considerado o terceiro momento, especialmente quando se dá a aproximação do psicanalista francês, Jacques-Marie Émile Lacan com algumas ideias de Marx, em especial, sobre a ‘Alienação’, articulando-a com os ‘Estranhamentos de nossos desejos’, como desafio pensante, bem como, o tema ‘Fetichismo da mercadoria’.

Pois é, reconheci, então, que esta relação já faz parte consistente da História do Pensamento ocidental, que, esta, não é linear, nem harmônica, mas de uma livre e rica ‘tensão positiva’, de ‘conflito transformador’!

Aproximando Psicanálise e Política (Brasileira), com todo o ‘pacote de maldades de todo tipo’, que desesperança, e, se, isso for verdadeiro, alimenta o fenômeno do ‘desespero’, solo fértil para as relações de intolerância, de violência, de inconsistência, de desumanidade, e, paradoxalmente, em atitudes de ‘passividade’, tudo isso, ricamente exemplificados, nas diversas ‘redes’ sociais e na vida não virtual, aquele, do ‘olho a olho’.

Duas questões compartilho com vocês, a luz dos estudos do psicanalista Dunker, sobre o nosso Brasil de hoje. Vamos lá! Primeira:  Como explicar a passividade das pessoas, diante de todas as medidas altamente rejeitadas pela população, como mostram as pesquisas, e vindas de um governo, segundo os mesmos levantamentos, tido como o mais impopular da história?

Segundo ele, se dá por causa da VERGONHA, e que isso vale tanto para a direita como para esquerda.

A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma “conversinha” e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam. O que acontece quando a gente é enganado? A gente sente vergonha. E a vergonha é um afeto extremamente transformativo, potente, muito mais potente que a culpa porque a culpa você faz a penitência e pode pecar de novo. A vergonha paralisa. Inibe. Diz assim: “não vou voltar mais lá, não quero saber desse assunto, não quero opinar sobre esse ponto, não quero mais saber de política”… É o que está acontecendo. Você entrega a coisa para a barbárie. Há um sentimento – e a gente escuta isso no divã, na cultura – de uma coisa impronunciável. O que a pessoa vai dizer? Vestiu a camisa da seleção, bateu panelas… E não são idiotas. Não são pessoas de má-fé, mas estavam acreditando no que estavam fazendo e no momento seguinte percebem que seu tio perdeu o emprego, sua filha não tem mais educação, que não vai mais se aposentar, e o que a pessoa vai dizer? “Ah, fui enganado, estou com vergonha disso.” Muito difícil, especialmente no Brasil praticar este ato simbólico. A gente passa anos para tentar fazer uma pessoa aprender isso, que é voltar atrás. “Olha, eu pensava de um jeito e agora penso de outro, e sim, me deixei levar”. Você não é um idiota porque volta atrás, porque pede desculpas, mas no Brasil inventamos esse jeito e a vergonha, em vez de me reposicionar, fazer com que me reinvente, produz inibição, silenciamento, passividade, faz com que as pessoas se retirem da conversa e não que permaneçam com outra posição. (***)

Quanto à esquerda ele afirma que, “durante anos boa parte dela olhava para o que estava acontecendo e dizia que não estava, mas vamos apoiar. Essa vergonha acumulada implica em descrença, dificuldade de implicação.” Daí chego à segunda questão a compartilhar: Como explicar a sua crise política a partir de 2015, que chegou ao impeachment? De acordo com Dunker, é pelo fato de não se ter feito o LUTO PELA DERROTA.

A esquerda tem que fazer o luto. O luto de não ter se posicionado, ter corroborado com certas coisas, estamos unidos por uma espécie de perda dos dois lados que no fundo é a perda do Brasil, do que tínhamos em mente, seja de um lado, seja de outro. Freud descrevia o luto em três tempos. Primeiro, você tem que admitir que perdeu. Segundo, é preciso pesquisar o que se foi com a perda, o que foi embora com essa pessoa que me deixou, quais os traços, experiências, memória. Depois desse trabalho, você vai comprimindo, reduzindo a coisa, até que um pedacinho daquilo que foi perdido se integra dentro de você. E então segue a vida com aquela lembrança daquilo que você deixou para trás.

O que acontece quando a gente, primeiro, não admite que perdeu, não se dá ao trabalho ao que chamamos na teoria social do trabalho da crítica? Perdi porque não amei o suficiente, porque o outro não me amou, perdi e vivo isso como culpa ou como vergonha. Quando não fazemos isso, surgem respostas maníacas. “Opa, agora posso pular esse processo doloroso e vou para o último capítulo, inventar um estado total de felicidade, um início do zero, glorioso, eufórico.” Esse é o perigo representado pelo populismo de direita, conservador. Parece que a nossa tolerância com o Temer imaginariamente tem a ver com isso. Mais um motivo para entender nossa vergonha, era uma euforia com um negócio que era péssimo. Mas quando não fazemos um luto, vem a mania. Esse é um quadro em que venceria alguém que conseguisse capitalizar melhor a mania, mas acho que não vai vir. Não teremos uma eleição maníaca, é mais possível que tenhamos uma eleição depressiva, que é a segunda patologia do luto. Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. (***)

Estas foram algumas aproximações de minha aprendizagem embrionária sobre a relação Psicanálise e Política, na busca de compreender o tempo em que vivemos. Meu objetivo, não sei se alcancei, seria de contribuir na reflexão de que as perguntas que fazemos e as respostas que buscamos não estão apenas circunscritas numa área do conhecimento, muito pelo contrário! Mas estão nas relações, nos diálogos, nas conexões, na interdependência. Nada mais próximo das características de uma natureza humana livre e de uma humanidade emancipada.

Gostei muito desse aprendizado! Estou mais esperançosa em pensar o mundo, com mais fôlego, apesar do domínio no presente das patologias sociais do ‘maníaco’ e da ‘depressão’. Farei de tudo para não esquecer a nossa História, triste ou alegre, não importa, poderemos fazer novas sínteses com as desilusões e ruínas do presente.

 

(**) é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise.

(***) trechos retirados da Entrevista à Revista ‘Caros Amigos’, em 11/12/2017 : “O neoliberalismo não só reduz proteções como cria sofrimento para aumentar a produtividade.” (https://www.carosamigos.com.br)

Sugestões de leituras (livros desse autor): a) Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros.  (Boitempo – 2015); b) Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano. (Boitempo – 2017).

 

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