Covid, comércio e crise com presidente da Acic no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda (25), quem abre a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o empresário Leonardo Castro de Abreu, presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic). Ele falará sobre a decisão do poder público municipal de fechar o comércio (confira aqui) para tentar conter o crescimento da Covid-19 em Campos, sobre a reação contrária dos comerciantes (confira aqui) que pressionou pela reabertura do setor (confira aqui) anunciado para esta segunda.

O presidente da Acic também falará sobre as consequências econômicas da pandemia para o setor produtivo. E analisará a crise financeira de Campos (confira a série da Folha sobre o tema, em 11 painéis publicados entre junho e setembro de 2020, aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui) e os primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Datafolha: Bolsonaro sangra na popularidade e cresce na rejeição

 

(Foto:Marcos Corrêa – Presidência da República)

 

A “gripezinha” fez a popularidade de Jair Bolsonaro (sem partido) espirrar. Segundo a Datafolha feita na quarta (20) e na quinta (21), e divulgada na sexta (22), em meio ao agravamento da crise da Covid-19 no país, que contabiliza 215.249 mortos pela doença, o presidente brasileiro perdeu aprovação: caiu dos 37% da última pesquisa do instituto, para os atuais 31% de bom e ótimo. E cresceu ainda mais sua rejeição, passando de 32% para os atuais 40%. que julgam seu governo ruim ou péssimo.

É uma sangria consistente na popularidade do capitão. Com esses números, se as eleições presidenciais de 2022 fossem hoje, ele provelmente estaria no segundo turno, mas lá poderia ter dificuldades para conseguir outros quatro anos de mandato. Sobretudo se seu adversário final, desta vez, não vier do PT. Mas como as urnas ainda estão a um ano e nove meses de distância, qualquer aposta agora é mero exercício de futurologia.

Aos que pedem o impeachment, a pesquisa não mostra um quadro animador. Mantendo seus resilientes 30% de aprovação, Bolsonaro também se mantém 20 pontos percentuais distante da linha dos 10% ou menos de popularidade que abreviaram os mandatos presidenciais de Fernando Collor de Mello (hoje, Pros) e Dilma Rousseff (PT). Ademais, 53% da população são contra o impeachment, com a minoria relevante de 42% a favor.

O eleitor mais resiliente de Bolsonaro também fica bem definido pela Datafolha. Que fornece o retrato falado do tio do WhatsApp: homem de 49 a 55 anos, evangélico e empresário. Em queda livre no Norte, após a catástrofe da Covid em Manaus, Bolsonaro também volta à normalidade refratária a ele no Nordeste, após o fim do coronavaucher. E começa a sangrar também em seu antigo bastião do Centro-Oeste. Vai mal no populoso Sudeste e bem melhor no Sul.

 

Confira aqui a matéria da Folha de São Paulo sobre a nova pesquisa Datafolha.

 

Crônica — Covid, comércio, Eichmann e a copa das árvores

 

Covid, comércio, Eichmann e a copa das árvores

 

Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS na Alemanha Nazista e arquiteto da Solução Final, que na II Guerra matou 6 milhões de pessoas em câmaras de gás e queimou seus corpos em fornos

— É o mundo real, percebe? A Covid impôs a realidade ao mundo! — sentenciou Aníbal na varanda do seu apartamento à tarde, diante da tela do lap top aberto, antes de secar pela metade o copo em um gole longo de Original gelada. Combinou a cerveja real no encontro virtual com o amigo, por conta do novo fechamento dos bares e comércio de Campos, enquanto lá fora a copa das árvores balançava com o vento, tão invisível e real quanto o vírus.

— Está falando de quê? Da pandemia? De Campos e seu comércio, do Brasil de Bolsonaro, dos Estados Unidos de Trump a Biden? — indagou Luiz, estampado na tela do computador do amigo, lambendo do lábio superior o bigode de espuma deixado por sua tulipa de Heineken, na sala do próprio apartamento.

— Estou falando de tudo. Literalmente tudo. E estou só no primeiro copo de cerveja.

