Opiniões

Vida e obra de um cão chamado Zidane

 

Zidane e Atafona, 10 de novembro de 2018

 

Zidane, o craque francês, se marcou pela elegância. Zidane, o buldogue francês, pela falta dela. Em comum, ambos tinham duas características a priori antagônicas: a preguiça e a determinação. O jogador nunca correu para marcar ninguém, mas conquistou uma Copa e só não levou outra porque perdeu a cabeça. O cão adorava dormir, mas, como todo buldogue, era tenaz quando o jogo era do seu interesse. E conquistou corações com seu charme irresistível. Hoje apertados de tristeza por sua partida repentina na madrugada, a 16 dias de completar seis anos.

Meu filho Ícaro, como de resto todos nós, teve uma fase difícil na adolescência. Que vinha desde a perda do seu avô, meu pai, o jornalista Aluysio Barbosa, em 2012. A relação entre avô e neto extrapolava um amor que já é especial por natureza. Em 2015, ao conversar com um amigo com experiência em crianças, ele me aconselhou a dar um cachorro ao meu filho, que morava com a mãe, a jornalista Dora Paula Paes, em apartamento.

 

Zidane, em sua vida dupla de cão de apartamento, e Aquiles

 

Decidimos por um buldogue francês e fomos comprar um filhote em canil dedicado à raça, eu, meu filho e seu irmão Aquiles Paes, meu afilhado. Como o filhote foi entregue no dia seguinte, sem nunca o pedigree ter sido, até hoje cremos que não foi o escolhido. Mas ele certamente nos escolheu. Seu nome, por óbvio, foi em homenagem ao gênio francês do futebol. Que legou também seu apelido ao cão: Zizou.

Só depois que Zizou passou a morar com meu filho, atentamos à sua data de nascimento: 20 de julho. Nessas coincidências que não há, a mesma data de nascimento do meu pai. Fiquei espantado e passei a encarar como sinal. Que se confirmou não só nos fortes vínculos entre um menino e seu cão, como nas características que este reforçou naquele: responsabilidade, compromisso, cuidado, amor que não se mede.

Atafona, 16 de junho de 2020

Em outra característica que não parecia coincidência, Zizou até gostava da sua vida de cão de apartamento. Mas não escondia de ninguém sua predileção desavexada por Atafona. Era só agitar sua guia e gritar “praia, Zizou!”, que ele brilhava os olhos esbugalhados, escancarava a boca prognata em alegria, com a língua pendendo para fora, dando saltos na direção de quem gritava. Como todo buldogue francês, com tronco largo e pernas curtas, ele não conseguia nadar. Mas, à beira-mar na foz do Paraíba, o “playboy” de apartamento se convertia em malandro atafonense. Inteligente e corajoso, amenizava o calor do sol em mergulhos nas ondas. Entre elas e a areia, parecia um tatuí.

 

 

Atafona, 14 de junho de 2020

Sempre que eu ia à Atafona, mesmo sem Ícaro, levava Zidane. Partilhando da paixão pelo balneário que também fôra legada por meu pai, sempre que ele voltava dos espaços amplos de lá para sua vida de cão de apartamento, ficava em depressão por um ou dois dias. Foi na praia que ocorreria outra estranha coincidência.

Era a madrugada de 2 de abril de 2016, mais feliz que a de hoje, quando eu tirava do gravador uma entrevista com outro gênio do futebol, o ex-zagueiro Aldair, do Flamengo, do Benfica de Portugal, do Roma da Itália e da Seleção Brasileira, com a qual foi tetracampeão e destaque da Copa de 1994. Estavam no mesmo quarto, dormindo, Ícaro e o cão Zidane. E exatamente no ponto do áudio em que Aldair tentava explicar os dois gols do craque Zidane sobre o Brasil, na final da Copa de 1998, seu xará acordou e começou a me lamber.

Zidane no traço de Aquiles Paes

No verão deste ano, poucos meses antes de morrer, o cachorro Zidane alcançou seu apogeu. E superou o algoz do Brasil em 1998 e 2006. Se, nestes dois jogos, o maestro francês marcou dois gols, o buldogue francês matou três ratos. Com seu corpo pequenino e musculoso, superou também o dogo argentino Astor e os rottweilers Bismarck e Manfred. Grandes e imponentes, os três, juntos, só deram cabo de um roedor. No contraste com os cães de guarda, nada mal para um cão considerado de companhia. A partir do seu feito, além de Zizou, ele ganharia outro apelido: El Matador.

Com o menino Lorenzo Abreu, à beira do fogo na noite fria de 26 de junho, Zidane na sua última ida a Atafona

Em um país em que 524 mil vidas humanas foram perdidas para a pandemia da Covid, sob o negacionismo e a corrupção do governo federal, falar de um cão morto pode soar até banal. Mas não é! Sua vida breve e plena não foi um mero número. Como não foi a de cada um desse meio milhão de brasileiros. Todas também deixaram corações apertados de saudade pelos que deixaram de bater.

Já tive vários cachorros, mas Zizou sempre terá um lugar especial. Se não fosse mais nada, por ter entrado na vida de um menino que andava meio perdido. E saído dela deixando um homem feito e centrado, meu único filho. É maior dívida com um cão do que qualquer homem possa pagar.

