Opiniões

Paula Vigneron — Eu, tu, eles

 

Atafona, 30/08/18 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

“Dois ônibus da caravana de Lula são atingidos por quatro tiros no Paraná.”

— Mas foi bem feito. Eles tiveram o que mereceram. Como bem disse Geraldo Alckmin, os petistas estão colhendo o que plantaram — gritou o homem, em um misto de ansiedade e sensação de justiça, dando mais um gole em um café já frio.

— Colhendo o que plantaram? – questionou o amigo com quem debatia sobre o noticiário.

— Sim!

— E o que eles plantaram?

— Corrupção, crimes, vergonha. Vergonha internacional! Destruíram tudo. Acabaram com o país! — continuava o homem, convicto.

— Sozinhos? Tudo isso começou com eles? E só eles cometem atos de corrupção? — minutos se passaram, entre goles mais frios de café, até que o interlocutor pudesse responder:

— Bem. Não sei se sozinhos nem se começou com eles. Mas eles plantaram! E, se plantaram, têm que colher. Tenho certeza de que merecem. Nada me fará pensar diferente. Só um minuto. Preciso usar o banheiro — e saiu, com o rosto avermelhado. O homem parou e olhou para trás, em direção ao amigo, mas desistiu de argumentar. “Ah, para quê? Ele não me entenderia. Está cego por sua ideologia torta”. E seguiu, com a certeza mostrada em passos firmes.

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“Vivemos tempos de intolerância e de intransigência contra pessoas e instituições.”

— Mas por que você acha que o Lula precisa ser preso?

— Porque ele roubou. E quem roubou tem que ficar de castigo.

— Mas você sabe o que ele roubou? E sabe o que tem sido feito em relação a isso?

— Não, mas… — sem conseguir responder, recebeu um sorriso de compreensão.

Sentadas em duas cadeiras distribuídas pela sala, as duas, mãe e filha, assistiam ao pronunciamento da presidente do Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia. Para a menina, a antes desconhecida havia se tornado figura quase sempre presente em sua casa nos últimos tempos. Ela observava a mulher que, com olhar firme, fazia um apelo à população brasileira, pedindo serenidade em tempos de intolerância.

— Mãe, o que é serenidade? — perguntou a menina, atenta às palavras que saíam da televisão.

— Serenidade foi o momento que acabamos de viver, minha filha. Serenidade é ter calma. Calma para saber ouvir, entender e discordar, se necessário, com respeito. Calma para calar na hora certa. É ter cuidado para fazer julgamentos sobre o próximo, sobre aquele que pode ter opiniões e atos diferentes dos nossos.

— Ah, entendi. E estamos vivendo sem serenidade? — o olhar inocente comoveu a mãe, que observava a filha, curiosa, com seus cinco anos de vida.

— Estamos, filha. Estamos – a mulher se levantou, seguiu em direção à menina e a colocou em seu colo. A garota continuava prestando atenção nas palavras da ministra. “Serenidade”, resmungou a criança, em uma tentativa de compreender tudo o que estava sendo dito.

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“Eu não vim aqui pra defender minha candidatura. Vim defender minha inocência, que eles precisam me devolver. Quero que parem de mentir a meu respeito. Digam a verdade. Quero ser julgado com base no mérito do meu processo. Espero que a Suprema Corte apenas faça Justiça. Não quero benefício pessoal. Mas não aceitei a ditadura militar e não vou aceitar a ditadura do MPF e do Moro.”

A moça, vestida de vermelho, fechou o jornal após ler a declaração do ex-presidente. Calada, observava a mesa próxima, na qual duas senhoras conversavam sobre o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula. Desde que dera seu primeiro voto às urnas, optara pelo político. Para ela, mudanças concretas foram realizadas: teve acesso a estudo público de qualidade; viu melhorias em seu lar com novas oportunidades de emprego; conquistou uma vaga na universidade federal. Hoje, sente-se feliz por ter confiado seu parco poder de decisão a Luiz Inácio.

— Mas este habeas corpus é um absurdo. Se Lula foi condenado, tem que pagar a pena. Todos devem se submeter às leis — disse a senhora de chapéu, com o rosto sério.

— Não sei o que pensar sobre essa condenação e o julgamento. Não sei o que pensar sobre o país. Não confio, não consigo mais confiar nas instituições brasileiras — respondeu a interlocutora, apertando os próprios dedos.

— Eu ainda acredito que haja seriedade neste país.

— Então, como você interpretaria se o ex-presidente recebesse o habeas corpus?

— Para mim, seria um retrocesso. Com isso, todos teriam o mesmo direito. E não só políticos. Para todos que cometem crimes. É um retrocesso.

“Retrocesso”, pensou, sentada à mesa, a moça que observava o diálogo das idosas. Aflita, apesar das crenças pessoais e políticas, conseguiu compreender a angústia transparecida nas vozes das mulheres. No fundo, também se sentia perdida.

Pedidos de intervenção militar; o atual presidente envolvido em comprovados casos de corrupção; o senador para quem matar significa retirar empecilhos de seu caminho; quantias exorbitantes de dinheiro usadas em negociatas; reflexos de podres poderes.

“Não. Retrocesso não. Retrocessos”, consertou, mentalmente. “Retrocessos”.

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“STF nega habeas corpus preventivo ao ex-presidente Lula”

Ouviu comemorações ao redor. Via-se garoto. Imberbe. Vinte anos. A estrela vermelha no peito. Ideais na cabeça. Mudanças à vista. Uma nova Constituição depois de tantos anos em um regime autoritário que censurou, proibiu e matou. Pela televisão, o resultado. Seis votos a cinco. Prisão à vista.

Juntou as mãos e tentou fazer uma oração. Não sabia. Não conseguia vislumbrar o que poderia vir em seguida. “Menino, cuidado. Com essas coisas de política, a gente não brinca”, dizia a sua mãe. Cabelos brancos. Corpo cansado. Para ela, a manifestação de seu filho em prol de Lula, em sua primeira candidatura, poderia ser fatal. “Calma, mãe. A ditadura acabou”, respondia ele, confiante em novos tempos.

— E agora, mãe?

Houve quem optasse por dar o voto ao rapaz bonito chamado Collor. Outros preferiam a veemência de Brizola e o equilíbrio de Ulysses. Mas ele não. Ele via a esperança travestida em um metalúrgico do ABC paulista, que falava do povo e para o povo. Luiz Inácio. Lembrava-se da emoção com que assistia às aparições do candidato em propagandas e debates.

Acompanhara a ascensão de Lula. E, com ele, a da população. E comemorava cada avanço. Entristeceu-se com os erros. Lamentou as perdas. E torceu por uma nova ascensão. As palavras recém-noticiadas preenchiam espaços outrora ocupados pela crença em uma política livre de cerceamentos. O jovem despedia-se vagarosamente do homem. Via desmoronar sua crença em dias melhores como aqueles.

Tentava juntar os resquícios. Desejava remontar uma nova história e dar outros destinos aos personagens envolvidos. Mas os cacos cortavam suas mãos e se espalhavam. Pedaços dele e de outros tantos com quem dividiu expectativas e ansiedade transformadas em horas de alegrias. O primeiro discurso como presidente, em 2002, ao qual assistiu com lágrimas nos olhos, continuava vivo em sua memória. Ainda conservava os sonhos do menino imberbe de 20 anos.

— E agora?

Lá fora, caíam os primeiros pingos do que seria uma longa e nublada noite.

 

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