— Tudo é muita coisa. E falar de tudo é correr o risco de não falar de nada.

— Como diria Jack the Ripper, vamos por partes. Campos e seus comerciantes, por exemplo. Com o governo Wladimir, entraram o Chabell Kury e o Rodrigo Carneiro no lugar da Andreya Moreira, que comandou o combate à Covid no governo Rafael. A que saiu e os dois que entraram são três médicos infectologistas da mais alta qualidade. Com os quais Campos tem a sorte por ter formado e agora contar.

— E do outro lado tem comerciantes brigando para sobreviver.

— Perfeito. Embora quase todos abracem a neurose anticomunista de Bolsonaro e Trump, sem nunca terem lido Marx ou Górki, para se descobrirem pequeno-burgueses diante do espelho. E se legitimarem no conceito da luta de classes do primeiro. São os anticomunistas de WhatsApp. Como foram antes deles os marxistas de axila, aqueles que botavam o grosso “O Capital” embaixo do braço, mas nunca leram nem o fininho “O Manifesto do Partido Comunista”, para sair gritando palavras de ordem.

— Como diria Lula: “menas”, Aníbal. Não precisava nem puxar do fundo do baú o filósofo barbudo judeu alemão, ou o grande romanista russo. Com Russo no nome, é só lembrar do poeta do rock brasileiro dos anos 80. Não precisa nem gastar todos os nove minutos de “Faroeste Caboclo” para cantarolar ao comércio de Campos e promovê-los de tamanho: “E a alta burguesia da cidade/ Não acreditou na história que eles viram na TV”.

— Não dá para ser raso, Luiz. Renato não era. Tanto que o “Russo” que adotou foi em homenagem a Jean-Jacques Rosseau e Bertrand Russel. Do Planalto Central onde a Legião foi parida à planície goitacá, acho que o fechamento do Piccadilly foi um marco que assustou muito o comércio. Se um restaurante e bar com 30 anos de tradição fechou as portas físicas, o que podem esperar os demais comerciantes da cidade?

— O problema é que, em Campos, no Brasil e no mundo, todo o comércio está na banguela. Não é uma coisa só daqui. Nem as mortes da Covid, com gente caindo como moscas em toda a parte para o vírus.

— Para ficar no nosso canavial, o problema é que a rede de saúde de Campos já está colapsando pela Covid. Desde terça e quinta da semana passada, onde as vagas de UTI chegaram aos 100% de ocupação. E desta vez, diferente do que foi no lockdown parcial de Rafael entre maio e junho, o problema maior agora está na rede privada. Que atende quem tem plano de saúde, como os comerciantes. Quando um deles precisar e não conseguir vaga para internação em UTI, e não precisa nem ser para Covid, mas tiver que mendigar na rede pública um leito para sofrer menos e tentar sair vivo, aí talvez a ficha caia.

 

Paciente com Covid sendo entubado nessa sexta (22) no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus de Campos (CCC)

 

— Ou talvez não caia nunca. Sem nenhuma empatia pelo sofrimento do semelhante, provavelmente sociopatas, Trump e Bolsonaro abriram a caixa de Pandora. Depois deles, as pessoas que sempre esconderam seu pior lado, não só perderam a vergonha de mostrá-lo. Agora elas têm orgulho. Literalmente, não usam máscara.

 

Jair Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Alan Santos – PR)

 

— Sim, é o orgulho de ser filho da puta. O que não sei é se essas pessoas ficaram assim por conta de Bolsonaro e Trump, ou se sempre foram e só escondiam bem. Essa distorção cognitiva coletiva aparece na humanidade de tempos em tempos. É o conceito que a Hannah Arendt, judia alemã como Marx, chamou de “banalidade do mal”. Ela escreveu após assistir em Jerusalém ao julgamento de Adolf Eichmann, arquiteto da Solução Final para os judeus e outros “inimigos” da Alemanha Nazista, que exterminou 6 milhões deles em câmaras de gás e queimou seus corpos em fornos durante a II Guerra Mundial.

