Opiniões

Cegueira da esquerda elegeu Bolsonaro; a da direita emerge Lula

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Renato Russo diria: “Ainda é cedo”. Afinal, as eleições presidenciais só se darão daqui a 17 meses, em outubro de 2022. Mas após a pesquisa Datafolha (confira aqui) divulgada na quarta (12), que deu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 41% x 23% Jair Bolsonaro (sem partido) no primeiro turno, placar alargado a 55% a 32% para o petista na projeção do segundo turno, já dá para ter certeza: as coisas nunca estiveram tão ruins ao capitão. A impressão foi consolidada com o complemento pela pesquisa Datafolha (confira aqui) divulgada na quinta (13), sobre avaliação de governo: 24% dos brasileiros acham o de Bolsonaro bom ou ótimo, contra os 45% que o consideram ruim ou péssimo. É a pior aprovação dos seus dois anos e cinco meses de mandato. E nem a CPI da Covid no Senado, nem nenhum indicador econômico, sinalizam que as coisas vão melhorar.

Especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu

— As recentes pesquisas devem tirar o sono do governo, mas os brasileiros também têm motivos para se preocupar. Desde que adentrou o Palácio do Planalto, pouquíssimas medidas econômicas prometidas pelo então candidato Bolsonaro saíram do papel. Após a aprovação da Reforma da Previdência, o presidente pouco se empenha ou, em certos casos, atua contra as reformas e as privatizações essenciais para o país. Agora, há um risco considerável de o governo partir para o populismo fiscal como forma de tentar aumentar sua popularidade. O resultado seria desastroso, com aumento da inflação e dos juros. Não há motivos para comemorar a ascensão de Lula. Noves fora os conhecidos escândalos de corrupção, o populismo fiscal foi a marca do governo Dilma, com claros objetivos eleitorais, mas em amplo alinhamento ideológico com as ideias econômicas do PT — analisou o especialista em finanças Igor Franco, professor do Uniflu.

Com os mesmos dois anos e cinco meses de governo que Bolsonaro tem hoje, apenas o ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje, Pros) teve avaliação pior dos brasileiros. Em maio de 1992, pesquisa Datafolha registrava que 68% dos brasileiros consideravam a administração Collor ruim ou péssima, enquanto apenas 9% a achavam boa ou ótima. Não por acaso, ele sofreria o impeachment em dezembro daquele mesmo 1992. Já ao final do primeiro ano do seu segundo mandato, era novembro de 2015, mês anterior à abertura do seu processo de impeachment, quando a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) teve pela Datafolha 67% de ruim ou péssimo, com bom e ótimo de 10%. Esta é margem histórica do impeachment para presidentes no Brasil. E o atual se mantém 14 pontos distante dela.

 

 

O inquilino do Palácio do Planalto vive, no entanto, um dilema. Acuado a cada novo depoimento da CPI da Covid, se vê obrigado a radicalizar o discurso para manter sua base de apoio e longe do impeachment. Ainda assim, vem derretendo seu apoio popular: caiu dos 37% da Datafolha de dezembro de 2020 aos 24% deste maio de 2021 — sangrando 13 pontos, ou 19 milhões de eleitores, em apenas cinco meses. Enquanto os líderes do Centrão que sustentam Bolsonaro no Congresso, onde seguram seus mais de 100 pedidos de impeachment, não tiveram constrangimento em se reunir com Lula em Brasília na semana passada. Tampouco se fizeram de rogados ao revelar a estratégia do ex-presidente para 2022: se apresentar como um político moderado de centro. E repetir sua fórmula vencedora em 2002 e 2006, sinalizando ao mercado com um empresário como vice.

 

Presidente dos EUA, Joe Biden (Foto: Jim Watson – AFP)

 

Cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos

— Os movimentos flutuantes da opinião pública de 2016 para cá devem ser compreendidos como a busca por um nome aglutinador, um “Biden” que atendesse, nem que fosse em patamares mínimos, determinadas conquistas civilizatórias que são caras aos progressistas. Mas, que não deixasse de cabelos em pé os setores dos “mercados” produtivo e financeiro. De Huck (sem partido) a Mandetta (DEM), diversos nomes têm sido apresentados nos últimos cinco anos. Lula em seu discurso em São Bernardo de março (confira aqui) se apresentou à opinião pública brasileira da seguinte maneira: “esse Biden sou eu”. Embora identificado pela opinião pública tradicional como organicamente vinculado aos setores de esquerda, o discurso de Lula foi uma carta de intenções nitidamente conciliatória. Parece que o resultado da Datafolha reflete esse fato político novo — comparou o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.

