Arte e cultura de Campos analisam Kapi e os evangélicos

 

Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)

 

Wellington Cordeiro, jornalista e presidente da AIC

“Depois de causar a revolta da classe artística de Campos com a notícia do atropelamento da homenagem ao diretor de teatro Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, que era nome do anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, a Prefeitura de Campos desfez parte do equívoco, mantendo a homenagem prestada em 2017. Porém, manteve a parceria com uma entidade religiosa para manter e utilizar o local. Será possível ter cultos evangélicos no palco batizado de Kapi?”. A pergunta foi feita pelo jornalista Wellington Cordeiro, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC). E resume a dúvida que ficou após o prefeito Wladimir Garotinho (PSD) ter anunciado (confira aqui) na segunda (28) que o Parque Alberto Sampaio passaria a ser administrado pela Associação dos Evangélicos de Campos (AEC), com o nome de Praça da Bíblia. Como o anfiteatro ali instalado já havia sido batizado em 2017 (confira aqui) como Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi, morto em 2015 e que inaugurou aquele espaço em 1988, na direção de uma histórica montagem da peça “Arena conta Zumbi”, a reação da classe artística de Campos (confira aqui) contra a proposta foi forte e rápida. E fez o prefeito recuar parcialmente (confira aqui) na quarta (30), mantendo o nome de Kapi ao anfiteatro e a utilização do resto do Alberto Sampaio pela AEC, para fazer a manutenção de todo o parque sem ônus ao município.

 

Parque Alberto Sampaio (Foto: Luiz Macapá/Supcom)

 

Fábio Ribeiro, presidente da Câmara Municipal de Campos

A contraproposta do prefeito foi formalmente apresentada em reunião virtual extraordinária do Conselho Municipal de Cultura (Comcultura), convocada para tratar do assunto (confira aqui) na noite de ontem (02). Mas seus passos futuros foram projetados (confira aqui) desde quinta (01) pelo vereador Fábio Ribeiro (PSD), presidente da Câmara Municipal, onde será recebida e votada a proposta do governo. “Depois do projeto ser apresentado na reunião do Comcultura, vamos mediar entre os representantes dos artistas e da Associação de Evangélicos como e quando cada um vai usar cada espaço. Penso que terá que ser em dias separados, organizados pela Prefeitura. Temos cerca de um mês para discutir com todos os atores envolvidos, antes de colocar o projeto em votação”. À essa mediação proposta pelo presidente da Câmara, permanece a indagação do presidente da AIC: “Será possível ter cultos evangélicos no palco batizado de Kapi?”.

Lúcia Talabi, atriz

A classe artística e cultural de Campos não teve a unanimidade “burra” do dramaturgo Nelson Rodrigues. Mas a maioria olhou a proposta governista com desconfiança. “O Parque Alberto Sampaio ter a manutenção da Associação Evangélica e ser de uso também dos artistas, como disse o prefeito ao refazer o acordo após a reação contrária da sociedade campista, parece uma boa solução, mas não é! Ter um espaço público, historicamente identificado como de arte e cultura, entregue a uma instituição privada e religiosa com poder de influenciar em legislações e políticas públicas, é uma lógica que não nos serve. Existe aí um projeto político que não é interessante para a promoção cultural em Campos”, denunciou a atriz Lúcia Talabi. Como Kapi, para além do teatro, teve atuação de destaque também como poeta e carnavalesco, representantes de outros setores foram ouvidos pela Folha.

Arlete Sendra, literata e dramaturga
Toninho Shita, compositor de samba

“Fiquei aliviado quando soube que vão manter o nome de Kapi no anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, quando não deveriam nem cogitar a retirada do mesmo. O grande Antonio Roberto Kapi nos deixou legados culturais importantes e pessoas com essa genialidade não nascem todos os dias. Me sinto inseguro, mas como os recursos não sairão dos cofres públicos, não posso me opor”, contemporizou o compositor de samba Toninho Shita. “Penso que será ético e respeitoso que não se imponha o convívio de pensares tão radicalmente heterogêneos no mesmo espaço. Quero acreditar que interesses subreptícios não estejam no comando desta estranha proposta. Quero acreditar que outros campos em Campos podem ser visualizados e usados”, propôs a literata e dramaturga Arlete Sendra.

