Folha 40 anos — Suzy Monteiro

 

Jornalista Suzy Monteiro

Era uma tarde de maio de 1999

Por Suzy Monteiro(*)

 

Era uma tarde de maio de 1999, quando comecei a trabalhar na Folha da Manhã. Formada alguns anos antes, tinha decido outros rumos na vida. Mas, através das tais voltas que o mundo dá, ali estava eu, jornalista retornando à profissão. Ali estava eu, mãe, ingressando em uma jornada totalmente nova. Hoje, pensei em escrever sobre as matérias que mais marcaram em todos estes anos. Rebeliões em delegacias, mães chorando filhos, filhos pequenos sem entender que não teriam mais suas mães. Famílias querendo recuperar suas crias, quando já estavam tão perdidas. Histórias interrompidas quando tinham ainda tanto para serem contadas. Amores que só seriam separados pela morte. E foram.

Ou, ainda, sorrisos, nascimentos, encontros. Vitórias. Campos crescendo. A rodovia da morte ir mudando de perfil, se duplicando em pistas. O Paraíba do Sul morrer e renascer tantas vezes e de tantas maneiras. Batalhas sinceras de formiguinhas que acreditavam que, cada um fazendo sua parte, o mundo pode ser um lugar mais justo. Poderia escrever sobre matérias, mas nelas, entre elas, antes e depois delas, havia sempre um oásis de leveza na aridez do cotidiano.

Quando cheguei à Folha, substituía Dora Paula que estreava onde eu mesma começara três anos antes: A maternidade. Em agosto do mesmo ano, de folga, passei no jornal para pegar algo, levando comigo minha Ellena, de muitas tranças e palavras. Aluysio, filho, a pegou no colo e ficou conversando. Depois, pegou um CD que tinha uma música com o nome dela. Ela pouco entendeu, mas achou o máximo.

Dali por diante, minha filha, como de tantos outros, passou a ter a redação da Folha como sua segunda casa e se tornou presença constante. Crescia e tinha ali seus tios que, por inúmeras vezes, me ajudaram – “Quem aí não pegou Ellena na escola?”, é nossa piada recorrente. Juntos, aprendemos a rir e chorar, em um laço formado de um lado pela Folha, de outro pelo carinho que tinha, e têm, por minha filha.

Na Folha, tinha, também e principalmente, um “colega” especial de Ellena. Seu Aluysio, com quem ela passava horas conversando e contando coisas sem parar. E ele ouvindo. Não aquele ouvir porque não tem jeito. Mas, interessado. O que diferenciava naquele jornalista importante, premiado, que fundou um dos jornais mais importantes do Estado do Rio, era o valor e o interesse que ele dava à história que cada um tinha para contar. Fosse uma personalidade política, fosse uma criança. Entre uma matéria e outra, passava pelo corredor e estavam os dois conversando, um encontro de duas gerações e mundos tão distantes, mas que guardavam ali tanto carinho.

Hoje, 18 anos depois de entrar pela primeira vez na Folha, que completa quatro décadas, tenho uma filha adulta e outras crianças passeiam pela redação e corredores. Seu Aluysio não está mais por aqui. É a vida, que se renova a cada instante. Mas, qualquer que seja o caminho que cada um siga, sempre haverá uma Ellena e sempre haverá a Folha para contar histórias.

 

(*) Jornalista e repórter de política da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

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