Crônica do domingo — Futebol, poesia e história no boteco

 

Craques Neymar, Hazard, Viníncius e João Cabral (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

— No futebol, o brasileiro é um flamenguista! — sentenciou Aníbal na mesa do boteco, garganta ainda molhada do primeiro gole de cerveja gelada.

— Flamenguista, nada! É botafoguense! O Brasil só venceu Copa com jogador do Botafogo! — protestou Paulo, para também molhar a palavra.

— Isso não tem nada a ver. Se tivesse, o Botafogo seria o Uruguai.  As glórias do passado dos dois, ninguém com menos de 80 anos viu. Isso é coisa dos anos 50 e 60 do século passado.

— E foi a melhor Seleção que o Brasil teve. Tanto que foi bicampeã do mundo em 58 e 62. E os uruguaios batem no peito para dizer que não têm dois títulos, mas quatro, porque, antes de sediarem e ganharam a primeira Copa, em 1930, já eram bicampeões olímpicos em 24 e 28. Por isso a Celeste Olímpica. Depois ainda ganharam o Brasil dentro do Maracanã, em 50.

— Não diminuo as glórias do passado do Uruguai. Nem do Brasil. Mas, se é para falar delas, a Itália também foi bicampeã, nas Copas de 34 e 38. Só que o futebol não acabou aí. Em 94 e 2002, quantos jogadores o Botafogo deu ao Brasil? Nenhum! O brasileiro é um flamenguista na fanfarronice. Tem um bom jogador, vira melhor do mundo. Em fase boa, como no Brasileirão, nem o Real Madrid segura. É isso que eu quero dizer.

— E o torcedor brasileiro é assim? Como?

— Como? Você ainda pergunta como? Para o brasileiro, a Seleção nunca perde; deixa de ganhar. Eliminado porque o outro foi melhor? Jamais! Para o torcedor, o Brasil não perde pra ninguém, só pra ele mesmo. Não foi assim em 98, quando Ronaldo teve tremelique antes de tomarmos de três da França na final?

— Mas Zidane nunca tinha feito um gol de cabeça.

— E daí? Fez e tomou tanto gosto que ainda fez mais outro. O que não dá é para baixar esse “complexo de vira-latas” em caboclo de papel carbono, e dizer que perdeu a final de 98 por um acordo com a Nike. Essa cantilena é igual a namoro à distância: longe do rabo e perto do chifre!

— Isso já tem 20 anos. E, como você mesmo disse, a gente depois levou a Copa em 2002.

Capa da Folha de 02/07/06

— Mas teve repeteco em 2006. Esqueceu das quartas de final na Alemanha? O Brasil tinha três melhores do mundo: Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Kaká. E ainda Adriano, Roberto Carlos e Cafu. Eram os bons de bola, os malabaristas. Aí veio o Zidane de novo, que todos diziam estar acabado, e tirou nosso time todo pra dançar.

— Isso é verdade. Deu lençol nos dois Ronaldos, no Fenômeno e no Gaúcho. Diante do mundo, ele pôs a gente na roda e comandou o baile funk: “quer dançar, quer dançar, o tigrão vai te ensinar”. Seja lá como se cante isso em francês.

— Se ensinou, não aprendemos nada. Em 2010, nas quartas de final contra a Holanda, o Brasil estava jogando bem e ganhando de 1 a 0. Aí tomamos dois gols, o time deu panca e Dunga não tinha opção no banco para mudar o jogo. Por quê? Porque levou Kleberson e deixou Neymar. Naquela época, sim, um menino. Mas já jogava bola igual a gente grande. Resultado? Ferro!

— E, em 2014, ninguém precisa falar nada. Aqueles 7 a 1, em pleno Mineirão, foram a maior humilhação da história do futebol. Talvez de todos os esportes. E é provável que nunca seja superada.

— Aí é que está. Para o brasileiro, parece não ter sido nada. Bastou Tite entrar, tirar o Brasil de sexto nas Eliminatórias da América do Sul, classificar o time em primeiro, que todo mundo já dava o título na Copa em 2018 como favas contadas.

— Nesse ponto eu concordo. E não é nem coisa só de flamenguista ou botafoguense, mas também qualquer tricolor ou vascaíno que ganhasse o Carioca e, depois disso, saísse bravateando que seu time era favorito ao Brasileirão.

— O resultado? Mais uma Eurocopa na Copa do Mundo!

— Mas o Brasil quase chegou na semifinal. Se não fosse o Courtois trocar de mão para espalmar aquela bola de Neymar, no finalzinho… Ia no ângulo!

— O que ia e não foi é a história do futebol. Tem até a do que ia e foi mesmo. Só que de outra maneira. Quer um exemplo?

— Chuta aí! — rolou Paulo.

— Quem foi assistir ao Brasil e Bélgica esperando ver um camisa 10 driblador, rápido, inteligente, caindo pela esquerda do ataque para acabar com o jogo, enxergou. Só que foi o Hazard, não Neymar. E, para completar, os dois têm quase a mesma altura e idade.

— Neymar joga mais que Hazard!

— Como meme, ninguém no mundo duvida. No campo, não é nem na habilidade que Neymar leva vantagem, mas na malemolência no drible. Só que Hazard é mais inteligente na escolha das jogadas. Mesmo quando em diagonal, o belga mira a vertical, como um barco à vela. Não é barroco como o brasileiro. O drible é o verso do futebol. Concorda?

Poetas Modric, Mbappé, Pushkin e Maiakóvski (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

— É uma boa imagem. Pode ser…

— Pois então. Se Neymar fosse um poeta brasileiro da geração de 45, seria o Vinícius. O de maior talento natural, que deixou de desenvolver sua plenitude literária para ser um pop-star da MPB. Hazard é João Cabral. Pelo menos nesta Copa, foi um poeta maior. O narcisismo de Neymar foi o whisky de Vinícius. Amigo enganoso que sugou a poesia pelo lado interno da garrafa! — ressalvou Aníbal, antes de pedir ao garçom mais uma cerveja.

— Futebol não é só poesia! E Neymar e Hazard já rodaram da Rússia!

— Mas Modric e Mbappé ainda estão rabiscando na relva de Pushkin e Maiakóvski.

— Poesia à parte, e essa história de nazismo na Croácia?

— Alguém estaria falando da Croácia se ela não tivesse chegado à final da Copa? Isso só cola com quem nunca abriu um livro de História para descobrir o que foi a República de Vichy. A França bateu continência a Hitler para manter suas colônias na África. Depois veio De Gaulle, a Guerra da Argélia e os estudantes de 68. Mas isso é papo tão antigo quanto as glórias do Botafogo!

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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