“Rainha de nossas almas” — A vida e o legado de Aretha Franklin

 

Para a Rolling Stone, o maior cantor de todos os tempos

Morreu hoje a cantora Aretha Franklin, em Detroit, cercada de familiares e amigos. Aos 76 anos, a “Rainha do Soul” foi vítima de um câncer no pâncreas, contra o qual lutava há oito anos. Para quem talvez não tenha a dimensão do que essa grande mulher tenha sido, fica sua definição pelo jornalista David Remick, biógrafo de ícones negros dos EUA (e do mundo), como o pugilista Muhammad Ali (1942/2016) e o ex-presidente Barack Obama: “Aretha foi a maior cantora da música popular do pós-guerra”. Bíblia do rock e da cultura pop, a revista Rolling Stone a ecoou uma oitava acima, incluindo do gênero: “maior cantor de todos os tempos”.

Como tantas outras crianças e adolescentes da década de 80 do século passado, conheci Aretha por sua pequena, mas solar participação no clássico do cinema “Os Irmãos Cara de Pau” (“The Blues Brothers”, 1980). O filme era dirigido por John Landis, que dois anos depois assinaria também a direção do clipe “Thriller”, de Michael Jackson (1958/2009), divisor das águas da música popular do mundo em antes e depois.

No filme, a cantora interpreta a senhora Murphy, que administra uma lanchonete com o marido (o tecladista Murphy Dunne). Ele é convocado para recompor a banda itinerante dos irmãos Jake e Elwood Blues, interpretados pelos comediantes Jonh Belushi (1949/82) e Dan Aykroyd. Antes de perdê-lo novamente para a música e a vida da estrada, Aretha convoca o marido à reflexão e canta uma composição própria: “Think” (“pense”).

 

 

Desde aquelas reprises do primeiro filme na “Sessão da Tarde” da Globo, nunca mais deu para deixar de pensar em Aretha e sua poderosa voz. Talvez tenha sido, depois de Ella Fitzgerald (1917/96), a cantora de maiores recursos vocais na história da música popular. A mezzo-soprano era capaz de alcançar os agudos mais rarefeitos, aterrissando com segurança nos registros mais graves, sem nunca perder o vibrato sedutor de grande diva da música negra. Quando aquela mulher abria a boca, libertava uma força da natureza.

As origens da voz de Aretha confluíam com sua própria vida. Filha do pastor batista itinerante Clarence LaVaughn Franklin, ela nasceu em Memphis, no delta do rio Mississipi, manjedoura do blues. Ainda bebê se mudou para Buffalo, Nova York, antes de fixar residência em Detroit. Cidade da indústria automobilística dos EUA, concentrava grande população negra, que trabalhava na construção dos veículos que revolucionaram o mundo no séc. XX.

Ainda aos 10 anos, Aretha começou cantando no coral dos cultos do pai, no chamado e resposta do protestantismo cristão impressos nos versos de Walt Whitman (1819/92), capazes de converter no arrepio da pele de qualquer ateu. Ainda criança, passou a ser conhecida como “A Voz de Um Milhão de Dólares”.

C.L. Vaughn era amigo de outro ativo pastor batista, um tal de Martin Luther King (1929/68). E junto dele, pai e filha ingressaram na militância pacifista pelos direitos civis dos negros nos EUA. Por conta disso, cresceu e foi influenciada desde cedo pelos grandes nomes da música negra que frequentavam a sua casa, como a diva do jazz Dinah Washington (1924/63), a “Rainha do Gospel” Mahalia Jackson (1911/72) e os mestres do soul Sam Cooke (1931/64) e Jackie Wilson (1934/84).

 

Aretha Fraklin e Martin Luther King

 

Com o apoio do pai, Aretha gravou o primeiro disco aos 14 anos, em 1954: “Songs of Faith”. Foi na mesma época em que teve o primeiro dos quatro filhos. Depois, se mudou a Nova York e migrou da música gospel à secular. Passou sua vida por quatro gravadoras: a Columbia, a Atlantic, a Arista e a DMI.