Ilustração de Vitor Flynn na capa do jornal francês Le Monde, na paródia gráfica do Brasil de Bolsonaro na Covid com uma icônica cena do filme “Dr. Fantásticio” (1964), única comédia do mestre do cinema Stanley Kubrick

Diferente de Bolsonaro, Lula consegue acenar ao centro sem perder sua base: sindicalistas, servidores, magistério, universitários de ciências humanas, católicos progressistas, artistas, identitários e bichos-grilos. Somados à massa do seu eleitorado de baixa renda do Nordeste. Em um eventual segundo turno contra o presidente, o petista poderia agregar até quem não ignora a corrupção sistêmica dos governos do PT. E tem a dimensão da catástrofe econômica de Dilma. Mas, diante do resultado pífio da ortodoxia liberal de Paulo Guedes, considera ainda pior a criminosa condução do país na pandemia da Covid. Com 2,7% da população da Terra, se seguisse a média de mortes da doença do resto do mundo, o Brasil teria 90 mil mortos. Como tem 430 mil, cabe à CPI da Covid cobrar a conta pelos 340 mil brasileiros que perderam a vida desnecessariamente. É a maior tragédia humana em meio milênio de História do Brasil.

A capacidade camaleônica de Lula, que Bolsonaro não tem, é a explicação ao dado talvez mais importante da pesquisa presidencial que a Datafolha divulgou na quinta. Os já elevados 45% que avaliam o governo como ruim ou péssimo ganham 9 pontos — outros 13 milhões de brasileiros — aos 54% que não votariam no presidente de maneira nenhuma em 2022. Quem conhece algo de eleição, sabe que, em dois turnos, o primeiro é definido pelas intenções de voto. Mas, geralmente, vence o segundo quem tem menos rejeição. E não é preciso entender de eleição, a rigor nem multiplicar ou dividir, para apenas somar e subtrair. Quem tem 54% de rejeição pode chegar, no máximo, a 46%. E não vence pelo mínimo de 50% + 1 voto.

Cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf

— A queda acentuada na aprovação de Bolsonaro e a forte subida em sua reprovação demonstram que, diante dos maus resultados do enfrentamento da pandemia, sua liderança sofre o impacto. Neste quadro, a esquerda volta a ser favorita, como antagonista natural da extrema-direita. O problema, para Lula, é manter a vantagem num contexto de recuperação do governo e, porventura, de reação da terceira via ao cenário de polarização que se anuncia, já que as candidaturas de centro somam hoje 24% das intenções de voto. E, se conseguir algum grau de aglutinação, pode se beneficiar das dificuldades do petista, de sustentar sua imagem diante dos prejuízos que o Petrolão acarretou ao país, e de Bolsonaro, diante do desgoverno sanitário, ambiental e educacional, por ele ocasionado — avaliou o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf.

Fato que uma pesquisa feita entre 11 e 12 de maio de 2021 é só a foto do momento. Que não retrata, necessariamente, o final de um filme em movimento. Cujo “the end” só será conhecido em 2 e 30 de outubro de 2022 — datas previstas, respectivamente, ao primeiro e segundo turnos da eleição presidencial. Nestes próximos 17 meses, é possível a Bolsonaro estancar a sangria da sua popularidade. Sobretudo se a Covid parar de matar 2 mil brasileiros ao dia e se a responsabilidade pela desastrosa condução nacional da pandemia não for cobrada. Como também é possível reverter a realidade econômica brasileira de inflação, desemprego, dólar e juros em alta, com a produção industrial e o PIB em queda. Nem é impossível que o centro se una em torno de uma só candidatura entre as avaliadas pelo Datafolha. Que, reunidas, hoje chegariam aos 24% de intenções de voto.

Bolsonaro pode recuperar intenções de voto? Claro que pode! É consideravelmente mais fácil do que o centro se unir ou o presidente diminuir sua rejeição proibitiva de 54%. Lógico, os negacionistas que já apostaram em cloroquina contra a Covid, enquanto apoiam os ataques do presidente à China que deixaram muitos brasileiros sem a segunda dose da vacina Coronavac, ou tentam relativizar o fato do governo federal ter ignorado três ofertas de 70 milhões de doses da vacina Pfizer para entrega ainda em 2020, tudo é possível: negarão também as pesquisas. Muito embora o Datafolha tenha antecipado (confira aqui) desde setembro de 2017, mais de um ano antes da vitória de Bolsonaro, que este, sem Lula, era o favorito ao páreo. E que o mesmo instituto tenha vaticinado (confira aqui) em 6 de outubro de 2018, véspera do primeiro turno presidencial, que Bolsonaro venceria tanto Fernando Haddad (PT), quanto Geraldo Ackmin (PSDB) no segundo turno. No qual só perderia para Ciro Gomes (PDT).

Historiador e professor Arthur Soffiati

— Parece não haver mais dúvida de que a vitória de Bolsonaro em 2018 foi responsabilidade da esquerda e, particularmente, do PT. As denúncias de corrupção contra o PT reuniram os descontentes no grupo duro do bolsonarismo. Além do mais, Lula (preso em 7 de abril de 2018 pelas condenações da Lava Jato de Curitiba anuladas pelo Supremo Tribunal Federal) estava fora da eleição. Sem entrar no mérito da condenação do ex-presidente, não se pode negar que ele é bom de voto. Ele sabe articular com a esquerda e o centro. A recente pesquisa do Datafolha dá a ele 41% das intenções de voto e 23% para Bolsonaro. Os demais possíveis candidatos somam 24%. Se as tendências permanecerem, parece que as eleições de 2022 serão polarizadas, sem espaço para o centro e com a vitória de Lula. A política desastrada de Bolsonaro será responsável por sua derrota — projetou o historiador Arthur Soffiati.

