Opiniões

Após Nova York, histórias de Atafona chegam à TV da França

 

Foz do rio Paraíba foi novamente fechada em 23 de maio deste ano, pelo avanço do mar (Foto:Marco Antônio Ribeiro da Silva, o Careca)

 

O avanço do mar em Atafona já levou muitas casas, ruas e histórias. Mas também se transformou em outras, contadas pelo mundo. Em outubro do ano passado, o blog registrou (relembre aqui) como as imagens de Atafona, feitas pelo fotógrafo carioca Felipe Fittipaldi, foram reunidas em uma exposição embaixo da famosa Ponte do Brooklin, em Nova York. Mais recentemente, geraram também uma reportagem do canal de TV France Info, gravada na quinta (1º) e veiculada ontem (06) na França. Na matéria televisiva, foram ouvidos o pescador Celso Simas Borges, o geógrafo da UFF Eduardo Bulhões e o coordenador da Defesa Civil de São João da Barra, Wellington Barreto Gonçalves.

Confira a exposição fotográfica sobre Atafona em Nova York e a reportagem da TV francesa:

 

Exposição de fotos de Atafona embaixo da ponte do Brooklin (Foto: Divulgação)

 

 

Geólogos canadense Charles Frederick Hartt e campista Alberto Ribeiro Lamego

 

O primeiro a estudar as interrelações entre o oceano Atlântico e a foz do rio Paraíba do Sul, no litoral de Atafona, foi o geólogo canadense Charles Frederick Hartt. Ele veio ao Brasil integrando a famosa expedição Thayer, entre 1864 e 1865. Em 1945, na sua obra “O Homem e o Brejo”, o geólogo campista Alberto Ribeiro Lamego externou grande parte das suas teses sobre papel protagonista do Paraíba do Sul na formação da planície goitacá. O processo natural passou a sofrer desequilíbrio pela ação humana. Em 1952, a barragem de Santa Cecília foi inaugurada em Barra do Piraí, desviando 2/3 das águas do rio Paraíba ao rio Guandu, para abastecer de água o Grande Rio de Janeiro. Para o eco historiador Arthur Soffiati, esse “foi o golpe final” em Atafona:

 

Historiador Arthur Soffiati no Folha no Ar de 14 de janeiro de 2020 (Foto: Cláudio Nogueira – Folha FM)

 

—  A transposição de Santa Cecília criou dois rios Paraíba. O primeiro começa na sua nascente mesmo, na serra da Bocaina, em São Paulo, e termina na Baía de Sepetiba, na cidade do Rio, através do rio Guandu. O outro rio Paraíba começa no rio Paraibuna, em Minas Gerais, e termina na foz de Atafona. As lagoas de Grussaí, de Iquipari e do Açu não são mais extravasores auxiliares do Paraíba em período de cheia. Se o Paraíba não encher, esses braços não são reativados mais. E agora a gente vê o fechamento de mais um braço entre o Pontal e a Convivência. E ficou só um braço estreitinho, que é o braço de Gargaú — disse Soffiati (relembre aqui) no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, em 14 de janeiro deste ano.

O avanço do mar em Atafona fechou a foz natural do Paraíba em outubro de 2019 (confira aqui), ligando a praia sanjoanense à antiga ilha da Convivência. Que foi momentaneamente reaberta pela cheia do rio em março de 2020 (confira aqui), mas voltou a se fechar em maio (confira aqui). Isso, enquanto o avanço da salinidade marinha sobre o próprio Paraíba tem causado constantes interrupções de captação d’água para São João da Barra, como aconteceu (confira aqui) no mês passado.

 

Neivaldo Paes Soares desapareceu navegando sozinho na foz do Paraíba, na noite fria de 21 de junho de 2015 (Foto: Facebook)

 

A única parte da foz natural do rio ainda aberta está entre a praia de Gargaú, no município vizinho de São Francisco de Itabapoana, e a antiga ilha do Peçanha. Onde o comerciante e “poeta da vida” Neivaldo Paes Soares desapareceu navegando sozinho, sem deixar sem deixar pistas (relembre aqui), numa noite fria de 21 de junho de 2015. Para gerar outras histórias.

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Muito boa matéria. Esperei o contato da jornalista francesa, mas ela não precisou de mi. O competente professor Eduardo Bulhões apresentou o drama de Atafona a ela. E assim, os problemas ambientais – sempre com raiz mundial – acabam se manifestando em todos os rincões do planeta. Pena que estejamos chamando a atenção do mundo pelo descuido com o meio ambiente. Sei que não somos responsáveis por tudo, mas se dedicássemos um cuidado maior à proteção da natureza, não teríamos rios em frangalhos como o Paraíba nem incêndios devastadores como os da Amazônia e do Pantanal.
    Arthur Soffiati

  2. Temos que expor cada vez mais ao mundo civilizado a forma como realmente o meio ambiente é tratado aqui. Quem sabe assim, algum dia e antes que seja tarde demais, sejamos capazes de preservar um bem que é da humanidade.

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