Opiniões

Covid e comércio por Frederico Paes: “Para Campos não virar Manaus”

 

No início da manhã de ontem (confira aqui), no aeroporto Bartolomeu Lisandro, enquanto esperava o primeiro lote de vacinas contra a Covid para Campos, o vice-prefeito Frederico Paes (MDB) falou ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, não só sobre a chegada da Coronavac, mas dos motivos que levaram o município a retroagir, também ontem, à Fase Laranja, com fechamento de todo o comércio considerado não essencial. Ele falou das reuniões que teve com representantes do setor, na manhã e na noite de segunda, para passar a decisão tomada “sem hesitação” pelo prefeito Wladimir Garotinho (PSD) no domingo, a partir do trabalho científico coordenado pelo médico infectologista e epidemiologista Charbell Kury, subsecretário de Atenção Básica e Vigilância Sanitária. E revelou que Campos, na terça e quinta da semana passada, chegou a ter quase 100% de ocupação dos seus leitos de UTI reservados aos doentes de Covid. Para orientar e fiscalizar o novo decreto, o poder público municipal conta com a Vigilância Sanitária, sob comando da médica veterinária Vera Cardoso de Melo. A alternativa ao seu descumprimento, alertou Frederico, “é Campos virar Manaus”. E ter pessoas mortas na cidade por sofrimento extremo e sem assistência médica. “A gente não pode deixar isso acontecer”, garantiu.

 

Frederico Paes, vice-prefeito de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Vacina contra Covid a Campos e região – Ontem (segunda, 18) nós fomos até surpreendidos. Já eram mais de 22h, quando nós tivemos a notícia que as vacinas estariam chegando (ontem, 19) à região. A gente está muito feliz, lógico, mas essa logística (nacional de distribuição) foi até improvisada. Mas que seja improvisada, desde que vacina chegue à população, ela é bem-vinda. Realmente houve uma antecipação, o governador (João) Doria (PSDB), de São Paulo, que antecipou (fez a primeira vacinação no Brasil no domingo, 17) e isso forçou o governo federal a antecipar o seu calendário em um dia, as vacinas estavam previamente agendadas para o dia de amanhã (hoje, 20). Nós estamos aqui no aeroporto Bartolomeu Lisandro, com uma movimentação muito grande. Porque, na verdade, não é só Campos que está recebendo as vacinas, são cinco município da região (também São João da Barra, São Francisco de Itabapoana, Cardoso Moreira e São Fidélis). É um dia histórico para a nossa população, que vem sofrendo muito com a questão dessa doença, dessa maldita doença. E aqui, neste dia, a gente traz esperança às pessoas, a esperança em dias melhores. Nós vamos nos empenhar ao máximo para que a vacina chegue o mais rápido possível às pessoas.

 

Para não virar Manaus – Nós sempre dissemos, desde o início do governo, que nós iríamos seguir a ciência. Por mais que a gente entenda a problemática do comércio, inclusive ontem (segunda) na reunião com os comerciantes, de manhã, no Cesec, e à noite com o pessoal de shopping, eu fico bastante à vontade, porque eu sou do meio produtivo. Então, eu sei o quanto é duro para o comerciante fechar o seu estabelecimento, com contas a pagar, com salários a pagar. Nós entendemos, mas sempre dissemos que iríamos seguir a ciência. E essa análise dos nossos médicos, da nossa equipe toda da Saúde, com o acompanhamento de curva (do aumento de número de casos, internações e mortes), nós não poderíamos deixar acontecer o que aconteceu em Manaus.

 

Sistema perto do colapso — Na semana passada nós tivemos dois dias (12 e 14) de extrema tensão, onde nós tivemos praticamente 100% dos leitos de UTI para Covid preenchidos. Foram dias muito difíceis, não só para nós, mas principalmente para as equipes médicas que estão lá na linha de frente. E nos foi passado que, se nós não tomássemos essas medidas, medidas duras e que a gente fica até triste de ter que tomar, porque a gente não esperava isso na nossa cidade, mas se a gente não tomasse, nós teríamos na semana que vem um colapso do sistema de saúde em Campos. É importante destacar que os hospitais particulares, os hospitais que atendem plano de saúde, eles estão praticamente lotados. Quando esses hospitais lotam, eles passam também a utilizar o serviço público de Saúde. Foram picos. E é importante destacar que isso não é uma foto, é um filme, que de manhã, por exemplo, você está com 90% de lotação, ou com 95%, e à tarde, se alguém entrar no sistema, vai ver que está com 80%. Então, a gente não poderia deixar a população de Campos correr esse risco.