A mesma cegueira da esquerda em 2018, elegendo Bolsonaro, parece agora se abater sobre a direita. Que, em seu abraço de afogado ao “mito”, emergirá Lula.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Este post tem 10 comentários

  1. Cegueira? Foi impressionante a multidão de cegos ontem em Brasília! Incalculável a multidão de robôs!!!!

  2. Faz- me rir!!! O pior cego é o que nso quer enxergar! Cada vez menor???? Data Folha? Kkkkkkkkkkkkkkk

    1. Cara Sandra,

      Fato: quando o Datafolha é favorável a Bolsonaro, os bolsonaristas comemoram. E quando é desfavorável, como você, bricam de cabra-cega. Na dúvida, confira o link:

      https://twitter.com/PastorMalafaia/status/1294117473600655361?fbclid=IwAR3mf4HGNZtiqaPnMLxJpzmOAoPAhJE6wncO9cWQuTAC19qIEQET95ntsq4

      Fato: o Datafolha previu, mais de um ano antes do pleito de 2018, que Bolsonaro, sem Lula, era o favorito à eleição presidencial. O link está no artigo, que antecipou: “negacionistas negarão”. Mas você foi cega.

      https://opinioes.folha1.com.br/2017/10/22/brasil-entre-lula-e-bolsonaro/

      Fato: todos os outros institutos de pesquisa do país registraram o derretimento de Bolsonaro. Entre eles, o PoderData, do site Poder 360, ligado ao mercado financeiro. O link está na resposta ao seu comentário anterior. Mas você foi cega.

      https://www.poder360.com.br/poderdata/lula-amplia-vantagem-sobre-bolsonaro-no-2o-turno-e-venceria-por-52-a-34/

      Grato pela chance de reforçar os fatos a quem ri da própria cegueira!

      Aluysio

  3. Que vergonha!!!! Defendendo a candidatura de um criminoso condenado por saquear o país, disfarçado de presidente, com o apoio de uma organização criminosa travestida de partido político intitulada pt! Não, meu caro, a minha bandeira jamais será vermelha!!! Eu luto contra a corrupção! É visível o desespero de vocês esquerdistas! Passar bem!

    1. Cara Sandra,

      Por favor, tente ler antes o que se presta a comentar. O texto é uma análise do derretimento de Bolsonaro e da liderança isolada de Lula em todas as pesquisas à corrida presidencial de 2022, não defesa desta candidatura. No artigo, está escrito: “quem não ignora a corrupção sistêmica dos governos do PT. E tem a dimensão da catástrofe econômica de Dilma”. Para ajudá-la a não passar vergonha, são a terceira e quarta frases do sexto parágrafo.

      Quanto ao seu “Eu luto contra a corrupção”, a pergunta que fica é: qual corrupção, cara pálida? Na dúvida, tente desta vez não ser cega ao link abaixo:

      https://www1.folha.uol.com.br/colunas/catarina-rochamonte/2021/05/do-mensalao-ao-bolsolao.shtml?pwgt=khe7dw7g7f7g929t0td9ayfwpvf92z60im13t0tyix14wsua&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwagift

      Grato pela chance de ressaltar o óbvio!

      Aluysio

  4. Articulista de torcida. Me lembro que escreveu que Marina Silva venceu Bolsonaro no debate em 2018.
    A Datafolha previa que ele perderia para qualquer um no 2° turno. Quer apostar que a imprensa em geral vai perder de novo?

    1. Caro Herval,

      De fato, Marina enquandrou Bolsonaro no debate da RedeTV na madrugada de 18 de agosto de 2018. Quando usou os Provérbios de Salomão: “Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência (…) Você fica ensinando aos nossos jovens que tem que resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro. Você é um deputado, você é pai de família. Você um dia desses pegou uma mãozinha de uma criança e ensinou como é que se faz para atirar. Você sabe o que a Bíblia diz sobre ensinar uma criança? ‘Ensina a criança no caminho em que deve andar. E até quando for grande, não se desviará do caminho’”.

      Dois anos e nove meses depois, por favor, tente ler antes de escrever. O link da última pesquisa Datafolha antes do primeiro turno de 2018 foi feito no artigo que você se presta a comentar. E, desmentindo o que você afirma, ela projetou que Bolsonaro venceria Haddad (PT) no segundo, como de fato ocorreu. Na dúvida, confira:

      https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/06/datafolha-para-presidente-votos-validos-bolsonaro-40-haddad-25-ciro-15-alckmin-8.ghtml

      Quanto à sua aposta de que “a imprensa em geral vai perder de novo”, cuidado! Parece ser a mesma que os bolsonaristas fizeram na eleição presidencial dos EUA em 2020. Cuja coça eleitoral de Biden sobre Trump deixou apostadores como você com a cara de cachorro caído do caminhão da mudança.

      Grato pela chance de relembrar os fatos!

      Aluysio

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