— E por conta disso o Mossad foi catar o Eichmann em Buenos Aires, em 1961, 16 anos após o suicídio de Hitler e a rendição da Alemanha. “Anjo da Morte” do campo de concentração de Auschwitz, o Josef Mengele nunca conseguiram pegar. Acabaria morrendo afogado no Brasil, nadando na praia paulista de Bertioga, só em 1979.

— Exato. Mas Mengele não foi exposto aos olhos do mundo como Eichmann. Que chocou ao ser revelado como homem de cinquenta e tantos anos, careca, com óculos e aspecto insignificante. Impressionou o tal mundo real por não ter pés de cabra, rabo pontudo, cornos de carneiro montês na testa, língua bifurcada de serpente ou tridente na mão.

 

Adolf Eichmann em 1961, após ser sequestrado pelo Mossad em Buenos Aires para ser julgado em Jerusalém e condenado à morte por enforcamento

 

— Verdade. Parecia só mais um sujeitinho medíocre, absolutamente normal, sem nada que chamasse a atenção. Como qualquer tio do WhatsApp de hoje — disse Luiz, enquanto um calafrio lhe subia pela espinha, na direção inversa à do outro gole da sua Heineken gelada.

— Como é que a Arendt definiu mesmo em seu “Eichmann em Jerusalém”? Peraí… — pediu Aníbal, até encontrar no pai dos burros do São Google e ler ao amigo de volta à tela do seu lap top: “Os membros fanatizados são intangíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parecem ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte”.

— E o que dizer desses canalhas que fizeram campanha contra a “vacina chinesa” contra a “doença chinesa”, ecoando Bolsonaro, mas furaram a fila dos idosos e dos profissionais da saúde da linha de frente, na primeira etapa da vacinação com a CoronaVac?

— É dizer que o Rosseau de Renato Russo, Marx e o Cristo podem estar errados. Que o homem não é bom por natureza. E que ser filho da puta talvez seja a sua essência.

— Então Biden e seu discurso de união e valores humanos, na direção contrária, vão dar com os burros n’água?

— Espero sinceramente que não. Mas é como disse o ex-presidente conservador George W. Bush, que prestigiou a posse de Biden: “O futuro é algo que veremos amanhã” — citou Aníbal sem recorrer ao Google, matando a Original do copo antes de enchê-lo novamente, atento ao barulho do vento sobre as folhas na copa das árvores.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

Covid, comércio, vacinação e polêmicas no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (22), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico infectologista Rodrigo Carneiro, diretor de Atenção Básica de Saúde do governo Wladimir Garotinho (PSD). Ele falará sobre a decisão do poder público municipal de fechar o comércio (confira aqui e aqui), para tentar conter o avanço da Covid em Campos, e das reações geradas (confira aqui).

Rodrigo falará também da chegada do primeiro lote de vacinas contra a doença à cidade (confira aqui), do início do processo de imunização (confira aqui) e de outras polêmicas dela geradas (confira aqui) entre os próprios profissionais de saúde. E analisará o que mudou e o que o campista pode esperar do combate à pandemia com o novo governo municipal.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Após ameaçar EUA de Biden com pólvora, Bolsonaro arrega em carta

 

 

Após ameaçar com “pólvora” os EUA de Biden já eleito presidente (relembre aqui), cuja vitória só reconheceu 38 dias após sua confirmação oficial, tudo por conta de ameaças de sanções comerciais ao Brasil pelas queimadas criminosas da Amazônia, Jair Bolsonaro hoje arregou. E mandou ao novo ocupante da Casa Branca uma carta. Nela, pasme você, meu amigo machão deste “país de maricas”, o capitão disse:

— Estamos prontos, ademais, a continuar nossa parceria em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção do meio ambiente, em especial a Amazônia, com base em nosso Diálogo Ambiental, recém-inaugurado. Noto, a propósito, que o Brasil demonstrou compromisso com o Acordo de Paris com a apresentação de suas novas metas nacionais.

