Opiniões

Protestos contra ditadura de Cuba e consequências a Lula

 

Decano do jornalismo campista com sólida formação marxista na juventude, José Cunha Filho tem uma expressão que define boa parte da militância de esquerda brasileira: “marxista de axila”. É o indivíduo que põe “O Capital” de Karl Marx embaixo do braço, sem nunca ter lido nem o mais fininho “O Manifesto do Partido Comunista”, e sai gritando palavras de ordem.

Não é o caso do também jornalista Luiz Carlos Azedo (confira aqui), outro de sólida formação marxista, que escreveu artigo publicado hoje no Correio Braziliense. O texto é necessário à compreensão dos protestos populares de cubanos (confira aqui e aqui) contra a ditadura comunista de Cuba, com um didático passeio pelo “socialismo real” no mundo, até suas consequências ao Brasil de hoje. Onde o ex-presidente Lula (PT) lidera com folgas todas as pesquisas à eleição presidencial de outubro de 2022, daqui a pouco mais de 14 meses.

Confira abaixo:

 

(Arte: Correio Braziliense)

 

Luiz Carlos Azedo, jornalista

Saia justa na esquerda

Por Luiz Carlos Azedo

 

Milhares de cubanos foram às ruas, no domingo, protestar contra o governo em meio ao agravamento da pandemia e da crise econômica no país. A crise cubana pôs uma saia justa nos partidos e nas lideranças de esquerda, principalmente no ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva, amigo da liderança cubana desde quando Fidel Castro deu uma força à criação do PT, recomendando que todos os partidos de esquerda — então na ilegalidade — se somassem ao líder operário que despontava na política após as greves no ABC de 1978.

Leonel Brizola, no PDT; Miguel Arraes, no PSB; e Luís Carlos Prestes, até então no PCB, não embarcaram no partido operário criado por líderes sindicais, intelectuais e estudantes na reforma partidária de 1979. A maioria dos militantes de esquerda que havia participado da luta armada contra o regime militar, cujo grande expoente foi o líder comunista Carlos Marighela (ALN), porém, encabeçada por José Dirceu, seguiu a orientação do “Comandante”.

O livro A Ilha, do jornalista Fernando de Moraes, fez a cabeça de muita gente, em cores vibrantes: em Cuba, todos ganhavam o suficiente para sobreviver com dignidade, com políticas de educação e saúde exemplares. O sonho do “homem novo”, de Che Guevara, fazia do socialismo cubano, com seus comitês revolucionários, um contraponto ao burocrático modelo da União Soviética e do Leste Europeu. A Revolução Cubana rivalizava até com a Revolução Cultural de Mao Tse Tung, o líder chinês que deu todo poder aos jovens estudantes da Guarda Vermelha e perseguiu a velha liderança comunista, inclusive Deng Hisiao Ping, que seria reabilitado após a morte de Zhou En Lai e se tornaria o pai da modernização da China.

O presidente cubano e novo líder do Partido Comunista, Miguel Díaz-Canel, culpou os Estados Unidos pelas manifestações. Convocou apoiadores a irem às ruas “em defesa da revolução”. O apelo à mobilização partidária é um sinal de que a situação é grave: “Estamos convocando todos os revolucionários do país, todos os comunistas, para que saiam às ruas em todos os lugares onde ocorram essas provocações”, disse. O regime cubano mantém um sistema de mobilização popular no qual jovens trabalhadores e estudantes das províncias são levados para Havana, com o objetivo de participar das manifestações oficiais e, eventualmente, munidos de tacos de beisebol, pôr para correr os grupos dissidentes que realizam protestos.

 

Cortina mágica

Cuba sofre com o agravamento da crise econômica, foi fortemente impactada pela queda drástica do turismo durante a pandemia. O país lida com escassez de remédios, longas filas para acesso a alimentos e cortes de energia elétrica desde o fim da ajuda soviética. Ultimamente, tem recebido apoio da China. O principal aliado do regime cubano na América Latina é Nicolás Maduro, que mantém milhares de técnicos e assessores cubanos na Venezuela, mas o regime bolivariano também anda mal das pernas. A mesma coisa acontece com a Nicarágua, de Daniel Ortega. Os governos Lula e Dilma Rousseff também ajudaram muito o governo cubano, inclusive com a construção do estratégico porto de Mariel, concebido para ser uma espécie de “hub” portuário do Caribe. Mas, agora, com o presidente Jair Bolsonaro no poder, toda a colaboração econômica foi suspensa.

A crise cubana veio em péssima hora para a candidatura de Lula, pois o regime comunista cubano é um mau exemplo para qualquer candidato democrata. Cuba perdeu o charme político, mesmo que a narrativa do boicote dos Estados Unidos como causa de seus problemas econômicos ainda tenha alguma razão de ser. Não justifica, porém, o seu fracasso econômico, diante do esplendor do capitalismo de Estado chinês. Pode ser que a crise leve à aceleração das reformas econômicas, como aconteceu com a China depois do massacre estudantes da Praça da Paz Celestial. A outra possibilidade é o colapso político do regime, semelhante ao da União Soviética, que se desmilinguiu após a queda do Muro de Berlim e a vaia em Mikhail Gorbatchov, em plena Praça Vermelha, no Primeiro de Maio de 1991. Em dezembro daquele mesmo ano, a União Soviética se autodissolveu.

Só o futuro dirá o que vai acontecer, mas a crise cubana rasgou a cortina mágica que cerca a ilha, tecida por mitos revolucionários. Como diria o escritor tcheco Milan Kundera, quando o mundo corre em direção aos cubanos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado. “E os conformistas não serão os únicos a ser enganados; os seres rebeldes, ávidos de se opor a tudo e a todos, não se dão conta do quanto também estão sendo obedientes, não se revoltarão a não ser contra o que é interpretado (pré-interpretado) como digno de revolta.”

 

Publicado aqui, no Correio Braziliense.

 

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