 

“Freio de arrumação” – Todos os estudos, dr. Charbell (Kury), que é um grande estudioso, com outros médicos que estão na nossa equipe, mostraram a necessidade desse freio de arrumação. Para que por uma semana a gente evite a circulação de pessoas, a gente consiga frear essa doença, para que na outra semana a gente tenha uma normalidade e possa voltar à Fase Amarela.

 

Dificuldade de equipe médica – É importante destacar também que os 10 leitos (de UTI, para o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus em Campos, o CCC) que a gente conseguiu no final de semana, nós ainda não estamos com eles abertos. Eles estão lá instalados, mas nós estamos tendo uma dificuldade enorme de equipe médica. E eu não faço aqui nenhuma crítica aos médicos. Porque é um trabalho, é uma situação muito difícil, em que eles estão há 10 meses trabalhando na linha de frente. E nós, provavelmente, vamos ter que trazer gente de fora do município de Campos para fazer esses leitos funcionarem.

 

“Repito: para não virar Manaus” – Dando uma parada (no comércio e na circulação de pessoas) esta semana, provavelmente abrindo os 10 novos leitos, que vão estar funcionando na medida que nós tivermos médicos lá para atender. Então, nós vamos conseguir estabilizar a situação do nosso município, dar segurança à nossa população para, repito: para não acontecer o que aconteceu em Manaus. Lá se tentou parar a cidade, houve uma reação muito forte por parte do comércio, a Justiça tombou e deu no que deu. A gente não pode deixar isso acontecer. A responsabilidade do prefeito Wladimir é muito grande. Nós sempre vamos ouvir a ciência, ouvir o que a medicina está nos mandando fazer.

 

Comércio x mortes – Eu prefiro ter embate com pessoas vivas, com comerciantes que, com toda a razão, estão reclamando, estão chateados e preocupados com essa situação, do que lidar com as mortes crescentes na região. E o pior: mortes que poderiam ser causadas por falta de assistência. A gente entende que a população de Campos já sofreu demais e eu dedico este dia histórico, onde nós vamos estar recebendo a vacina hoje (ontem) no aeroporto, às vítimas da Covid em Campos. Ontem (na segunda), eu fiz uma pergunta lá na reunião com os comerciantes à noite: “Alguém aqui já perdeu um ente querido de Covid?”. Então, a gente precisa ter muita calma nesta hora e entender que é um período curto. E assim que a coisa der uma normalizada, nós vamos estar aí, voltando às atividades de forma gradual, para que a população de Campos não sofra mais.

 

“Não deixar ninguém morrer por falta de assistência médica” – É importante mostrar também que muitos desses leitos (de UTI) que ficaram disponíveis na semana passada, isso se deu por morte, e não por alta hospitalar. Isso é muito triste. Nas últimas 72 horas, nós tivemos o registro de 13 mortes. Isso vai ser divulgado hoje (ontem) e eu estou dando aqui em primeira mão. Então, isso é uma situação muito crítica. Nós não podemos deixar ninguém morrer por falta de assistência médica. E isso é uma determinação do prefeito Wladimir. Nós estamos empenhados em resolver isso o mais rápido possível, ou pelo menos amenizar isso o mais rápido possível.

 

Pregação de desobediência civil pelo comércio aberto? – Nós hoje temos uma Vigilância Sanitária que é liderada pela dra. Vera Cardoso de Melo, uma pessoa de conhecimento amplo na sua área, é uma pessoa preparada, que nos últimos anos atuou na Copa do Mundo (2014) e nas Olimpíadas (2016) no Rio de Janeiro. Ela foi convidada para coordenar esses dois grandes eventos. Ela hoje é a nossa coordenadora de Vigilância Sanitária, que infelizmente estava desarrumada, não estava funcionando, a verdade é essa. E hoje nós temos a dra. Vera coordenando um grupo de 25 profissionais de nível superior e mais outros 20, de apoio, dando uma total, eu diria inicialmente orientação e, depois, assistência no sentido até punitivo a quem não cumprir o decreto. A nossa equipe vai estar na rua, nós pedimos apoio, inclusive, ao Ministério Público, porque o decreto tem que ser cumprido a rigor. A gente tem que entender que a chamada desobediência civil, além de negacionista, ela é até macabra, porque você está lidando com a vida e morte do ser humano.

