Guiomar Valdez — Ainda não somos uma Nação: a Colônia está dentro de nós

 

 

Isso não me tira a esperança. Sinto às vezes impaciência, confesso. À luz da História nada está determinado a priori, disso alimento minhas utopias. O presente do meu país está ainda mergulhado nas estruturas do passado…

Quando ‘nascemos’ há 518 anos, em pouco tempo nos tornamos o melhor negócio não para Portugal, mas, na verdade, para a Inglaterra e um pouco para a Holanda também! E ser o melhor negócio significava ter uma estrutura de produção caracterizada pela grande propriedade — latifúndio, pelo trabalho escravo, pela economia primário-exportadora. Ah, mas nós éramos colônia! Sim é verdade. Até a chegada da independência foram 322 anos voltados para atender exclusivamente ao que é externo, este era o ‘nosso sentido’, a ‘razão da nossa existência’, enquanto sociedade. Uma natureza subalterna. Uma condição para ‘o outro’.

Em 07 de setembro de 1822 a Independência chegou. No dia de hoje, há 196 anos. Alcançamos o status de ‘país’, de um Estado ‘Nacional’, que teria que se construir como tal. Infelizmente, mantivemos o nosso ‘sentido’ e a nossa ‘condição’ de ‘tipo colonial e provinciano’. É claro que tivemos resistências à esta situação! Sempre! E em todos os campos do mundo material ao mundo imaterial! Não se tem dúvidas sobre isso. Tivemos sonhos, projetos, e, até experimentos. Mas não enraizou!

Por quê? Por quê? Algumas ‘pinceladas’:

Na ECONOMIA, a ‘natureza’ primário-exportadora, de nenhum valor agregado, predominou até os dias de hoje. A transição para uma economia urbano-industrial, inicia-se com Vargas (1930-45 /1951-54 / = 18 anos), com características de um projeto de matiz nacionalista; vai se avançando nos outros governos (+- 10 anos), na mesma proporção que se afasta de um projeto de nação soberana. Mas avança e a ‘virada’ se dá durante a Ditadura Civil-Militar (1964-85 = 21 anos) – um modelo de modernização de tipo ‘associado’, numa nova e superestruturada relação subalterna entre capital nacional e capital estrangeiro, sob a hegemonia do último. A crise econômica mundial dos anos de 1970 e seus desdobramentos não acabaram até hoje. As soluções dos governos da Nova República, de Sarney a Temer, passando por FHC/Lula-PT, aprofundaram a nossa dependência econômico-financeira, desindustrializaram o país, reafirmando a continuidade da ‘natureza primário-exportadora em latifúndio’, agora sofisticadamente conhecida como ‘setor de commodities’. O ‘sentido’, o ‘negócio bom para o outro’, é vender commodities, é entregar ‘ao outro’ o patrimônio estratégico de nossas estatais e as riquezas também estratégicas e de altíssima qualidade. 196 anos de independência com apenas 50 anos (com interrupções) exercitando uma modernização urbano-industrial, que se provou dependente, conservadora quiçá reacionária, frágil e sem aderência a ideia de um projeto de nação soberano. A colônia ainda está dentro de nós!

Na POLÍTICA, experimentamos muito pouco o exercício de um ‘Estado Democrático de Direito’. Da independência para cá, ‘de fato e de direito’, esta experiência não vem imediatamente com a Proclamação da República (1889), ela se dá em dois breves espaços de tempo: 1945-1964 = 19 anos e 1985-2018 = 33 anos. O que predominou, então, nas relações de poder? A permanência do paternalismo, do clientelismo, do patrimonialismo e da violência de ‘todo tipo’. Estranhar corrupção? Estranhar privatização do que é público? Estranhar eleições como um grande negócio, onde a troca de favores e a compra de ‘todos os tipos’ de votos predominam? Estranhar a despolitização/analfabetismo político? Estranhar o avanço do desânimo com a Política? Estranhar a violência e o ‘ressurgimento’ de relações e atitudes ‘neofascistas’? 196 anos de independência com apenas 52 anos de frágil exercício democrático, mediados por 21 anos de ditadura, construiu até aqui uma imensa dificuldade de se estabelecer e consolidar relações democráticas em todos os espaços humanos/sociais/institucionais. Lembro que dificulta mais ainda consolidar Democracia em tempos de crises econômicas. A ‘ordem e o progresso’ é para perpetuar o autoritarismo, infelizmente. A colônia ainda está dentro de nós!