Por sua vez, quando ainda disputava uma vaga nas primárias democratas para ser candidato a presidente contra Donald Trump, Biden afirmou em março de 2020, em entrevista ao site America Quarterly:

— O presidente Bolsonaro deve saber que se o Brasil deixar de ser um guardião responsável da Floresta Amazônica, minha administração reunirá o mundo para garantir que o meio ambiente seja protegido.

Com Biden hoje no primeiro dia dessa mesma administração, Bolsonaro lembrou aquele “valente” de bar, que fala o que quer a outro cliente e escuta o que não quer. Levanta-se da mesa simulando braveza e, só após ser seguro por outra pessoa, passa a bradar, estufando o peito como pombo:

— Me solta! Me solta! Agora é na porrada! Agora é na porraaadaaa!!!!

Mas, ao ser atendido e solto, suplica no ouvido de quem o soltou:

— Pô, pelo amor de Deus! Me segura aí, taôkey?

 

(Foto: Adriano Machado – Reuters)

 

Wladimir, Covid, Bolsonaro e posse de Biden no Folha no Ar desta 5ª

 

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (21), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF-Guarus. Ele analisará os primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos e o combate à pandemia da Covid-19 no Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido) e da posse hoje (confira aqui) de Joe Biden como presidente dos EUA, em uma Washington sitiada por 25 mil soldados da Guarda Nacional, após a invasão do Capitólio por radicais trumpistas (relembre aqui) no último dia 6.

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Covid e comércio por Frederico Paes: “Para Campos não virar Manaus”

 

No início da manhã de ontem (confira aqui), no aeroporto Bartolomeu Lisandro, enquanto esperava o primeiro lote de vacinas contra a Covid para Campos, o vice-prefeito Frederico Paes (MDB) falou ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, não só sobre a chegada da Coronavac, mas dos motivos que levaram o município a retroagir, também ontem, à Fase Laranja, com fechamento de todo o comércio considerado não essencial. Ele falou das reuniões que teve com representantes do setor, na manhã e na noite de segunda, para passar a decisão tomada “sem hesitação” pelo prefeito Wladimir Garotinho (PSD) no domingo, a partir do trabalho científico coordenado pelo médico infectologista e epidemiologista Charbell Kury, subsecretário de Atenção Básica e Vigilância Sanitária. E revelou que Campos, na terça e quinta da semana passada, chegou a ter quase 100% de ocupação dos seus leitos de UTI reservados aos doentes de Covid. Para orientar e fiscalizar o novo decreto, o poder público municipal conta com a Vigilância Sanitária, sob comando da médica veterinária Vera Cardoso de Melo. A alternativa ao seu descumprimento, alertou Frederico, “é Campos virar Manaus”. E ter pessoas mortas na cidade por sofrimento extremo e sem assistência médica. “A gente não pode deixar isso acontecer”, garantiu.

 

Frederico Paes, vice-prefeito de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Vacina contra Covid a Campos e região – Ontem (segunda, 18) nós fomos até surpreendidos. Já eram mais de 22h, quando nós tivemos a notícia que as vacinas estariam chegando (ontem, 19) à região. A gente está muito feliz, lógico, mas essa logística (nacional de distribuição) foi até improvisada. Mas que seja improvisada, desde que vacina chegue à população, ela é bem-vinda. Realmente houve uma antecipação, o governador (João) Doria (PSDB), de São Paulo, que antecipou (fez a primeira vacinação no Brasil no domingo, 17) e isso forçou o governo federal a antecipar o seu calendário em um dia, as vacinas estavam previamente agendadas para o dia de amanhã (hoje, 20). Nós estamos aqui no aeroporto Bartolomeu Lisandro, com uma movimentação muito grande. Porque, na verdade, não é só Campos que está recebendo as vacinas, são cinco município da região (também São João da Barra, São Francisco de Itabapoana, Cardoso Moreira e São Fidélis). É um dia histórico para a nossa população, que vem sofrendo muito com a questão dessa doença, dessa maldita doença. E aqui, neste dia, a gente traz esperança às pessoas, a esperança em dias melhores. Nós vamos nos empenhar ao máximo para que a vacina chegue o mais rápido possível às pessoas.