 

Desgaste político para preservar vidas – A gente tem que entender que o prefeito Wladimir e nossa equipe, ninguém toma uma medida dessa sem total embasamento científico. Não há nenhum ato político, eu diria político até no sentido ruim da palavra. Porque há um desgaste claro na liderança do prefeito e nossa também, no sentido de que é um desgaste imenso a gente ter que fechar comércio. Mas não há nada mais importante que a preservação da vida. E a gente não pode aceitar em hipótese nenhuma que um residente do município de Campos fique sem assistência. Então, há a necessidade dessa parada. A Vigilância Sanitária vai atuar de forma bastante forte.

 

Comércio, ciência e decisão sem hesitação – Gostaria de destacar também que várias entidades de classe estiveram ontem (na segunda) na nossa reunião do comitê de crise, 9h da manhã, lá no Cesec, nós mostramos toda a situação, mostramos que não é um índice só, não é só ocupação de leito de UTI. São vários índices que, somados, eles nos dão em que fase nós deveremos entrar. Esse estudo é completamente alicerçado pela ciência, com oito parâmetros, entre número de internação, número de mortes, que vão sendo jogados numa fórmula científica que mostra qual fase nós devemos estar. Na semana passada, nós tivemos por duas vezes bicando ali, apontando a Fase Laranja, apontando lá, mas voltou um pouquinho. Mas a curva se mostrando crescente; é um gráfico onde essa curva estava crescente e já indo para Fase Vermelha, que é o que se encontra em Manaus hoje. Então repito: nós não poderíamos deixar chegar nesse ponto. A medida foi tomada neste sentido, para que a gente inverta essa curva e retorne à Fase Amarela o mais rápido possível. Essa curva veio crescendo, atingiu a Fase Laranja no domingo de manhã. E nós fomos imediatamente alertados por nossa equipe e o prefeito Wladimir não teve hesitação em nenhum momento em decretá-la. Mas a gente espera que essa Fase Laranja seja rápida, que ela não demore, para que a atividade do comércio, que é tão importante para a cidade, gera milhares e milhares de empregos, é a maior empregadora do município, que ela possa voltar o mais rápido possível.

 

Como faltam médicos se a folha da Saúde é uma das maiores do município? – Nós estamos aí com 18, 19 dias de governo. Porque foi no dia 4, na segunda-feira (primeira do ano), que a coisa realmente começou. A gente teve uma transição péssima, que foi incialmente dificultada pelo (ex-)prefeito Rafael (Diniz, Cidadania), que entendeu que deveria esperar o resultado do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nós tivemos um prejuízo aí de quase duas semanas. E quando de fato se abriu a transição, além de muito rápida, pelo tamanho e complexidade do município de Campos, nós tivemos muita dificuldade de acesso ao que a gente precisava. E uma dessas situações é a quantidade de médicos e onde eles atuam, onde eles estão trabalhando. Para se ter uma ideia, nós conseguimos isso na semana passada e eu estou articulando isso com o secretário de Saúde (Aldesir) Barreto, que infelizmente pegou Covid; o dr. Geraldo (Venâncio), por questão de saúde também não pode assumir (chegou a ser anunciado como secretário), o dr. Paulo Hirano (subsecretário) também não. Então, nós tivemos que trabalhar com essas pessoas, líderes da Saúde de Campos, de home-office, e buscando essa listagem de médicos do nosso município. Hoje ela está na nossa mão, nós estamos fazendo contato, nós temos cerca de 980 médicos concursados na ativa. Isso não é pouco médico, é bastante médico, e nós estamos em contato com vários deles para montar essas equipes no CCC. São 10 novos leitos que o prefeito Wladimir conseguiu, cedidos pela Prefeitura de Duque de Caxias; nós conseguimos esses leitos na sexta-feira (15) à tarde, onde teve o ok lá do prefeito Washington Reis (MDB), e no sábado (16), pela manhã, esses leitos já estavam montados, todos com respiradores, com equipamentos novos, para UTI. E eu acredito que até amanhã (hoje), no máximo quinta-feira (amanhã, 21), nós vamos estar com esses leitos abertos. Porque eles estão montados, faltam as equipes médicas. Eu sei que a linha de frente não é fácil, o desgaste físico e emocional é terrível desses profissionais. Mas fazemos um apelo à classe médica de Campos, para que nos ajude a formar essas equipes, para que a gente consiga atender essa população, sobretudo a população carente. Eu diria que seria até triste para Campos se a gente tivesse que trazer médico de fora, mas não é uma opção descartada. Uma das situações para a gente sair da Fase Laranja é a abertura desses leitos.

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Confira nos três blocos abaixo, a íntegra em vídeo da entrevista de Frederico Paes ao Folha no Ar:

 

 

 

 

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Este post tem um comentário

  1. Excelente atitude… coragem e responsabilidade lideranças positivas

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