Cineclube Goitacá exibe e debate nesta quarta “Lawrence da Arábia”

 

Lawrence da Arábia. O que falar do clássico do cinema e da personagem real na qual ele se baseia? Considerado pelo American Film Institute como o sétimo melhor filme já feito, o longa dirigido em 1962 pelo mestre inglês David Lean (1908/91) ganhou os Oscar de melhor filme, diretor, edição, fotografia, direção de arte, som e trilha sonora. A partir das 19h de hoje, a obra será apresentada no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio. A entrada e a participação no debate são gratuitas e bem vindas.

Apesar dos sete Oscar de “Lawrence da Arábia”, Hollywood cometeu das maiores injustiças da sua história ao não conceder também o prêmio de melhor ator ao irlandês Peter O’Toole (1932/2013). Até hoje, impressiona sua solar interpretação da personagem que batiza o filme: o arqueólogo, literato, agente secreto, diplomata e militar britânico Thomas Edward Lawrence (1888/1935).

A partir da morte de Lawrence num acidente de moto, o filme recua em flash-back até o início do seu envolvimento no teatro da I Guerra Mundial (1914/18), no palco do Oriente Médio. Com boa parte dele controlada há 400 anos pelo Império Otomano, o conhecimento profundo da língua e cultura árabes fizeram com que o jovem arquéologo fosse requisitado pelo serviço de inteligência do Império Britânico, para atuar na ligação com as tribos beduínas do deserto. Elas lutavam contra o domínio turco muito antes da I Guerra.

Aliada da Alemanha e Império Austro-Húngaro, a Turquia enfrentava em seus antigos domínios a Grã-Bretanha e a França. Ambas já se interessavam pelo controle da região rica em petróleo, naquele início de século XX — importância geopolítica que o Oriente Médio mantém, 100 anos depois. Como oficial de ligação e agente secreto, Lawrence foi enviado ao acampamento nômade do príncipe Feiçal. Interpretado no filme por Alec Guiness, ele era líder de Meca (cidade mais sagrada dos muçulmanos) e da até então incipiente Revolta Árabe (1916/18).

Na demada do “milagre” pedido por Feiçal, Lawrence assumiu seu protagonismo no papel de profeta sem Deus. Com 50 beduínos, ele cruzou o deserto de Nefud, considerado intransponível, para conquistar Aqaba, na atual Jordânia. Cidade portuária fundamental ao domínio da região, toda a pesada artilharia turca estava apontada para o mar. Por terra, no lombo de camelos e comandando apenas árabes nômades, cujas vestes e costumes passou a adotar, o jovem ocidental de 28 anos fez o que a poderosa Marinha Real Britânica havia tentado, sem conseguir.

A partir do feito militar sem precedentes, Lawrence fundamentou o que ficaria conhecido como guerra de guerrilha. Os árabes tinham camelos, cavalos, espadas e fuzis. A Turquia já contava com metralhadoras, granadas, artilharia e a aviação de um exército moderno e mecanizado. Na impossibilidade de sucesso em confronto aberto, o líder britânico aproveitou a agilidade dos beduínos no deserto, atacando e sumindo rapidamente nas extensas paisagens castigadas de sol. Reproduziu o que a Inglaterra havia feito na Terra com navios.

Após Aqaba, Lawrence realinhou o alvo dos árabes sobre o mar das ferrovias inimigas, fundamentais ao abastecimento numa região desértica. Dinamitadas em açõs cirúrgicas, causaram o esgotamento dos turcos por falta de suprimentos e armamentos, até que o gigante se ajoalhasse vagarosamente por inanição.

O ponto alto da Revolta Árabe, após Jerusalém, foi a tomada de Damasco. Os árabes comandados por Lawrence foram os primeiros a entrar na capital da Síria. E, como libertadores, impuseram o fim de quatro séculos de domínio da Turquia sobre o Oriente Médio. Ao seu lado, o britânico tinha líderes beduínos como Ali ibn el Kharish (Omar Sharif) e Auda Abu Tayi (Anthony Quinn). Imbatíveis na guerra, os nômades se revelaram, todavia, incapazes de administrar as demandas sedentárias de uma grande cidade em tempos de paz.

Após o esfuziante sucesso militar, o dilema do jovem oficial no pós-guerra se revelou não só entre os beduínos que liderou, mas na pátria a que serviu. A partir do acordo Sykes-Picot, de 1916, Inglaterra e França já haviam dividido o Oriente Médio nos países que passamos a conhecer. E, no lugar da liberdade e da autodeterminação prometidas por Lawrence aos árabes, as duas nações europeias vencedoras da I Guerra assumiram da derrotada Turquia o papel de domínio da região. O que só acabaria após a II Guerra (1939/45).

Com a lealdade dividida entre árabes e britânicos, algo se quebrou dentro da personalidade multifacetada do próprio Lawrence. Na busca do que desse sentido à sua fantástica aventura na Península Arábica, ele a transformou no livro “Os sete pilares da sabedoria”. Escrito entre 1919 e 1922,  com revisão do dramaturgo e amigo George Bernard Shaw, seu autor só o lançou não comercialmente em 1926. Mas o poder da narrativa foi tamanho que a obra de mais de 600 páginas rapidamente se disseminou, sendo considerada um marco da literatura do século XX.

Mais conhecido como primeiro-ministro da Grã-Bretanha, do que como jornalista, pintor e prêmio Nobel de Literatura, Winston Churchill escreveu sobre o monumento literário de Lawrence, baseado em suas experiências à luz do sol no deserto:

— Se fosse obra de mera ficção, haveria de viver enquanto o inglês fosse falado em algum recanto do globo.

Foi no livro em que o filme se baseou. Depois do que seu autor fez e contou, não houve um movimento de guerrilha no mundo, dos chineses de Mao Tse-Tung e Zhu De, aos cubanos de Fidel Castro e Che Guevara, dos vietnamitas de Ho Chi Minh e Vo Nuguyen Giap, aos brasileiros dos Carlos Lamarca e Marighella, que não tivesse assumidamente bebido no relato do jovem arqueólogo e militar britânico. Nas suas palavras: tomou “nas mãos estas ondas de homens”.

Talvez a grande virtude do filme seja reproduzir em imagens os parágrafos do livro “escritos ao ritmo do lombo dos camelos”, como definiu C. Machado, seu primeiro e definitivo tradutor no Brasil. Para levar a história às telas, David Lean contou com a ajuda de outro mestre da sétima arte: o diretor de fotografia inglês Freddie Young (1902/88). Numa das parcerias mais exitosas do cinema, renderia ao fotógrafo mais dois Oscar, em duas outras obras-primas dirigidas por Lean: “Dr. Jivago” (1965) e “A filha de Ryan” (1970).

Sobre a personagem histórica de Lawrence, tão fascinante quanto intrigante, ou sua imortal cinebiografia, diz C. Machado, tradutor do livro: “Hamlet do Hedjaz (deserto a oeste da hoje Arábia Saudita), que ajustava a mira do velho fuzil enquanto interrogava as estrelas”.

 

Confira o trailer do filme:

 

Sobre o livro:

 

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Este post tem um comentário

  1. Sandra

    Não vou perder.

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