 

Para não virar Manaus – Nós sempre dissemos, desde o início do governo, que nós iríamos seguir a ciência. Por mais que a gente entenda a problemática do comércio, inclusive ontem (segunda) na reunião com os comerciantes, de manhã, no Cesec, e à noite com o pessoal de shopping, eu fico bastante à vontade, porque eu sou do meio produtivo. Então, eu sei o quanto é duro para o comerciante fechar o seu estabelecimento, com contas a pagar, com salários a pagar. Nós entendemos, mas sempre dissemos que iríamos seguir a ciência. E essa análise dos nossos médicos, da nossa equipe toda da Saúde, com o acompanhamento de curva (do aumento de número de casos, internações e mortes), nós não poderíamos deixar acontecer o que aconteceu em Manaus.

 

Sistema perto do colapso — Na semana passada nós tivemos dois dias (12 e 14) de extrema tensão, onde nós tivemos praticamente 100% dos leitos de UTI para Covid preenchidos. Foram dias muito difíceis, não só para nós, mas principalmente para as equipes médicas que estão lá na linha de frente. E nos foi passado que, se nós não tomássemos essas medidas, medidas duras e que a gente fica até triste de ter que tomar, porque a gente não esperava isso na nossa cidade, mas se a gente não tomasse, nós teríamos na semana que vem um colapso do sistema de saúde em Campos. É importante destacar que os hospitais particulares, os hospitais que atendem plano de saúde, eles estão praticamente lotados. Quando esses hospitais lotam, eles passam também a utilizar o serviço público de Saúde. Foram picos. E é importante destacar que isso não é uma foto, é um filme, que de manhã, por exemplo, você está com 90% de lotação, ou com 95%, e à tarde, se alguém entrar no sistema, vai ver que está com 80%. Então, a gente não poderia deixar a população de Campos correr esse risco.

 

“Freio de arrumação” – Todos os estudos, dr. Charbell (Kury), que é um grande estudioso, com outros médicos que estão na nossa equipe, mostraram a necessidade desse freio de arrumação. Para que por uma semana a gente evite a circulação de pessoas, a gente consiga frear essa doença, para que na outra semana a gente tenha uma normalidade e possa voltar à Fase Amarela.

 

Dificuldade de equipe médica – É importante destacar também que os 10 leitos (de UTI, para o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus em Campos, o CCC) que a gente conseguiu no final de semana, nós ainda não estamos com eles abertos. Eles estão lá instalados, mas nós estamos tendo uma dificuldade enorme de equipe médica. E eu não faço aqui nenhuma crítica aos médicos. Porque é um trabalho, é uma situação muito difícil, em que eles estão há 10 meses trabalhando na linha de frente. E nós, provavelmente, vamos ter que trazer gente de fora do município de Campos para fazer esses leitos funcionarem.

 

“Repito: para não virar Manaus” – Dando uma parada (no comércio e na circulação de pessoas) esta semana, provavelmente abrindo os 10 novos leitos, que vão estar funcionando na medida que nós tivermos médicos lá para atender. Então, nós vamos conseguir estabilizar a situação do nosso município, dar segurança à nossa população para, repito: para não acontecer o que aconteceu em Manaus. Lá se tentou parar a cidade, houve uma reação muito forte por parte do comércio, a Justiça tombou e deu no que deu. A gente não pode deixar isso acontecer. A responsabilidade do prefeito Wladimir é muito grande. Nós sempre vamos ouvir a ciência, ouvir o que a medicina está nos mandando fazer.

