Opiniões

Infectologista alerta: janeiro será pior mês da Covid em Campos e no país

 

 

Médico infectologista Rodrigo Carneiro projetou “janeiro negro” da Covid em Campos, na região e no Brasil

“Todo dia, caem no Brasil quatro aviões cheios (de passageiros, com os mortos diários pela Covid-19 no país). E a população continua na fila para embarcar. Eu entendo perfeitamente a realidade econômica que motiva as flexibilizações (do isolamento social). A alternativa seria, primeiro, nós termos o registro emergencial das vacinas que já estão disponíveis e adquirir essas vacinas. A que é mais fácil é a que já é produzida em solo nacional, que é a Coronavac (em parceria com o instituto Butantan, em São Paulo). E elas devem começar a ser aplicadas imediatamente, de preferência antes do final do ano. Se você já tem o Reino Unido aplicando, os EUA aplicando, por que o Brasil não pode começar a aplicar? Por que esperar 25 de janeiro? O que alguns epidemiologistas colocam é que o janeiro vai ser negro se continuar assim; o janeiro será o pior mês da pandemia”. O alerta foi dado no início da manhã pelo médico infectologista Rodrigo Carneiro, no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3.

 

CONSEQUÊNCIAS DO NATAL E RÉVEILLON

O especialista também explicou porque os casos de Covid devem aumentar no Brasil:

— A projeção não é boa. A gente vai ter o Natal, o Réveillon, as festas de final de ano. Se não houver o distanciamento, a tendência é que essa aceleração de casos se mantenha por mais um mês, 40 dias. Provavelmente vai ser pior do que foi no meio deste ano porque a estrutura hospitalar que nós tínhamos, o Brasil e a região não têm mais, o número de leitos (para Covid) foi reduzido. Após o Natal e o Réveillon, o número de casos vai acelerar ainda mais. Nós podemos ter, então, grande parte da população doente e, o pior, aumentar o número de óbitos. Comemorem o seu Natal, o seu Ano Novo, basicamente com a sua família, que não passe de quatro, cinco, seis pessoas. Porque se houver aglomeração, já está demonstrado: vai aumentar o número de casos. Quando a gente conseguiu fazer um distanciamento razoável, a gente já viu a diminuição do número de casos que houve, no país e na cidade. E quando a gente parou com isso, principalmente por causa das campanhaz eleitorais, os casos voltaram a subir.

 

PROJEÇÃO DE 237 MIL MORTOS PELA COVID NO BRASIL

O médico infectologista também explicou que, até que a vacinação comece e possa fazer algum efeito real, o número de óbitos pela doença no país, que hoje ultrapassa os 181 mil, deve chegar a 237 mil:

— Quem vai vacinar primeiro é o Estado de São Paulo (que fez a parceria com a Coronavac, chamada pelos bolsonaristas de “vacina chinesa”). A previsão é 25 de janeiro, daqui a pouco mais de um mês. Até que a gente possa imunizar, na melhor das hipóteses, uma quantidade razoável de pessoas, vamos colocar mais 60 dias. E aí a gente tenta fazer uma mediana do número de óbitos. Hoje estamos tendo entre 850 a 900 por dia, provavelmente vai subir para mil, mil e poucos óbitos (diários no Brasil), para depois voltar a cair. Com 800 óbitos/dia, por 60 dias, se tudo ocorrer muito bem com a vacinação, a gente chega a esse número. Agora, a gente falar: “Ah, 237 mil óbitos!”. A gente já está com mais de 180 mil, que nós conversávamos em abril. E ficava todo mundo: “Meu Deus, 180 mil óbitos!”. E a gente hoje já passou.

 

VACINAÇÃO COM NOVAS MEDIDAS DE ISOLAMENTO

Rodrigo Carneiro também explicou porque, para tentar minimizar esse genocídio da população brasileira, as medidas de isolamento terão que ser adotadas mesmo depois de iniciada a vacinação:

— Vai ser necessário continuar com as medidas de isolamento mesmo após o início da vacinação. Você imagina um absurdo de eficiência, em que a gente conseguisse vacinar 2 milhões de pessoas por dia. Isso estatisticamente não representa muita coisa. A gente vai levar 20 dias para vacinar 40 milhões de pessoas, e nestes 20 dias o vírus continuará circulando, até porque a vacina leva de duas a três semanas para estimular a produção de anticorpos. A gente, além de tentar que encurtar a vacinação, vai ter que ter rigor com as medidas de distanciamento, no mínimo por mais dois, três meses. Isso para que a gente consiga frear essa subida e não tenhamos um número de casos tão grande. A gente já tem uma quantidade de casos bastante parecida com que a gente tinha no meio do ano, mas com menos leitos, e nós estamos ainda em aceleração. Por isso os epidemiologistas apontam que nós teremos em janeiro o pior mês da pandemia no Brasil.

 

COMPROMISSO DE WLADIMIR COM COMPRA DE VACINAS

Na questão local do combate à Covid, o especialista também analisou o anúncio feito ontem (confira aqui) pelo prefeito eleito Wladimir Garotinho (PSD), em resposta (confira aqui) à cobrança da Folha, de se comprometer com a compra de vacinas para o município. E criticou o atual governo, do prefeito Rafael Diniz (Cidadania), por não ter feito o mesmo antes e por conta própria:

— Voltamos a ter 900 mortes por dia de Covid no país. Em Campos, estão morrendo três, quatro pessoas todo dia, há vários dias. Os números estão aí para quem quiser ver. Com relação à vacina (para Campos), antes tarde do que nunca. Já era para a gente ter uma previsão de compra da vacina, de preferência antes do governo atual acabar, para a gente já entrar no próximo governo com essa intenção de compra. Eu espero que no dia 2 de janeiro, o prefeito já esteja com isso tudo pronto para assinar o contrato de compra e que, o mais rápido possível, a vacina chegue. Se a gente for depender do Governo Federal, do ministério da Saúde, do Governo do Estado, a gente só vai vacinar lá para fevereiro, março. Campos foi abandonada pelo Governo Estadual, a Prefeitura teve que se virar sozinha. A gente tem que vacinar e tem que fazer o isolamento.

 

GOVERNO RAFAEL LAVOU AS MÃOS?

Sobre essa necessidade do isolamento social, apesar do bom papel no começo da pandemia, quando inaugurou em 30 de março (relembre aqui) o Centro de Controle e Combate ao Cororavírus (CCC) de Campos e decretou o lockdown da cidade em maio (relembre aqui), o governo Rafael, segundo o médico infectologista, teria “lavado as mãos”:

— Essa medida, por exemplo, da Prefeitura, de abrir as lojas abertas 24h (confira aqui) para tentar diluir o movimento, a gente sabe o que vai acontecer. O pessoal não vai querer ir para a loja de noite, de madrugada; as pessoas vão se aglomerar no horário comercial. Então, a única coisa que a gente pode pedir é que a população se conscientize. Se não vai piorar. E a gente teve o exemplo claro nas eleições. A gente corre o risco de ter uma nova exposição em massa de pessoas e, com isso, teremos o retardamento da queda do número de casos. E aí, milhares e milhares de vidas humanas serão perdidas. A impressão que eu tenho é: a Prefeitura de Campos lavou as mãos. “Eu vou fazer essa medida, eu agrado aos lojistas e eu empurro a batata quente para a população”. Foi isso que a Prefeitura fez. Eu entendo, mas discordo. O fato é: a Prefeitura cedeu mais do que deveria aos interesses econômicos. Se o prefeito saindo, no apagar das luzes, ele tomasse uma medida mais impopular, que é fase Vermelha, lockdown, que é o que a gente necessita, acho que ele interpreta talvez como a pá de cal na sua carreira política. A história vai julgar. Nós, campistas, daqui a alguns anos, poderemos julgar se foi o correto ou não. Eu tenho certeza que a área técnica dele falou que o correto é retroagir, fazer o isolamento social.

 

CHEFE DA VIGILÂNCIA EM SAÚDE: “NINGUÉM LAVOU AS MÃOS”

À noite, informada pelo blog da matéria feita da entrevista ao Folha no Ar pela manhã com Rodrigo Carneiro, sua colega médica infectologista e chefe da Vigilância em Saúde do governo Rafael, Andreya Moreira se manifestou. Ela garantiu que ninguém na atual gestão “lavou as mãos” no combate à pandemia da Covid em Campos, que comanda desde o primeiro momento. E que a decisão de não adotar o lockdown no município “não foi política”. No entanto, a infectologista confirmou o “cenário drástico” previsto para janeiro em consequência das festas de final de ano:

 

Andreya Moreira, chefe da Vigilância em Saúde do governo Rafael

 

— Ninguém lavou as mãos. Temos um trabalho muito sério (que Rodrigo endossou e elogiou em sua entrevista). Todos os epidemiologistas e infectologistas estão tendo a mesma visão em relação às festas do fim de ano. O cenário é drástico. Medidas restritivas estão sendo feitas, ampliação do comércio para evitar aglomeração é importante nesta época do ano. E sabemos que medidas extremas de fechamento geram graves consequências. Precisamos da conscientização da população, que está sendo bem difícil, com ou sem lockdown. A decisão não foi política. Estamos orientando sobre a necessidade de distanciamento nas reuniões de Natal e Ano Novo para diminuir a circulação viral. A Fiocruz lançou um material sobre isso, que estamos utilizando para orientação. E a questão da vacinação não tem segredo. Temos um dos melhores programas de imunização do mundo, com uma boa estratégia, equipe capacitada e locais apropriados. É só a vacina chegar. Nosso ritmo tem sido muito intenso. Precisamos conviver com o vírus. Trabalho com o Rodrigo Carneiro. Concordo que não é um problema que acabará com a chegada da vacina. Levará um tempo para imunizarmos todos os grupos.

 

Confira abaixo nos vídeos os três blocos da entrevista do médico infectologista Rodrigo Carneiro ao Folha no Ar:

 

 

 

 

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