Opiniões

Repressão de ato antirracista pela PM de Campos tem repúdio do Comcultura e vereador

 

A ação da PM de Campos, no final da tarde de sexta (05), para (confira aqui) dispersar cerca de cerca de 15 jovens que promoviam uma manifestação antirracista no Pelourinho, símbolo do passado da escravidão dos negros na cidade, foi considerada “truculenta” pelo Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), em nota de repúdio divulgada hoje. O ato acontecia de maneira pacífica, com seus participantes usando máscaras de proteção, com distribuição de álcool gel e respeitando os limites de distanciamento físico.

 

 

Vereador Jorginho Virgílio (Foto: Folha da Manhã)

 

Diferente de como reagiu às mainfestações bolsonaristas na cidade, PM de Campos hoje usou gás lacrimogêneo para dispersar ato antirracista no Pelourinho (Reprodução de vídeo)

A nota do Comcultura lembrou que “todas as manifestações pacíficas não devem ser só respeitadas, como defendidas pelas forças de segurança”. E repudiou, por parte da PM, “o uso de spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo para a dispersão dos poucos manifestantes do muito pertinente protesto antirracista”. No dia 6, em comentário (confira aqui) da postagem da matéria sobre o fato, na página do Folha1 no Facebook, a repressão da PM de Campos também sofreu duras críticas do vereador Jorginho Virgílio (DC), que denunciou “a volta da ditadura no país”:

— O Brasil está muito longe de ter uma democracia estabelecida como os EUA. Muito menos Campos dos Goytacazes… LAMENTÁVEL! Nós não vamos nos acovardar não! Nós não iremos aceitar a volta da ditadura no país!

Ouvido desde sexta, o comandante do 8º BPM de Campos, tenente-coronel Luiz Henrique Barbosa, deu sua versão sobre a ação de repressão:

— Está proibido a aglomeração neste período de pandemia e não obedeceram a orientação da PM. Por isso tivemos que fazer o uso progressivo da força com emprego de armamento não letal.

Indagado por que a mesma atitude de força não foi adotada em manifestações de grupos bolsonaristas na cidade, o oficial da PM discordou:

— Discordo, inclusive efetuamos prisões (confira aqui) nos últimos atos.

 

Já em meio à pandemia, protesto bosonarista de 15 de março em Campos, com pauta antidemocráticas contra o Congresso e o STF, não sofreram repressão da PM (Foto: Genilson Pessanha – Folha da Manhã)

 

Comandante do 8º BPM, Luiz Henrique Barbosa

Perguntado por que o uso de gás lacrimogêneo nunca foi adotado nas manifestações de direita, o comandante justificou:

— Isso são procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações.

Um estudante que participou do ato antirracista, que preferiu se identificar apenas pelo nome artístico de Kekere, temendo por sua segurança, deu outra versão:

— Marcamos o ato pelas redes sociais, de maneira apartidária, inspirados nos protestos antirracistas que acontecem nos EUA, na Europa e no mundo, desde a morte covarde de George Floyd. Éramos cerca de 15 pessoas, jovens entre 19 e 25 anos, à exceção de um senhor que foi com seu filho. Fizemos a concentração no Pelourinho, pois na praça São Salvador haviam duas viaturas da PM. Todos nós usávamos máscaras, alguns até luvas e distribuíamos álcool gel para todos. Primeiro, chegaram três PMs, vindos da praça, dizendo que as manifestações estavam proibidas. Dissemos a eles que estávamos cumprindo todas as determinações sanitárias. Assim mesmo vieram três viaturas, depois mais duas, e cerca de 15 PMs. Que chegaram gritando e atiraram bombas de gás lacrimogêneo sobre os nossos pés. Nossos olhos arderam muito, tivemos muito medo.

George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos

Sociólogo, cientista político e professor da UFF-Campos, George Gomes Coutinho também questionou a ação da PM (confira aqui) nas redes sociais. E cobrou a investigação do Ministério Público:

— Espantoso. O mais curioso é que embora, sim, tenham ocorrido prisões nas “carreatas da morte” campistas, as mesmas não foram impedidas. As prisões, segundo informações que me chegaram, ocorreram ao final das mesmas e derivaram corretamente no encaminhamento civilizado e respeitoso dos organizadores para a 134ª DP. Além disso preocupa o indício de manifestação local do fenômeno nacional de alinhamento acrítico das baixas patentes da Polícia Militar ao discurso autoritário e antidemocrático do governo Bolsonaro. A declaração do comandante é de fundamental importância sobre a violência com amparo institucional: “procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações”. Quem estava na ponta? Quem deu a ordem para o uso de gás lacrimogêneo? Por qual razão? Não cabe investigação pelo Ministério Público?

 

Confira no vídeo abaixo a ação da PM de Campos na sexta:

 

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Este post tem um comentário

  1. Campos com um histórico de cenário no Brasil de ser a última cidade a abolir escravos , e com uma sociedade totalmente provinciana, não é de se espantar uma atitude dessas.

Deixe uma resposta

Fechar Menu