 

Comércio x mortes – Eu prefiro ter embate com pessoas vivas, com comerciantes que, com toda a razão, estão reclamando, estão chateados e preocupados com essa situação, do que lidar com as mortes crescentes na região. E o pior: mortes que poderiam ser causadas por falta de assistência. A gente entende que a população de Campos já sofreu demais e eu dedico este dia histórico, onde nós vamos estar recebendo a vacina hoje (ontem) no aeroporto, às vítimas da Covid em Campos. Ontem (na segunda), eu fiz uma pergunta lá na reunião com os comerciantes à noite: “Alguém aqui já perdeu um ente querido de Covid?”. Então, a gente precisa ter muita calma nesta hora e entender que é um período curto. E assim que a coisa der uma normalizada, nós vamos estar aí, voltando às atividades de forma gradual, para que a população de Campos não sofra mais.

 

“Não deixar ninguém morrer por falta de assistência médica” – É importante mostrar também que muitos desses leitos (de UTI) que ficaram disponíveis na semana passada, isso se deu por morte, e não por alta hospitalar. Isso é muito triste. Nas últimas 72 horas, nós tivemos o registro de 13 mortes. Isso vai ser divulgado hoje (ontem) e eu estou dando aqui em primeira mão. Então, isso é uma situação muito crítica. Nós não podemos deixar ninguém morrer por falta de assistência médica. E isso é uma determinação do prefeito Wladimir. Nós estamos empenhados em resolver isso o mais rápido possível, ou pelo menos amenizar isso o mais rápido possível.

 

Pregação de desobediência civil pelo comércio aberto? – Nós hoje temos uma Vigilância Sanitária que é liderada pela dra. Vera Cardoso de Melo, uma pessoa de conhecimento amplo na sua área, é uma pessoa preparada, que nos últimos anos atuou na Copa do Mundo (2014) e nas Olimpíadas (2016) no Rio de Janeiro. Ela foi convidada para coordenar esses dois grandes eventos. Ela hoje é a nossa coordenadora de Vigilância Sanitária, que infelizmente estava desarrumada, não estava funcionando, a verdade é essa. E hoje nós temos a dra. Vera coordenando um grupo de 25 profissionais de nível superior e mais outros 20, de apoio, dando uma total, eu diria inicialmente orientação e, depois, assistência no sentido até punitivo a quem não cumprir o decreto. A nossa equipe vai estar na rua, nós pedimos apoio, inclusive, ao Ministério Público, porque o decreto tem que ser cumprido a rigor. A gente tem que entender que a chamada desobediência civil, além de negacionista, ela é até macabra, porque você está lidando com a vida e morte do ser humano.

 

Desgaste político para preservar vidas – A gente tem que entender que o prefeito Wladimir e nossa equipe, ninguém toma uma medida dessa sem total embasamento científico. Não há nenhum ato político, eu diria político até no sentido ruim da palavra. Porque há um desgaste claro na liderança do prefeito e nossa também, no sentido de que é um desgaste imenso a gente ter que fechar comércio. Mas não há nada mais importante que a preservação da vida. E a gente não pode aceitar em hipótese nenhuma que um residente do município de Campos fique sem assistência. Então, há a necessidade dessa parada. A Vigilância Sanitária vai atuar de forma bastante forte.

 

Comércio, ciência e decisão sem hesitação – Gostaria de destacar também que várias entidades de classe estiveram ontem (na segunda) na nossa reunião do comitê de crise, 9h da manhã, lá no Cesec, nós mostramos toda a situação, mostramos que não é um índice só, não é só ocupação de leito de UTI. São vários índices que, somados, eles nos dão em que fase nós deveremos entrar. Esse estudo é completamente alicerçado pela ciência, com oito parâmetros, entre número de internação, número de mortes, que vão sendo jogados numa fórmula científica que mostra qual fase nós devemos estar. Na semana passada, nós tivemos por duas vezes bicando ali, apontando a Fase Laranja, apontando lá, mas voltou um pouquinho. Mas a curva se mostrando crescente; é um gráfico onde essa curva estava crescente e já indo para Fase Vermelha, que é o que se encontra em Manaus hoje. Então repito: nós não poderíamos deixar chegar nesse ponto. A medida foi tomada neste sentido, para que a gente inverta essa curva e retorne à Fase Amarela o mais rápido possível. Essa curva veio crescendo, atingiu a Fase Laranja no domingo de manhã. E nós fomos imediatamente alertados por nossa equipe e o prefeito Wladimir não teve hesitação em nenhum momento em decretá-la. Mas a gente espera que essa Fase Laranja seja rápida, que ela não demore, para que a atividade do comércio, que é tão importante para a cidade, gera milhares e milhares de empregos, é a maior empregadora do município, que ela possa voltar o mais rápido possível.

