Antecipado em novembro — Após Araújo, Bolsonaro perde Salles

 

Ex-ministros bolsonaristas Ernesto Araújo e Ricardo Salles (Foto: Arthur Max/AIG/MRE)

 

Cada vez mais acuado pela realidade, o bolsonarismo é obrigado mais uma vez a se curvar a ela. A nova vítima, agora à tarde, foi Ricardo Salles. Pelos crimes ambientais dos quais é investigado pela Polícia Federal, com inquérito pedido até pela Procuradoria Geral da República (PGR) de Augusto Aras e autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Salles foi obrigado a se demitir do cargo de ministério do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro (sem partido). Desde que a pasta federal foi criada em 19 de novembro de 1992, nunca um ministro do Meio Ambiente no Brasil foi acusado por crimes na área que deveria defender.

Em 6 de novembro de 2020, este blog antecipou em um dia a vitória eleitoral de Joe Biden na eleição presidencial dos EUA, antecipando também o resultado final de 306 delegados contra os 232 do ex-presidente Donald Trump. Na postagem intitulada “Biden é o novo presidente dos EUA, Trump esperneia e Bolsonaro fica mais só”, as consequências foram projetadas abaixo do Equador: “Ao Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro se prestou a ecoar publicamente as denúncias de ‘fraude’ do seu ‘mito’, restam duas alternativas. Ou acerta o passo em sua política externa e na proteção ao meio ambiente, demitindo os ministros olavistas Ernesto Araújo e Ricardo Salles, ou o país se tornará um pária mundial”.

O alerta seria reforçado em outro texto de análise do blog, intitulado “EUA de Joe Biden e o Brasil de Jair Bolsonaro sem Donald Trump”, publicado em 30 de dezembro: “Enquanto comete sucessivos erros que atrasam também a vacinação da população brasileira contra a Covid, que até Trump tentou abreviar nos EUA, Bolsonaro pode ser obrigado a repensar a presença em seu governo de ministros negacionistas como Ernesto Araújo, nas Relações Exteriores, e Ricardo Salles, no Meio Ambiente”.

Pouco mais de quatro meses depois do primeiro aviso, Ernesto Araújo foi obrigado a se demitir do ministério das Relações Exteriores em 29 de março. E hoje, o que foi projetado inicialmente há sete meses, ao antecipar a vitória de Biden nos EUA, se confirma novamente com a demissão de Salles. Desde o último dia 18, Araújo passou à condição de investigado pela CPI da Covid, por sua atuação desastrosa na compra de vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. O que, segundo infectologistas e epidemiologistas, pode ter custado a vida de centenas de milhares de brasileiros mortos desnecessariamente pela doença.

Por sua vez, como nem o ministério serviu para lhe dar proteção contra a investigação por ter atuado para facilitar os crimes de madeireiros ilegais no Pará, Ricardo Salles agora poderá ser julgado como cidadão comum. Além da sua atuação no ministério do Meio Ambiente ser considerada pelos ambientalistas tão desastrosa quanto a de Araújo nas Relações Exteriores, Salles se tornou mais conhecido quando foi exposto em vídeo de uma reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Que foi denunciada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Na reunião, Salles sugeriu a Bolsonaro que o governo federal aproveitasse a atenção da imprensa à pandemia da Covid para “ir passando a boiada”, alterando regras de proteção ambiental.

 

 

Após receber um alerta de “bomba” do STF (confira aqui) do que está para vir contra seu agora ex-ministro, que poderia deixar ainda mais delicada a posição do governo, Bolsonaro foi obrigado a entregar sua cabeça. Foi um dia após o presidente ter elogiado publicamente o demitido de hoje (confira aqui), no lançamento ontem do Plano Safra, no Palácio do Planalto: “O casamento da Agricultura com o Meio Ambiente foi quase perfeito. Parabéns, Ricardo Salles!”

 

Tentando se segurar no cargo, Ricardo Salles acompanhou Bolsonaro e  Michelle em manifestação de 15 de março, em Brasília, mas acabou caindo do cavalo (Foto: Evaristo Sá/AFP)

 

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