Opiniões

Vida e obra de Marco Maciel, um conservador que fará falta

 

Marco Maciel (Foto: Reprodução)

 

No pensamento binário em que o Brasil chafurda desde a eleição presidencial de 2014, qualquer crítico aos erros dos 13 anos dos governos do PT, sobretudo à corrupção sistêmica nele implantada, era chamado por sua seita de “golpista” ou “coxinha”. Como nunca há nada tão ruim que não possa piorar, em 2018 veio a eleição de Jair Bolsonaro. Além de superar a incompetência administrativa de Dilma Rousseff, o bolsonarismo no poder trouxe uma versão ainda mais tosca na cópia carbono do lulopetismo: qualquer crítico ao “mito” é classificado por sua seita como “esquerdopata” ou “mortadela”. A morte hoje de Marco Maciel (DEM/PE), aos 80 anos, em Brasília, é uma chance de inflexão ao que houve antes, durante e depois do período de estabilidade econômica, normalidade institucional e relativa paz política em que ele foi vice-presidente nos dois governos do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995/2003).

Para quem não viveu a efervescência do período de redemocratização do país, com o fim da última ditadura militar brasileira (1964/1985) e o caos na hiperinflação do seu legado aos civis, difícil explicar a delícia e a dor do que foram aqueles anos de incerteza e esperança, em que o dinheiro de hoje não comprava a mesma coisa no sábado seguinte. Até que o governo Itamar Franco, fruto da coalizão após o impeachment em 1992 do ex-presidente Fernando Collor de Mello, pôs fim à inflação — hoje de volta ao Brasil — em 1994, com o Plano Real. Que capitaneado politicamente no Congresso pelo senador licenciado como ministro da Fazenda, elegeu FHC presidente ainda no primeiro turno daquele mesmo ano, com Marco Maciel como vice. Dupla bisada em 1998, nas duas únicas vezes em que uma chapa presidencial foi eleita em um só comparecimento às urnas dos brasileiros, desde que a instituição do segundo turno foi adotada pela Constituição de 1988.

Fundado no mesmo ano de 1988 da promulgação da Carta Magna, o PSDB era uma defecção de alguns notáveis do PMDB, cansados do fisiologismo que até hoje marca este partido. Guardadas as distinções ideológicas devidas, foi fruto de um processo semelhante ao que fez alguns lulopetistas, desiludidos com a corrupção do Mensalão, saírem do PT em 2004 para fundar o Psol. No lugar do socialismo com liberdade individual — conjugação inédita de exemplo prático, que não as precocemente sufocadas pelos tanques da ex-União Soviética na Hungria de 1956 e na ex-Tchecoslováquia de 1968 — e a sempre polêmica pauta identitária dos psolistas, os tucanos hastearam duas décadas antes a bandeira da socialdemocracia, impressa no nome do seu partido, no cenário político brasileiro.

Um ano antes da queda de Muro de Berlim, a fundação do PSDB parecia de certa maneira antever a vitória do capitalismo sobre o “socialismo real” na Europa, aceitando antes a realidade do vencedor. Mas em um país com gritantes diferenças sociais e onde as conquistas da CLT vinham de 1943 com a cópia da fascista Carta del Lavoro pela ditadura do Estado Novo (1937/1946) de Getúlio Vargas, a intenção tucana também era adaptar o welfare state (Estado de bem-estar social) de um exemplo melhor da Europa, após a derrota do nazi-fascismo na II Guerra (1939/1945), entre os brasileiros daquele final de séc. 20. Após a derrota com Mário Covas na eleição presidencial de 1989 — na qual ficou no primeiro turno e, como Ciro Gomes (PDT) em 2018, era o candidato progressista com melhor chance de bater o representante da direita no segundo —, o PSDB se aliou à direita para chegar ao poder em 1994.

Marco Maciel foi o nome da direita para compor a chapa com o sociólogo FHC. Era do PFL (que mudaria em 2007 a DEM), defecção do antigo PDS, antes Arena, partido dos militares na ditadura. Em 1994, o PFL cumpria também um papel estratégico: forte em São Paulo, cuja política domina até hoje, o PSDB era fraco no Nordeste. E lá foi compensado pelos coronéis das famílias tradicionais da política, geralmente egressos da aristocracia rural, que tinham se aliado aos militares na ditadura. Curiosamente, Marco era parente distante de Antônio Vicente Mendes Maciel, que passaria à história como Antônio Conselheiro, líder religioso de um movimento popular armado que resistiu ao poder dos coronéis e do Exército Brasileiro na Guerra de Canudos (1896/1897), maior guerra civil brasileira, no sertão da Bahia.

Formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, Marco Maciel militou no movimento estudantil de direita, em oposição à esquerdista União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1963 se elegeu presidente da União dos Estudantes Metropolitanos de Pernambuco (UME). Já filiado à Arena dos militares, foi eleito deputado estadual em 1967 e, em sequência, duas vezes deputado federal. Em 1977, presidente da Câmara Federal, embora fosse contrário, não protestou quando o então presidente Ernesto Geisel decretou o recesso do Congresso Nacional para aprovar reformas do judiciário e política, criando nesta os chamados senadores biônicos. E, em reconhecimento à sua postura passiva como líder parlamentar, foi indicado governador biônico de Pernambuco por Geisel em 1978, seu primeiro cargo no Executivo.

Eleito senador em 1982 já pelo PDS, dois anos depois seria um dos líderes da defecção do partido para fundar o PFL. Se sempre foi fiel aos coronéis, pulou quando o barco dos generais afundava. Quando o bote salva-vidas do PDS passou ao controle de um populista de direita, Paulo Maluf, para a disputa da última eleição indireta a presidente do Brasil, Marco Maciel chegou a ser cogitado na chapa encabeçada por Tancredo Neves (PMDB). Que venceu nos votos do colégio eleitoral em 1985, mas morreu antes de assumir. Vice que acabou sendo indicado pelo PFL, assumiu o maranhense José Sarney. A quem o senador pernambucano serviu como ministro da Educação e, depois, da Casa Civil.

Se pulou na canoa furada de Maluf em 1985, o PFL embarcou na aventura de outro populista de direita: Fernando Collor, vitorioso em 1989 no segundo turno contra Lula e primeiro presidente eleito do Brasil desde Jânio Quadros, quase 30 anos antes, em 1960.  Marco Maciel foi líder de Collor no Senado, que só abandonou quando o impeachment se tornou inevitável. O vice do governo socialdemocrata de FHC, como foi o de Lula hoje acusado de “comunista”, pôde observar a evolução da qualidade de vida do brasileiro mais pobre. Quem votava nos coronéis aliados da ditadura em troca de um açude para ter água de beber, passou a comer frango com o PSDB no poder e picanha, da qual Lula tanto se orgulha, com o PT. O mesmo brasileiro que, com a volta da inflação, hoje tem dificuldade para comer ovo.

Apesar do seu passado pró-ditadura, o político alto, esguio, culto e discreto foi um articulador fundamental para o seu fim. E, como o que veio depois de Lula foi Dilma, não dá para ter medo de errar: Marco Maciel foi o vice do único governo da redemocratização brasileira que passou a faixa com uma base sólida ao sucessor, pensando mais no país do que em um projeto de poder. Foi um conservador do diálogo que, sobretudo na radicalidade bipolar de hoje, fará falta. E, entre erros e acertos, deixa na construção de pontes o seu maior legado.

 

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