Opiniões

Culpado pela gravidade da Covid no Brasil, fora Bolsonaro, para quê?

Dois mestres do jornalismo brasileiro, Zuenir Ventura e Elio Gaspari hoje publicaram artigos, no jornal O Globo, que se complementam. Ambos tratam da grave crise no Brasil gerada pela pandemia da Covid-19 e pela absoluta incompetência do presidente Jair Bolsonaro (em partido) em lidar com ela.

No primeiro artigo, Zuenir não tem dúvida ao afirmar que “o responsável” pela gravidade da crise da Covid no Brasil “é o presidente Jair Bolsonaro” (sem partido). Que enfrentou no último final de semana manifestações de rua (confira aqui) por seu impeachment “em 18 capitais” do país, reflexo direto do derretimento (confira aqui) da sua popularidade. Também registrado no texto do Gaspari, esse enfraquecimento é visto com pragmatismo: “O ‘Fora Bolsonaro’ exige um apenso: ‘Para quê?’”.

Confira abaixo os dois textos necessários:

 

(Foto: Pablo Jacob – Agência O Globo)

 

Zuenir Ventura, jornalista e escritor

A crise e o culpado

Por Zuenir Ventura

 

Pouco antes de o procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitar ao STF — e conseguir — a abertura de inquérito para apurar a conduta de Eduardo Pazuello durante a crise da saúde no Amazonas, o próprio ministro da Saúde embarcava para Manaus para “ficar o tempo que for necessário”, sem previsão de “voo de volta”.

Enquanto isso, movimentos de direita e esquerda saíam às ruas de 18 capitais, apoiando a vacinação e pedindo o impeachment de Bolsonaro, que respondeu com ironia: “Vi uma carreata monstro de uns dez carros”. Na verdade, ele viu mal. Em São Paulo, a fila de carros na Avenida Paulista era de perder de vista e, no Rio, a carreata formava uma fila de quatro quilômetros de automóveis, motos e bicicletas.

Os protestos aconteceram num momento desfavorável para Bolsonaro, em que a sua popularidade está em queda. Duas recentes pesquisas do Datafolha justificam o mau humor que atrapalhou sua visão. Uma aponta o aumento dos descontentes: 40% da população avaliam sua atuação como ruim ou péssima, ao contrário dos 32% da edição anterior da sondagem, no começo de dezembro.

Outra indica que 46% acham que João Doria fez mais contra a pandemia que Bolsonaro. Aliás, o principal inimigo político de Bolsonaro soube faturar a aprovação do uso emergencial da CoronaVac, a vacina que ele sempre defendeu, e Bolsonaro rejeitou, pelo menos até a embaixada chinesa informar que estava enviando os 5.400 litros de insumos.

Quanto a Pazuello, espera-se que nessa sua volta a Manaus ele não tenha levado para distribuir a hidroxicloroquina, o famoso medicamento ineficaz que Bolsonaro costuma receitar. Quem melhor desvendou o seu papel na trama foi Merval Pereira, ao revelar que ele tem tudo para ser o “bode expiatório”.

Pressionado pelos procuradores para tomar alguma providência, Augusto Aras tratou de proteger quem o protegeu. É claro que o general Eduardo Pazuello tem culpa. Mas o responsável é quem o escolheu e o mantém num cargo para o qual não tem a menor condição de ocupar. É o presidente Jair Bolsonaro.

 

Protesto da direita contra Bolsonaro, realizado pelos movimentos MBL e Vem Pra Rua no último domingo (24), nas ruas de São Paulo (Foto: Fábio Vieira – Metrópoles)

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Fora Bolsonaro, para quê?

Por Elio Gaspari

 

Por estranho que pareça, o grito de guerra “Fora Bolsonaro” é falta de agenda, como era falta de agenda o “Fora Temer”. O governo do capitão é desastroso no varejo e no atacado. Diante de uma pandemia, todas as suas ideias e iniciativas estavam erradas. Sua “nova política” aninhou-se no Centrão, o Brasil virou um pária. A tragédia do Amazonas mostrou que o pelotão palaciano gosta de ficar zangado; com João Doria, com a Pfizer, com a China e com quem disser que eles não sabem trabalhar. Mesmo assim, o capitão chegou ao Planalto pela vontade de 57,8 milhões de eleitores, e a Constituição diz que pode ficar lá até o dia 1º de janeiro de 2023.

O grito de “Fora Bolsonaro” é falta de agenda porque não tem base nem propósito. Não tem base parlamentar, e isso foi informado pela senadora Simone Tebet. Não tem base popular porque 28% dos entrevistados pelo Datafolha ainda acham que ele está fazendo o certo no combate à Covid. Sua popularidade está derretendo. O capitão é rejeitado por 40%, mas ainda tem o apoio de 31%. Admitindo que a velocidade desse desgaste prossiga, em um mês ele ainda terá 25% de admiradores.

No mundo dos sonhos de quem grita “Fora Bolsonaro”, se ele for embora, as coisas melhoram. Se isso acontecer, para a cadeira vai o general Hamilton Mourão. Ele é um vice singular. Nada tem a ver com seus antecessores que foram catapultados à cadeira de presidente. Michel Temer e Itamar Franco tinham identidades políticas. Mourão é apenas vinho da mesma pipa da safra de 2018. Foi escolhido numa reunião matutina porque o príncipe de Orleans e Bragança achou que ainda se vivia no Império. Itamar fez discretos acenos à oposição. Temer chegou a anunciar um plano de governo. Para o bem ou para o mal, o general tem sido um fiel comandado do capitão.

Itamar e Temer mudaram o curso das administrações de Fernando Collor e de Dilma Rousseff. Ganha uma fritada de morcego do mercado de Wuhan quem for capaz de desenhar mudanças possíveis com Mourão.

Admita-se que elas podem acontecer. Aconteceram em 1946, quando elegeu-se presidente o general germanófilo Eurico Dutra, um marquês da ditadura de Getúlio Vargas. Em primeiro lugar, Dutra elegeu-se. Além disso, empalmou a essência da plataforma da oposição democrática. Se o “Fora Bolsonaro” tivesse propostas além do “Fora”, o grito de guerra teria um conteúdo. Não só ele lhe falta, como a oposição ao presidente ainda não tem propósito. Olhando para o fim da ditadura, vê-se que Tancredo Neves encarnava uma proposta.

Bolsonaro meteu o andar de cima e suas Forças Armadas na ruína que hoje está personificada no general Eduardo Pazuello. Ele foi para o lugar de Luiz Henrique Mandetta, que tinha um plano, e de Nelson Teich, que não cumpria ordens de leigos. A pandemia era uma “gripezinha”, que em dezembro estava no “finalzinho”, pois a segunda onda era uma “conversinha”.

O capitão ainda tem quase dois anos de mandato, e sua capacidade de produzir crises desnecessárias é infinita. Como disse o senador Tasso Jereissati, será preciso “trincar os dentes” para atravessá-los. O “Fora Bolsonaro” exige um apenso: “Para quê?”.

Pelo andar da carruagem, essa pergunta precisa entrar na agenda. Ela poderá ser respondida no ano que vem.

 

Artigos publicados hoje aqui e aqui em O Globo

 

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