Com caos da Covid por mais duas semanas, não restrição é “assassinato”

 

Médica infectologista Andreya Moreira e o Boulevard de Campos ontem ainda com aglomeração (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Com muita tristeza, a gente está vendo esse momento. Colapsou não foi só em Campos, estamos vendo isso no Brasil inteiro. Já era previsto.  Lá em dezembro, a gente sabia que as festas de fim de ano iriam ser bastante importantes no número de pacientes que seriam infectados, entre os que precisariam de tratamento intensivo (UTI) de clínico. Mas as pessoas ignoraram isso literalmente. E estamos pagando o preço; um preço alto nas vidas ceifadas. E, apesar disso, as pessoas mantêm a não restrição. Isso é um assassinato!”. Sem meias palavras, a despeito do tom sempre polido, foi assim que a médica infectologista Andreya Moreira classificou na manhã de hoje o desdém da população às medidas de isolamento social. Que até ontem tinha tirado 843 vidas humanas por Covid só em Campos, entre os mais de 322 mil óbitos da pandemia no país, com o recorde assustador de 66.868 brasileiros mortos no mês de março. Chefe da Vigilância em Saúde no governo Rafael Diniz (Cidadania), quando o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos hoje colapsado (confira aqui) foi aberto em 30 de março de 2020, a médica foi a entrevistada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3.

— Aqui em Campos, especificamente, não tem o uso de máscara de modo 100%. As pessoas acham que as restrições não são necessárias. Até a doença chegar a um ente querido, a uma pessoa próxima, que se torna acometida, que precisa ficar internada e precisa de uma vaga na UTI. O resultado é este momento de caos, de colapso, em que as pessoas precisam entender o processo. A gente está falando nisso de entendimento há um ano. O que vai ser mais preciso para essas pessoas usarem a máscara, fazerem o distanciamento social e evitarem aglomeração? Quantas vidas a mais? — indagou Andreya à população campista, na rádio mais ouvida da cidade.

A infectologista, com base em estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), projetou pelo menos mais duas semanas muito difíceis da pandemia em Campos e no Brasil, antes do número de infecções e mortes parar de subir para alcançar o chamado platô e depois começar a decair, provavelmente só na segunda quinzena de abril. E, para tentar acelerar esse processo de contenção e queda, fez duas advertências. A primeira, que o lockdown apenas por uma semana não adianta. A segundo é que não faria sentido se fazerem exceções, abrindo só um ou outro setor, como reivindicam músicos (confira aqui), negacionistas bolsonaristas (confira aqui), professores de educação física (confira aqui) e o comércio (confira aqui) da cidade:

— Segundo uma análise da Fiocruz, da semana passada, eles falaram que as próximas três semanas iriam ser extremamente difíceis. E nós estamos na primeira dessas três semanas muito difíceis. Depois delas, provavelmente alcançaríamos o platô, para daí começar a cair. Até abril, a gente vai sofrer bastante, com certeza. Os primeiros 15 dias de abril serão de extremo sofrimento, de pessoas na fila por leito, de pessoas morrendo. E depois isso vai cair. As pessoas precisam entender que lockdown de cinco dias não adianta nada. Você precisa manter pelo menos 10 a 14 dias para ter uma resposta. E não é uma resposta imediata, é um pouco mais para frente. É extremamente necessário entender que as pessoas precisam se isolar, não podem se aglomerar. E não tem como fazer um lockdown restrito: “Ah, eu vou abrir tal setor, eu vou deixar o outro fechado”. A gente tem que fazer o completo.

Andreya citou como exemplo a experiência do primeiro lockdown em Campos por conta da Covid, entre 18 de maio (confira aqui) e 1º de junho (confira aqui), decretado quando comandava o enfrentamento à pandemia no município, no governo Rafael. E o fez eximindo o governo Wladimir Garotinho (PSD) de qualquer culpa pelo agravamento ainda maior, agora, da crise sanitária. A grande culpada, para a infectologista, é a própria população:

— No outro governo, a gente chegou a fazer um lockdown. E a gente chegou a alcançar no início 70% de adesão, com pessoas dentro de casa, com o trânsito diminuído. Mas em alguns dias isso já caiu para 50%, depois para 40%. Então você vê que a população não cooperou. O pouco que eles cooperaram, já teve uma sinalização muito positiva nos leitos. E a situação é ainda mais extrema agora. Há a necessidade de as pessoas ficarem em casa, não se aglomerarem. Abril vai ser muito difícil. A gente já vinha conversando sobre uma piora desde as eleições (de novembro). Daí tiveram as festas de final de ano de dezembro e depois, mesmo sem festa, o carnaval. Não culpo o governo (Wladimir), não tem culpa a Prefeitura, mas a população.

Mas se, mesmo pertencendo a um governo municipal de oposição, Andreya isentou a atual gestão municipal de Campos pelo quadro que classificou como “caos”, ela não fez o mesmo com o governo federal. Para ela, o maior culpado da situação calamitosa do Brasil na pandemia, do qual é hoje o principal epicentro mundial, é a desorganização da administração Jair Bolsonaro (sem partido). Tanto no desmonte de uma tradição de imunização que sempre foi referência para o mundo, como pelo nosso vergonhoso lugar na fila de trás da vacinação em relação a vários outros países, inclusive vizinhos da América do Sul:

— O governo (Bolsonaro) errou muito no programa de vacinação. A gente já era para estar, há mais de três meses, desde o início do ano, vacinando. Isso foi um erro, um erro grave. E por conta disso nós estamos pagando a consequência. O ministério da Saúde sempre foi uma bagunça em relação às estratégias de vacinação. E a gente sempre teve (antes do governo Bolsonaro) um programa de imunização entre os melhores do mundo. E isso foi atrapalhado por jogo de interesses políticos; atrapalhou muito! Porque as vacinas não chegavam e não chegam ainda. A cada momento era uma “aflição da Anvisa para liberar imunizante, que já estavam liberados anteriormente, e se sabia disso, nos Estados Unidos e na Europa. Até ontem, na percentagem imunização total das populações dos países, no 1º lugar está Israel, no 2º lugar o Chile (vizinho sul-americano do Brasil, que comprou boa parte das 70 milhões de doses de vacinas da Pfizer recusadas por Bolsonaro em agosto de 2020) e, no 3º lugar, os Estados Unidos. O Brasil está no 16º lugar, com apenas 2% da população totalmente imunizada. Isso não existe! A gente está em um país que não deu bola para a vacina.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista da médica infectologista Andreya Moreira ao Folha no Ar na manhã de hoje:

 

 

 

 

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