 

Como faltam médicos se a folha da Saúde é uma das maiores do município? – Nós estamos aí com 18, 19 dias de governo. Porque foi no dia 4, na segunda-feira (primeira do ano), que a coisa realmente começou. A gente teve uma transição péssima, que foi incialmente dificultada pelo (ex-)prefeito Rafael (Diniz, Cidadania), que entendeu que deveria esperar o resultado do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e nós tivemos um prejuízo aí de quase duas semanas. E quando de fato se abriu a transição, além de muito rápida, pelo tamanho e complexidade do município de Campos, nós tivemos muita dificuldade de acesso ao que a gente precisava. E uma dessas situações é a quantidade de médicos e onde eles atuam, onde eles estão trabalhando. Para se ter uma ideia, nós conseguimos isso na semana passada e eu estou articulando isso com o secretário de Saúde (Aldesir) Barreto, que infelizmente pegou Covid; o dr. Geraldo (Venâncio), por questão de saúde também não pode assumir (chegou a ser anunciado como secretário), o dr. Paulo Hirano (subsecretário) também não. Então, nós tivemos que trabalhar com essas pessoas, líderes da Saúde de Campos, de home-office, e buscando essa listagem de médicos do nosso município. Hoje ela está na nossa mão, nós estamos fazendo contato, nós temos cerca de 980 médicos concursados na ativa. Isso não é pouco médico, é bastante médico, e nós estamos em contato com vários deles para montar essas equipes no CCC. São 10 novos leitos que o prefeito Wladimir conseguiu, cedidos pela Prefeitura de Duque de Caxias; nós conseguimos esses leitos na sexta-feira (15) à tarde, onde teve o ok lá do prefeito Washington Reis (MDB), e no sábado (16), pela manhã, esses leitos já estavam montados, todos com respiradores, com equipamentos novos, para UTI. E eu acredito que até amanhã (hoje), no máximo quinta-feira (amanhã, 21), nós vamos estar com esses leitos abertos. Porque eles estão montados, faltam as equipes médicas. Eu sei que a linha de frente não é fácil, o desgaste físico e emocional é terrível desses profissionais. Mas fazemos um apelo à classe médica de Campos, para que nos ajude a formar essas equipes, para que a gente consiga atender essa população, sobretudo a população carente. Eu diria que seria até triste para Campos se a gente tivesse que trazer médico de fora, mas não é uma opção descartada. Uma das situações para a gente sair da Fase Laranja é a abertura desses leitos.

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

Confira nos três blocos abaixo, a íntegra em vídeo da entrevista de Frederico Paes ao Folha no Ar:

 

 

 

 

Brasil e mundo após Biden e Kamala assumirem hoje os EUA

 

Joe Biden e Kamala Harris (Foto: Instagram)

 

Os EUA nunca mais serão os mesmos depois dos turbulentos quatro anos de Donald Trump na Casa Branca. Mas a mais longeva democracia do mundo começa a tentar conduzir hoje este mesmo mundo de volta à normalidade, assim que Joe Biden assumir como 46º presidente dos EUA. Cargo ao qual foi eleito (relembre aqui) nas urnas de 3 de novembro, com uma vitória incontestável: 306 a 232 votos do colégio eleitoral, com mais de 7 milhões de votos populares de vantagem. Sua posse e da vice Kamala Harris, primeira mulher, primeira negra e primeira descendente de asiáticos e caribenhos a assumir a vice-presidência do país, ocorrerá às 11h30 de Washington (13h30 de Brasília), sob um esquema de segurança nunca antes visto. No mesmo Capitólio invadido em 6 de janeiro (relembre aqui) pelos supremacistas brancos de Trump, incitados publicamente por este, causando cinco mortes. O fato, inédito em 232 anos de democracia, ainda não tem todas as suas consequências dimensionadas ou conhecidas. Certo é que passará à História. Dos EUA e do mundo — incluindo o Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido).

