Opiniões

Artistas reagem à entrega do anfiteatro Kapi aos evangélicos

 

Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)

 

Kapi aos evangélicos?

“O anfiteatro do Parque Alberto Sampaio não precisa virar outra coisa. Ele já é um espaço cultural com nome e sobrenome: Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi”. Foi o que disse o ator Alexandre Ferram, entre as várias reações negativas da classe artística ao novo projeto do prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Na segunda (28), ele anunciou (confira aqui) que o Parque Alberto Sampaio, cujo anfiteatro foi batizado em 2017 (confira aqui) com o nome de Kapi, tenha sua administração entregue à Associação Evangélica de Campos. E passe a se chamar “Praça da Bíblia”. Morto em 2015, Kapi nunca foi santo. Mas, em seus 59 anos de vida, foi sem favor um profeta da arte e cultura de Campos, como diretor teatral, poeta, carnavalesco e turismólogo.

 

Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)

 

Opções de Wladimir e dos artistas

Ouvido pela coluna ainda na segunda, o prefeito apresentou uma opção: se a classe artística de Campos quiser, pode sugerir outro espaço público para que receba o nome de Kapi, contando com o apoio do Executivo goitacá. A proposta foi repassada às várias fontes do setor cultural da cidade ouvidas pela coluna. E gerou contrapropostas: “não seria melhor que a Praça do SS. Salvador fosse a Praça da Bíblia? Quem mais sagrado que o Santíssimo, e quem mais próximo da Bíblia que ele? Que visibilidade maior poderíamos ter?”, questionou a historiadora Sylvia Paes. De fato, Campos já tem duas Praças da Bíblia.

 

Da vanguarda ao ostracismo

O Parque Alberto Sampaio teve seu anfiteatro inaugurado por Kapi. Quando ele lá dirigiu a peça “Arena conta Zumbi”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, em maio de 1988. Foi no governo Zezé Barbosa, ano em que Anthony Garotinho (hoje, sem partido) se elegeu a primeira vez prefeito de Campos. Kapi participaria também daquele governo, cujo grupo político veio do teatro. Foi um dos jovens de então que lhe deram caráter inovador. As coisas mudaram na eleição de 2008, quando o artista gravou um vídeo de apoio a Arnaldo Vianna (PDT) a prefeito. E foi por isso condenado ao ostracismo nos oito anos de governo Rosinha.

 

Em 9 de maio de 2016, na primeira noite de ocupação do Teatro de Bolso, os artistas não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do teatro (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

“Ocupa TB”

A perseguição política contra um dos maiores artistas da história de Campos fez com que ele entrasse em depressão. Soropositivo de HIV, teve seu sistema imunológico afetado, no que pode ter abreviado sua vida. E não mereceu do poder público municipal nem o velório no Trianon, que ele também inaugurou ainda no esqueleto, em 1995, com a montagem da peça “Gota D’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Morto em 2015, Kapi não viveu para ver o “Ocupa TB” entre maio e junho de 2016, quando o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, então fechado há dois anos, foi ocupado e reaberto (confira aqui e aqui) pelos artistas de Campos.

 

Em 11 de julho de 2013, artistas de Campos protestaram na praça do Santíssimo Salvador e diante do Tatro Trianon contra censura à peça de Nelson Rodrigues em Campos por motivos religiosos do governo municipal (Foto: Valmir Oliveira/Folha da Manhã)

 

“Nelson Censurado”

Embora não tivesse cargo no governo da mãe, Wladimir o acompanhou bem de perto para ver que a classe artística pode não dar voto, mas tira. O garotismo seria apeado da Prefeitura ainda no primeiro turno de 2016, quatro meses após o “Ocupa TB”. Que foi o passo seguinte dos artistas de Campos ao movimento “Nelson Censurado” (confira aqui) de 2013, quando a peça “Bonitinha, mas ordinária” teve uma apresentação cancelada no Trianon. Integrante do grupo carioca que a apresentaria, Rodrigo Vahia externou à época o motivo (confira aqui): “Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica”.

 

Da religião à política

Inegável que o espaço do Alberto Sampaio vinha degradado há muito tempo. Sobretudo depois de ser coberto pela Ponte Brizola, inaugurada em 2007 e batizada inicialmente de Rosinha. Como pode não ser ignorado que o apóstolo Renan Siqueira, presidente da Associação Evangélica de Campos na parceria de 2021, é irmão de Renê Siqueira, marido da ex-vereadora Rosilani do Renê (PSC), subsecretária do Idoso de Wladimir. Apoio que, na relação indesejada entre religião e política, se tornou mais necessário após o vereador Anderson de Matos (Republicanos), pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, ter se convertido à oposição.

 

Comércio e artistas

O governo Wladimir sofreu críticas dos comerciantes pelo lockdown entre março e abril, para conter a segunda onda da pandemia da Covid, enquanto permitia que os templos religiosos abrissem com 20% de ocupação. Ali renasceu a força política do setor produtivo goitacá, responsável não só pela abreviação do lockdown, como pelo engavetamento do novo Código Tributário (confira aqui) no último dia 16, após rachar (confira aqui) a base governista na Câmara. O erro do governo tem sido abrir o debate com o principal setor interessado só após fazer suas propostas, não na sua formulação. Deu errado com o comércio. E nada indica que vá ser diferente com os artistas.

 

Sociedade e Bacellar

O prefeito está certo ao pregar que a grave crise financeira de Campos (confira a série de 11 painéis da Folha sobre o tema, de julho a setembro de 2020, publicada aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui) só será vencida com união. Que só virá com os setores da sociedade chamados para ser parte da solução, não encarados como antagonistas quando a falta de consenso agrava o problema. Este foi o erro também cometido pelo governo Rafael Diniz (Cidadania). Ontem (29), sobre a pacificação de Wladimir com o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD), o jornal carioca Extra publicou (confira aqui) na nota intitulada “Ironia”: “O prefeito diz esperar pelo rival em seu gabinete — para os dois darem as mãos pela cidade”. Sem nenhuma ironia, a sociedade espera e merece o mesmo convite.

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Por que o parque está abandonado, por que não preservar a cultura cuidando do espaço que leva o nome de um artista que tanto trabalhou para propagar a cidade com a universalidade de suas criações? Enfim, por que fechar em apenas um sentido mudando a denominação de um lugar para agradar apenas uma corrente de pensamento? Salve a liberdade! Viva Kapi! Não à troca de denominação do anfiteatro, sim aos cuidados para que fique mais lindo para toda a gente!

  2. Governo Garotinho, o mais longo na prefeitura de Campos, mudando apenas os nomes.

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