Em traço, música, prosa e verso, homenagem ao Dia do Rock

 

O Dia do Rock foi ontem. Mas nunca é tarde para lembrar desse estilo musical nascido da amplificação elétrica do blues. Quando o violão das paisagens agrárias e amplas do delta do rio Mississipi não era mais suficiente para ecoar o lamento de ex-escravos negros. Que, mesmo depois de libertos na Guerra de Secessão (1861/1865), seriam segregados pelo século seguinte no racismo institucionalizado do sistema Jim Crowe, nos estados do Sul dos EUA. E se mudaram para buscar sua humanidade em meio à cacofonia urbana das grandes cidades do Norte do país.

Concebido, gestado e parido nos anos 1940 e 1950, já foi dito que o guitarrista Chuck Berry seria o pai do rock and roll, enquanto o pianista Little Richard seria a “mãe”. O filho pródigo, quando garotos brancos dos EUA começaram a requebrar os quadris como negros, para quebrar paradigmas morais de comportamento, foi Elvis Presley. O estilo seria reinventado na Inglaterra dos anos 1960, por outros garotos brancos talentosos, reunidos em bandas como The Beatles, The Rolling Stones e Cream.

A coisa se alastraria pelo mundo do pós-II Guerra, chegando ao Brasil também nos anos 1960, com o movimento baiano da Tropicália, como baiano era Raul Seixas, a banda paulista Os Mutantes e a popular Jovem Guarda do Iê-iê-iê, parida no bairro carioca da Tijuca, que teria como rei o capixaba Roberto Carlos. E explodiu de vez nos anos 1980 do BRrock, com bandas como as cariocas Blitz e Barão Vermelho, as paulistas Titãs e RPM e as brasilienses Legião Urbana e Paralamas do Sucesso.

Embora tenha sido marcado pelo standard da MPB “O bêbado e a equilibrista”, na voz de Elis Regina, o rock brasileiro foi a trilha sonora real da redemocratização do país que saía da sua última ditadura militar (1964/1985). “Que país é este?”, indagava Renato Russo no chamado. “Brasil, mostra a tua cara”, clamava Cazuza na resposta.

Bandleader dos Beatles, John Lennon chamava Chuck Berry de “meu herói”. Já o batismo da banda de Mick Jagger e Keith Richards viria de um verso da música do mestre do blues Muddy Watters, que nasceu no Mississipi e se mudou para Chicago, trocando o violão pela guitarra: “a rolling stone gatter no moss” (“pedra que rola não cria limo”).

Mas seria o Cream quem desceria mais às raízes do rock, ao resgatar o mestre do delta blues Robert Johnson, regravando seu sucesso “Crossroads”, para influenciar outras gerações pelo mundo. Muito por influência do seu tímido guitarrista, que já vinha da experiência em outras bandas, entre elas a Yarbirds, antes desta mudar de nome para Led Zeppelin. Conhecido como “deus da guitarra” e amigo em vida dos seus pares precocemente falecidos Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan.

Foi de Eric Clapton que vi na manhã de hoje uma charge no grupo de WhatsApp deste blog, postada na noite de ontem, em homenagem ao Dia do Rock, por seu talentoso autor, Walter Silva Jr. Inspirado nela e com o mesmo dolo, deitou-se esta prosa. Abaixo o traço do Waltinho, a música de Johnson por Clapton, o baixista Jack Bruce e o baterista Ginger Baker, mais os versos escritos quase um quarto de século atrás, pelo jovem que fui:

 

Eric Clapton, em homenagem ao Dia do Rock, por Walter Silva Jr.

 

 

 

 

slowhand blues

 

olho pro paraíba

ouço delta do mississipi

no tâmisa que corre

onde correu da silva

alguém canta quem ama

sem mais ter

falo de encruzilhadas de vida

atravessadas a cabeçadas

nas convenções

mesmo a que convenciona não tê-las

do parentesco entre choro e saudade

de família reunida em três acordes

no lamento de escravos negros

enquanto if significar se

man!

meu irmão!

clapton is god!

é verdade…

vi num carro do metrô de londres

na viagem à inglaterra que nunca fiz

foi quando tirei a lata

de collor-jet vermelho

do bolso do meu casaco

de couro curtido na alma

e pichei abaixo:

gods don’t die!

 

campos, 01/10/96

 

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