Na dimensão SÓCIO-CULTURAL, diante das características da economia e da política apresentadas, numa relação dialética, e, não, estanque, vivenciamos o predomínio para a maioria, da visão de mundo de quem dominou e domina estas duas dimensões da nossa sociedade, ou seja, a classe dominante. Classe essa de ‘vontade fraca’ para criar um Estado Nacional e Sociedade autônomos; sua cabeça valoriza o que é ‘de fora’, aos moldes das características coloniais e de seus negócios e ao mesmo tempo desvaloriza e desqualifica o que é ‘de dentro’; sua ‘alma é vendida’, ou melhor, é negociada; ela não é moderna, não é empreendedora; ela criou uma ‘síntese’ atraso-moderno, que se relaciona o tempo todo, como face da mesma moeda, e, nisso, tudo é possível: trabalho ao estilo de escravidão, subemprego, analfabetismo, valorização da cultura exógena, rejeição aos direitos do trabalho e sociais, entendidos por ela como privilégios. Esta classe até aqui, não acredita em nossas potencialidades enquanto Nação, com letra maiúscula. Ela é envergonhada, esteticamente feia, porque não tem ‘rosto próprio’, ela não se vê no povo que habita este país. 196 anos de independência se passaram e ainda predomina a desigualdade extrema, a luta para a concretização dos direitos constitucionais, os preconceitos e as discriminações advindos de uma sociedade escravista, patriarcal e arcaica. Autoritarismo com os complexos de superioridade ‘para dentro’ e de inferioridade ‘para fora’ da nossa classe dominante, é, no mínimo, um desafio ‘psicanalítico-social’ a ser entendido e superado. É inibidor de qualquer projeto de nação soberano! A colônia ainda está dentro de nós!

Relacionem sem ‘pré-conceitos’ e como uma totalidade ECONOMIA-POLÍTICA-SOCIEDADE-CULTURA, a partir, por exemplo, deste breve ‘sobrevoo’ apresentado, é um bom exercício para sonhar com a ‘viabilidade de um Brasil soberano’. A ‘vontade fraca’ é de quem quis e quer o nosso país apenas como negócio e negócio barato para os outros. Não há determinismo histórico. Temos viabilidade, sim!

César Benjamin (2007) nos provoca: “Nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser”, disse recentemente Celso Furtado, antes de nos deixar. Todos esses processos estão aí, a nos desafiar, exigindo de nós um esforço de análise talvez mais árduo do que aquele realizado pelas gerações dos nossos mestres. Ainda não sabemos bem até que ponto tais processos alteraram definitivamente   as condições sociológicas da nossa existência, e em que direção. Não temos uma teoria do Brasil contemporâneo. Estamos em voo cego, imersos em uma crise de destino, a maior da nossa existência. A História está nos olhando nos olhos, perguntando: “Afinal, o que vocês são? O que querem ser? Tem sentido existir Brasil? Qual Brasil? ” (In: “Uma certa ideia de Brasil” — artigo para o livro ‘Enciclopédia de Brasilidade’ — Carlos Lessa // http://www.contrapontoeditora.com.br/)

Hoje fazemos 196 anos da nossa Independência e somos o que foi construído de nós e por nós. Gostemos ou não, o Brasil existe e é este que está aqui e agora! E eu quero vida longa para o meu país! E eu quero uma vida longa diferente para todos, profundamente democrática, justa, bela, criativa e criadora, segura, cuidadosa, ou seja, feliz!

 

PS: SOBRE O CLIMA ELEITORAL 2018 (que muito tem a ver com o artigo de hoje)

— Desejo a recuperação de Messias Bolsonaro. Não concordo com nenhum tipo de violência para com quem quer que seja.

—Não concordo com piadas, memes, ironias, sarcasmos, julgamentos e ‘sentenças’ com a dor do outro. Este não é o novo caminho democrático e emancipador de se fazer política. 

Nada acho impossível acontecer na atual política brasileira. Mas penso ser improvável uma ‘armação/conspiração’ neste caso específico vivido pelo candidato do PSL. Se for…quem será(ão) o(s) beneficiário(s)?

Penso no imponderável.

 

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