Na primeira, ficou entre 1961 e 1966, quando conquistou a crítica nas mãos do lendário produtor John Hammond (1910/87), que enxergava na cantora a nova Billie Holiday (1915/59), insistindo no repertório de jazz e blues. Nele, emplacou sucessos como “Today I Sing The Blues”, “Won’t Be Long”, “Cry Like a Baby”, “Sweet Bitter Love” e “Rock-a-bye Your Baby with a Dixie Melody”.

 

 

Foi nesse período que Aretha cantou junto de Mahalia para arrecadar fundos à Grande Marcha a Washington, em 28 de agosto de 1963. Ao seu final, diante de 250 mil pessoas reunidas na capital dos EUA para orar e cantar por liberdade, trabalho, justiça social e fim da segregação racial, Luther King faria diante do monumento a Washington seu mais célebre discurso: “I have a dream!” (“Eu tenho um sonho!”).

 

Martin Luther King e as 250 mil pessoas reunidas pelo fim da segregação racial,  diante do monumento de Washington

 

Cinco anos depois, Aretha cantaria “Precious Lord, Take Me Hand” no velório do grande líder negro, morto a tiros por um supremacista branco na mesma Memphis em que ela nasceu. Em tempos mais felizes, também adornou com sua voz as posses de três presidentes dos EUA, dois brancos e um negro, todos democratas: Jimmy Carter, Bill Clinton e Barack Obama. Hoje, até o republicano Donald Trump lamentou publicamente sua morte.

 

 

 

Mas foi na Atlantic, onde ficou de 1967 a 1970, mergulhando fundo no rythm and blues, no soul e na música pop, que a cantora se tornou um grande sucesso popular. Logo na estreia dessa nova fase, ela gravou “Respect” (“Respeito”). Apesar de composta por um homem, Otis Redding (1941/67), a canção se tornaria quase uma assinatura da sua maior intérprete, além de hino do feminismo e da luta pelos direitos civis mundo afora. Tempos depois, ela definiria a música: “Um hino da mulher, um grito de guerra, um mantra. Todos nós queremos respeito”.

 

 

Em julho de 1968, a primeira negra na capa da revista Time

Em 1980, já na Arista Records, ela realizou seu primeiro show no Royal Albert Hall, secular casa de espetáculos de Londres, diante da rainha Elizabeth II. Mas seus títulos nobiliárquicos eram outros: foi a primeira negra a ser capa da revista Time, a primeira mulher a entrar para entrar no Hall da Fama do Rock, ganhou uma estrela na calçada da fama de Hollywood, recebeu a Medalha da Liberdade dos EUA — maior condecoração civil daquele país —, levou 18 Grammys e, antes que os discos se tornassem peças de colecionador, vendeu 76 milhões deles.

Após a sua morte, Obama testemunhou: “Aretha ajudou a definir a experiência americana. Em sua voz, nós podíamos sentir nossa história, toda ela em todos os tons: nosso poder ou nossa dor, nossa escuridão ou clareza, nosso questionamento ou redenção e nosso respeito duramente conquistado”. Por sua vez, o ex-Beatle Paul McCartney pediu: “Vamos todos parar um momento para agradecer pela bela vida de Aretha, a Rainha de nossas almas”.

Para quem nasceu, cresceu, formou identidade e envelheceu sob o poder da voz de Aretha, impossível não contrastar seu canto e sua vida com os tempos de intolerância em que hoje vivemos. Diante da perda, talvez tudo que fique sejam os versos de um dos seus sucessos na Atlantic, em composição do sobrevivente Burt Bacharach e Hal David (1921/2012): “I say a little prayer for you/ Forever, and ever, you’ll stay in my heart” (“Eu faço uma pequena oração para você/ Para sempre e sempre, você ficará no meu coração”).

 

 

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Este post tem 2 comentários

  1. George Coutinho

    Excelente retrospectiva analítica da insubstituível Aretha. Total R-E-S-P-E-C-T ao caminho singular desta que foi das maiores intérpretes do soul… Forte abraço e grato pelo texto camarada!

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro George,

      Até pelo músico que vc é, agradeço a generosidade. Comunguemos uma pequena prece por essa grande mulher.

      Abç fraterno!

      Aluysio

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