Abaixo, em relato pungente, um pouco da vida e da obra de um bulgoguinho tigrado chamado Zidane, craque nos campos das nossas vidas:

 

Zidane e Ícaro, Atafona, 9 de fevereiro de 2016

 

Ícaro Abreu Barbosa e Zidane

Adeus e até mais, Zizou

Por Ícaro Abreu Barbosa

 

O Sancho Pança do meu Dom Quixote foi você, meu amigo Zidane. As vibrações da sua felicidade foram minha salvação no momento mais difícil da minha vida até agora — literalmente. A sua partida repentina, no começo da madruga deste domingo (4), ainda está sendo digerida, e a sensação é de um pesadelo que não tem fim. Amigo querido, você foi um marco na minha vida: deixando um Ícaro antes e outro depois da existência de Zidane.

Mas, agora, como fica aquele que ficará sem Zizou? Ele não vai ter os seus resmungos no sofá enquanto estiver trabalhando. Não vai ter seu sono ninado pelos seus roncos de porquinho. Não vai ter uma bolinha de pelo pra aquecer o pé no inverno, uma companhia de soneca para a tarde, um obstáculo para tropeçar enquanto estiver cozinhado ou um parceiro pra caminhar na praia e tomar banho de mar no verão. Ele está aleijado no coração adicto da sua presença, Feijão: que agora, depois de uma noite muito estranha, já não existe mais.

Você, Zizou, era o motivo da partida para o trabalho: pois alguém tinha que ter o prazer de te alimentar com Guabi e medicar com o Bravecto para acabar com os carrapatos que te acompanhavam quando você retornava do seu habitat preferido — a Praia.

Isso tudo para garantir o bem-estar do protetor dos oprimidos em qualquer briga, por mais que fosse um cotoco braquicéfalo de 11kg… mas também existia o seu lado atentado, você não foi um santo. Foi a teimosia e chatice em formato de cachorro. Era o terror da convivência com outros pets, sendo engolido por uns e jurado de morte por outros; mas encantava qualquer ser-humano com seu carisma e prostituição por um cafuné, o que compensava a “feiúra”, te deixando até bonitinho no final das contas.

O que você tinha de útil, e ninguém pode negar, era um talento para a caça de ratos que acabou sendo pouco explorado, olhando em retrospectiva. Seu saldo durante o verão da pandemia de 2021 é motivo de orgulho para mim, além de um murro na cara para aqueles que dizem: “Bulldog Francês é raça de madame e não serve pra nada.”

Sua presença e companhia foi, infelizmente, curta demais; mas teve uma intensidade e importância que vai ser lembrada enquanto aqueles que conviveram com você estiverem por aqui. Suas fotos, caretas e vídeos vão ilustrar nossos momentos juntos; sendo sempre um bunker temporal, aonde você estará vivíssimo, alegre e protegido: um lugar para chamar de seu nas ondas do tempo, meu amiguinho.

Pode deixar, vou lembrar todos os dias de você e ressaltar a importância que teve para quem sou hoje e serei amanhã. Me consola saber e ouvir, principalmente daqueles que te cercara, que você foi um cachorro amado e feliz. Lamento apenas pela força e explosão da sua juventude ter se transformado nessa rigidez, assim como aconteceu com Hemingway e principalmente nos últimos meses, quando você começou a envelhecer.

Peço desculpas por não estar junto de você, ao seu lado — como você sempre esteve comigo — durante sua última luta. Não me foi permitido pela equipe veterinária. Mas acho que até com isso você se preocupou. Aquele último olhar de tchau que você me lançou deitado, quando percebeu que eu estava te olhando pelo vidro, foi seguido por uma lenta levantada e reação de despedida; e depois acabou com virada costas para mim: a encarada que você deu na parede branca do caixotinho de internação significou alguma coisa. Tenho certeza que você queria me poupar da dor de te perder, que sempre comentei com você que iria sentir e talvez reagir mal — enquanto acariciava atrás da sua orelha e deslizava a mão no seu dorso. Resiliente e teimoso como foi durante toda a vida, decidiu segurar sozinho a barra e o caminho que agora está seguindo.

Eu queria fazer mais, mas só posso torcer e rezar por você, além de te agradecer por ter sido um cachorro incrível. Te amo muito e para sempre, meu amigo. Tomara que você seja sempre a sombra que me acompanha e também a luz que ilumina meu caminho.

Desejos de mais beijos, abraços e momentos, além de pedidos de desculpas e agradecimentos, meu filho, resumem tudo o que posso fazer neste momento por você.

Espero que a praia de Atafona, que você tanto amou, seja sempre seu lar e nosso ponto de reencontro para matar as saudades eternas que vamos sentir um do outro. O mar, a areia, a grama e o vento que sopra são seus: agora você é totalmente livre e pertence à PRAIA que te fazia pular de alegria. Só não se esqueça que a casa está sempre em quem te ama muito. E um dia espero que eu te encontre neste passeio incerto pelo fim.

Zidane depois da vida, no traço de Aquiles Paes

 

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Este post tem um comentário

  1. Só quem nunca amou cães, não choraria lendo os 2 textos. É muito triste perdê-los, mas triste mesmo é quem nunca amou cães.

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