Opiniões

Bolsonaro ignora respeito aos mortos e a Constituição para atacar presidente da OAB

 

 

Enquanto cortava o cabelo, Bolsonaro gravou live ontem à tarde para dizer que o pai do presidente da OAB teria sido morto pelo grupo de esquerda que integrava, ao contrário do que concluiu a Comissão da Verdade (Reprodução)

 

Bolsonaro mira OAB e acerta Campos

Em mais uma de suas declarações polêmicas, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) atirou na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e acertou em Campos dos Goytacazes. Mesmo sem querer, a nova celeuma do mandatário da nação envolve a suposta queima de corpos de presos políticos nos fornos da usina Cambaíba, denunciada pelo ex-delegado do extinto Departamento de Ordem Política e Social (Dops) Cláudio Guerra no livro “Memórias de uma Guerra Suja” (2012), escrito por Marcelo Netto e Rogério Medeiros, que gerou inquérito já concluído no Ministério Público de Campos.

 

Quem é quem

Ontem, Bolsonaro indagou a jornalistas: “Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados (do ex-militante do Psol Adélio Bispo, que esfaqueou o então candidato durante ato de campanha em Juiz de Fora, elegendo-o presidente)? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”. E revelou quem é a pessoa do presidente da República, com uma provocação pessoal, de caráter no mínimo duvidoso, contra o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz: “Se o presidente da OAB quiser saber como o pai dele desapareceu no período militar, eu conto. Ele não vai querer ouvir a verdade”.

 

Os mortos e a Constituição

O pai de Felipe Santa Cruz foi o militante de esquerda Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, desaparecido em 23 de fevereiro de 1974, nos anos de chumbo da ditadura militar (1964/1985). Pelo nível rasteiro do ataque, as reações foram imediatas. Em qualquer sociedade, o respeito aos mortos é valor cultivado. Se não pela moral, a OAB lembrou em uma nota de repúdio os limites da Constituição: “Todas as autoridades do País, inclusive o senhor presidente da República, devem obediência à Constituição, que tem entre seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos”.

 

No STF

Por sua vez, o presidente nacional da OAB classificou Bolsonaro em carta aberta: “O mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado, demostrando mais uma vez traços de caráter graves em um governante: a crueldade e a falta de empatia”. É a falta de empatia, a incapacidade de enxergar o outro como semelhante, que configura a psicopatia. Da psiquiatria que explica esfaqueadores e esfaqueados, à Justiça que os julga por seus atos, Santa Cruz disse que vai acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para que o presidente conte o que sabe sobre a morte do seu pai.

 

Passado condena

Preocupado com a forte reação ao seu mais recente episódio de incontinência verbal, Bolsonaro depois recorreu às redes sociais para tentar dourar a pílula amarga: “Isso que aconteceu, não foram os militares que mataram ele, não, tá? É muito fácil culpar os militares por tudo. Isso mudou. Mudou através do livro ‘A Verdade Sufocada’, o depoimento do Brilhante Ustra”. Por homenagear Ustra, único militar condenado pela Justiça por tortura na ditadura militar, em seu voto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que a teria torturado, a OAB já tinha representado contra o então deputado federal Jair Bolsonaro.

 

Cambaíba

Questionada pelo general linha dura Rocha Paiva — que chamou o vereador Carlos Bolsonaro (PSL) de “idiota inútil” e foi chamado pelo pai-presidente de “melancia” (verde por fora, vermelho por dentro) —, a Comissão da Verdade concluiu que Fernando Santa Cruz foi morto pelas forças de repressão da ditadura. Na página 58 do livro “Memórias de uma Guerra Suja”, Cláudio Guerra narra: “Fiz outras viagens entre a Casa da Morte (centro de tortura e execução em Petrópolis) e a usina de Campos (Cambaíba) para levar corpos, que eu identifiquei serem de Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira (…) transportei os cadáveres para a incineração”.

 

MPF de Campos

Com o caso vindo novamente à tona, o procurador da República em Campos, Guilherme Virgílio, informou ontem à reportagem da Folha que o inquérito sobre a suposta queima de corpos de presos políticos em Cambaíba foi concluído na semana passada. E que o MPF está trabalhando na finalização do que será apresentado à Justiça. O procurador confirmou que Cláudio Guerra disse no livro e em depoimentos na Comissão da Verdade que o corpo de Fernando Santa Cruz foi incinerado na usina, mas não pôde dar mais detalhes porque o procedimento ainda está sob sigilo. Que, acredita, será levantado ainda esta semana.

 

A lei e a moral

Que os grupos de resistência armada à ditadura militar pretendiam implantar uma ditadura socialista no Brasil, é atestado por todos os documentos destes mesmos grupos. Inclusive a Ação Popular Marxista-Leninista (APML), em que militava o pai do presidente da OAB. Mas se o Brasil vivia uma guerra, até nela há regras. Para isso foram feitas as Convenções de Genebra, na Suíça. Que criminalizaram a tortura e o assassinato de prisioneiros de guerra. Para esses crimes, há o Tribunal Internacional de Justiça em Haia, na Holanda. Antes dele, ou de se usar a morte de um pai para atacar um filho, há ou deveria haver outra coisa: escrúpulo moral.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

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Este post tem um comentário

  1. O Bolsonaro calado é um genio mas quando abre a boca demonstra que é um ignorante. Na campanha presidencial, se deixassem ele falar e ir aos debates ele ficaria em último lugar. Foi a mídia que endeusou ele e fez o povo acreditar no que ele não é. Evangélico ele não é, pois é conivente com a tortura,etc. Honesto também ele não é. A sua família nem quer ser investigada, para o povo não ficar sabendo dos seus envolvimentos com a milícia, e outras falcatruas.

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