Alexandre Ferram, ator
Sylvia Paes, historiadora

“Não se esperava mais de um descendente de governos que fecharam teatros e abandonaram equipamentos de cultura, mas acreditava ao menos que a proposta fosse analisada previamente com a comunidade e os setores envolvidos. Um palco com nome de Kapi sendo ocupado para realização de cultos evangélicos é no mínimo desonrar a memória do artista que ele foi, que ele é. Neste caso, é melhor tirar o nome dele disso”, sentenciou o ator Alexandre Ferram. “Nós que já temos duas praças como o mesmo nome de Praça da Bíblia, agora uma terceira, e não somos por esse motivo uma sociedade abençoada. O que deu errado? As parcerias público-privadas são importantíssimas, afinal a cidade é de todos, independentemente de questões religiosas, políticas ou sociais, justamente para que não se fragmente em gostos particulares”, advertiu a historiadora Sylvia Paes.

Adriano Moura, literato, poeta e dramaturgo
Graziela Escocard, historiadora

“A arena do Parque Alberto Sampaio permaneceu muito tempo abandonada. Mesmo fazendo uma homenagem ao nosso querido Kapi, não ocuparam devidamente. A falta de cuidado fez o espaço cair no esquecimento. Mas dar outro nome à arena da praça seria uma forma de apagar a memória cultural de nossa cidade”, ponderou a historiadora Graziela Escocard, diretora do Museu Histórico de Campos. “O Parque Alberto Sampaio precisa ser revitalizado e destinado à sua função original: lazer e cultura. O anfiteatro do parque recebeu o nome de Kapi, uma das figuras mais representativas da arte e cultura de Campos. Mudar o nome do local contribui para o apagamento da memória desse grande artista. Destiná-lo à gestão e utilização de eventos evangélicos deveria ser considerado, inclusive, inconstitucional, já que vivemos num Estado laico”, pregou o literato, poeta e dramaturgo Adriano Moura.

Analice Martins, literata e poeta
Sidinho Ramos, carnavalesco e estilista

“O anfiteatro localizado no Jardim de Allah foi uma obra realizada no final do governo do saudoso prefeito Zezé Barbosa, com o espetáculo teatral dirigido por Kapi, ‘Arena conta Zumbi’. A partir daí, Kapi cresceu muito, passando pelas escolas de samba. E foi coordenador de carnaval de Campos, desenvolvendo um excelente trabalho. Teve seu nome reconhecido na homenagem do anfiteatro. Essa história causou uma grande insatisfação na classe artística, foi um rastilho de pólvora que dura até agora”, avaliou o carnavalesco e estilista Sidinho Ramos. “Kapi foi um homem da palavra em ação, em cena, em movimento, em punho, em riste. Como poeta, diretor teatral, como artista, foi um homem que deve ser guardado em nossas memórias, em nossas vidas. Guardado como nos ensinou o poeta e filósofo Antonio Cícero: ‘Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por/ ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela’. Manter o nome, a homenagem, e entregar a gerência exclusiva do espaço à AEC seria desconfigurar o projeto de ter, nas atividades culturais a serem realizadas novamente ali, um sopro de vida, já que a arte reinventa a vida. Mobilizemo-nos, como ele o faria”, convocou a literata e poeta Analice Martins.

 

Capa da Folha Dois de hoje

 

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Este post tem um comentário

  1. Cricio Manhães Pinto

    SAUDOSO CAPI ASSIM ERA CONHECIDO POR AMIGOS E ADMIRADORES MEIO CULTURAL FOI E SEMPRE SERÁ LEMBRADO POR QUEM CONHECEU UM PROFISSIONAL COM VERDADEIRO AMOR CULTURA ELE SE ENTREGAVA TOTALMENTE A CULTURA. SALDADES ÉPOCA CULTURAL SÉRIA E EXPANSÃO AOS MAIS CARENTES EM CAMPOS/RJ.

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