Além do emblemático ineditismo da diversidade de gênero e raça que levará à Casa Branca, Kamala Harris terá outro papel importante no governo Joe Biden. No sistema dos EUA, a presidência do Senado cabe ao vice-presidente. Depois que o segundo turno do estado da Geórgia, tradicionalmente conservador e republicano, elegeu (relembre aqui) dois senadores democratas, o placar ficou 50 a 50 na Câmara Alta dos EUA. Onde o voto de minerva caberá a Kamala, ex-senadora pelo estado da Califórnia. Com a maioria conquistada também na Câmara Federal, pela vitória eleitoral completa de Biden, este terá carta branca do Poder Legislativo para aprovar as reformas que quiser, pelo menos em seu primeiro biênio de governo.

Apesar de moderado em seus 47 anos de vida pública, as promessas de campanha de Biden foram ousadas: enfrentar a segunda onda da Covid onde ela tirou o maior número de vidas humanas no planeta Terra, revitalizar o Obama Care dilapidado por Trump em um país sem SUS, taxar as grandes fortunas para bancar a assistência social aos mais pobres e impor um salário mínimo aos EUA de US$ 15 por hora. E o experiente ex-senador e ex-vice-presidente nos oito anos do governo Barack Obama será tão cobrado para implementá-las agora à frente do país mais poderoso do mundo, quanto se elas não surtirem o efeito desejado.

 

Bolsonaro e Trump trocaram camisas personalizadas das seleções de futebol do Brasil e dos EUA, em visita à Casa Brancade 19 de março de 2020 (Foto: Kevin Lamarque – Reuters)

 

Foi também na campanha que o Brasil de Bolsonaro entrou na disputa presidencial dos EUA. No primeiro debate entre Trump e Biden, em 29 de setembro, o então candidato democrata condenou os incêndios criminosos na Amazônia, os maiores registrados na última década. E ameaçou adotar sanções comerciais, a exemplo do que é feito com párias internacionais como Irã, Coréia do Norte ou Venezuela, caso o governo brasileiro insista em não combater as queimadas. Só em 11 de novembro, 43 dias após aquele primeiro debate e já quatro dias após a confirmação oficial (confira aqui) da eleição de Biden, mas sem ainda admitir a derrota do seu “mito” Trump, Bolsonaro respondeu ao presidente dos EUA que assume hoje. E ameaçou (relembre aqui) a maior potência bélica do mundo com “pólvora”, gerando a humilhação internacional das Forças Armadas Brasileiras. Pela qual o capitão foi repreendido internamente pelos generais do seu governo.

 

Líderes da China, Xi Jinping; da Alemanha, Angela Merkel; da França, Emmanuel Macron, da Grã-Bretanha, Boris Johnson; e de Israel, Benjamin Netanyahu (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir de hoje, com Biden na Casa Branca, cessam os tiros de festim na relação geopolítica entre os EUA e o Brasil. Que, com Bolsonaro no poder e o olavista Ernesto Araújo no ministério das Relações Exteriores, já não era visto com bons olhos também pela China de Xi Jinping e a União Europeia da chanceler alemã Angela Merkel e do presidente francês Emmanuel Macron. A Trump e seus seguidores pelo mundo, não sobraram nem ex-aliados como os primeiros-ministros de Grã-Bretanha e de Israel, respectivamente Boris Johnson e Benjamin Netanyahu. Os dois condenaram com veemência a invasão do Capitólio, na Washington hoje sitiada por 25 mil soldados da Guarda Nacional dos EUA, para garantir a segurança da posse de Biden e Kamala. Enquanto Bolsonaro preferiu usar o episódio condenado pelo mundo como ameaça ao que pode acontecer no Brasil, na eleição presidencial de 2022.

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã