Jesus em prosa e verso — “Amor da carpintaria” é presente do Natal

 

“Cristo de São João da Cruz” (1951), óleo sobre tela de Salvador Dalí, Museu e Galeria de Arte de Kelvingrove, em Glasgow, Escócia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Hoje, véspera do dia a que se atribui o aniversário do Cristo, deveria ser de reflexão. Sobretudo ao final de um ano tão difícil ao mundo quanto foi 2020. Questão de fé é uma coisa muito particular. E, dentro da mesma fé, há particularidades. Assim, o seu Cristo, leitor, é o seu. Ele não é exatamente o mesmo Cristo do Papa Francisco, por sua vez diferente do Cristo do Patriarca Teodoro II, diferente do Cristo de Lutero, diferente do Cristo de Tomás de Aquino, diferente do Cristo de Agostinho, diferente do Cristo de Saulo de Tarso, diferente do carpinteiro e rabi da Galileia chamado em vida de Yeshua, Iisoús em grego, Iesus em latim.

O fato histórico é que Jesus morreu jovem, aos 33 anos. E como parece ser uma infeliz coincidência com outros grandes líderes que pregaram a paz, teve uma morte muito violenta. Mas sua vida curta e grande obra bifurcaram o mundo. Por isso o nosso calendário romano e cristianizado serve de referência mesmo às civilizações humanas de outra matriz, que mantêm suas próprias datações. E o faz dividido em antes e depois do nascimento de Cristo. Que hoje o Ocidente e parte do Oriente celebram em reuniões familiares reduzidas, ou como deveriam ser, em tempos de pandemia da Covid-19.

Sobretudo na Civilização Ocidental, a influência de Jesus está no seu éthos, no seu alicerce moral. A despeito dos crimes cometidos em seu nome ao longo da História. Como, de resto, em nome de todas as religiões. Mesmo as que assim não se consideram, em seu pretensioso ateísmo iluminista, como o liberalismo, o marxismo e o nazifascismo. Ainda assim, o legado de Jesus ao Ocidente — e mesmo à Civilização Islâmica, onde é considerado profeta e chamado por seu nome árabe de Issa — teve peso agregador e civilizatório. Que manteve a Europa unida no milênio da Idade Média, ou “das Trevas”, entre a queda de Roma e a colonização das Américas.

Muitos pensadores consideram o amor como o maior legado de Jesus, sua grande revolução. Não só o amor na relação do homem com Deus, que permitiu ao cristianismo entrar na Europa e nas Américas de uma maneira que o judaísmo e o islamismo — religiões do mesmo Deus de Abraão — nunca conseguiriam, mas também no amor do homem pelo homem. “Amarás ao próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:39) nas palavras com que Jesus, abaixo apenas do amor a Deus, deu seu segundo mandamento. E com ele universalizou o que o judaísmo do Velho Testamento reservava só aos filhos de Israel: “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Levítico 19:18).

Essa capacidade de olhar o semelhante como irmão, independente de raça ou tribo, sobretudo em caso de necessidade, é a maior contribuição do cristianismo à humanidade. Ao final de um ano bastante difícil para esta mesma humanidade, de muito trabalho e muitas perdas, mas também de relativo sucesso profissional ao Grupo Folha (relembre aqui), que o amor pregado por Jesus seja o grande presente a você, leitor. E a todos a quem o aniversariante nos ensinou a olhar como irmãos.

 

Abaixo, seguem três poemas. O primeiro, junto com sua interpretação pelo falecido ator Paulo Autran, é de Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. O segundo, um soneto de Gregório de Matos, nosso maior barroco, segue com sua interpretação pelo ator Miguel Falabella. E o terceiro, com o perdão aos dois primeiros autores pela companhia, assim como ao modernista Carlos Drummond de Andrade, que abre o poema final de minha autoria:

 

Menino Jesus e Fernando Pessoa

 

Num meio-dia de fim de Primavera

(Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, parte VIII de “O guardador de rebanhos”)

 

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

 

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

 

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

 

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

 

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

 

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

«Se é que ele as criou, do que duvido.» —

«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres.»

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

 

……

 

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

 

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

 

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

 

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

 

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

 

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

 

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do Sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

 

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

 

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

 

……

 

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

 

……

 

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há-de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

 

 

 

Gregório de Matos

Buscando a Cristo

(Gregório de Matos)

 

A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos

Que, para receber-me, estais abertos,

E, por não castigar-me, estais cravados.

 

A vós, divinos olhos, eclipsados

De tanto sangue e lágrimas abertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos,

E, por não condenar-me, estais fechados.

 

A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, pra chamar-me

 

A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme.

 

 

 

“Pois que, eu essência, não habito
Vossa arquitetura imerecida;
Meu Deus e meu conflito”

(carlos drummond de andrade)

 

A Morte e o cavaleiro Antonius Block, interpretado por Max von Sydown, jogam xadrez em “Sétimo Selo” (1956), clássico do cinema escrito e dirigido pelo sueco Ingmar Bergman

 

sétimo selo

(aluysio abreu barbosa)

 

há os dias em que busco Deus

há aqueles em que topo o dedão

e O chamo de filho da puta

mas guardo na cômoda, por utopia

um pequeno grão de mostarda

e o amor da carpintaria

 

eu, quase sempre distante

como filho criado por outros

numa ilha sem fé no mar

e às vezes, meu Deus, tão seu íntimo

agarrado como uma criança

a quem a salvou de se afogar

 

minha imagem e semelhança?

falho demais para meu Deus

— teria mais em conta um gorila

ou a árvore que o aproxima do céu

 

caminho em sua vida

abençoado por sua sorte

encontro marcado com a morte

delirando chorar como hamlet

na certeza química dos anjos

nas dúvidas de antonius block

 

campos, 11/12/06

 

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