Guilherme Carvalhal — Marca de corda

 

 

 

Ele apareceu logo ao amanhecer diante da esposa querendo algum comentário. Naquela madrugada, enquanto ela dormia, ele se embrenhou pelo sótão e se pendurou pelo pescoço em uma corda. Equilibrado em um banco, se soltou, mas o suicídio deu errado quando o gancho onde amarrou a corda arrebentou e ele se estabacou no chão. Além do teto quebrado, ganhou uma mancha vermelha em formato de colar.

Desejou receber da esposa um questionamento sobre aquela ferida, até mesmo uma reprimenda. Mas não, ela somente lia as notícias no celular enquanto mastigava biscoitos no café da manhã. Sentiu-se um bibelô, um objeto com o qual tanto se acostuma na decoração que nunca se repara mais.

Igual reação veio dos filhos. A mais velha desceu as escadas carregando os cadernos preocupada com o simulado da escola. O mais novo seguia atrás com cara de sono depois de virar a noite com jogo online: tão enfurnado estava em defender a galáxia dos invasores alienígenas que nem reparou o pai tentar se matar.

Foi para o trabalho com o último botão da camisa aberto. Esperou que o porteiro notasse, ou então a servente que lhe trazia um café logo pela manhã. Nada. Nenhuma menção. Entrou para a reunião e todos discutiram a meta de vendas para o próximo ano sem sequer atentarem para o abismo de confusões que o assolava.

Em casa, à noite, antes de entrar para o banho, olhou-se no espelho. Seria aquela marca no pescoço tão insignificante quanto todo o resto do seu corpo, quanto a expressão do seu eu aos olhos dos outros? Aquele cujo nome facilmente se esquecia, aquele cujas opiniões não contavam. Recebeu uma ligação de telemarketing e o atendente o chamou pelo nome. Sua vontade foi de enviar uma foto sua e descobrir se pelo menos ele notaria algo de estranho.

Suas pulsões o empurraram novamente ao sótão para dar cabo de sua existência. De madrugada, apenas o barulho dos dedos do filho no controle do videogame. Havia a privacidade necessária para esse ato extremo que derivava de uma necessidade de mostrar suas vísceras aos vizinhos e até nos jornais.

Parou frente ao banco e à corda. Poderia dessa vez utilizar a estrutura de uma prateleira alta, que só alcançavam com uma escadinha. Havia tudo para conseguir finalmente se livrar de seu martírio.

Entretanto, antes mesmo de começar a atar o nó, constatou o verdadeiro absurdo disso tudo. Por fim, riu de si mesmo e deixou de lado esse intento. Agiu assim após perceber que já estava morto e que seria contra as leis da natureza querer matar o que não possuía vida.

 

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