Cuba entre smurfs, a música e o testemunho de cubanos

 

José Martí

“Liberdade é o direito que todo homem tem de ser honrado e a pensar e a falar sem hipocrisia. No mundo tem de haver uma certa quantidade de decoro, como certa quantidade de luz. Quando há muitos homens sem honra, há sempre outros que têm em si o decoro de muitos homens. Estes são os que se rebelam com força terrível contra os que roubam dos povos a sua liberdade, que é como roubar-lhes aos homens sua dignidade. Nestes homens vão milhares de homens, vai um povo inteiro, vai a dignidade humana”.

(José Martí, jornalista, poeta, filósofo e herói da independência de Cuba no séc. 19, pela qual foi morto e teve o corpo mutilado pelos espanhóis)

 

Acordo cedo na manhã deste domingo, lavo o rosto, escovo os dentes e vou conferir as primeiras mensagens do grupo de WhatsApp que este blog divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. E, após ler manifestações matinais de dogmas de fé opostas à realidade tensa de Cuba, que dominou os noticiários do mundo na última semana e já havia tentado analisar aqui, com a devida condenação ao bloqueio comercial dos EUA à ilha caribenha, me senti obrigado a novamente escrever no grupo o que transcrevo abaixo:

 

 

Acordei, li as primeiras mensagens de hoje do grupo e me senti em um túnel do tempo. Não o da Guerra Fria, que ficou para trás há 30 anos, com a dissolução da União Soviética em 1991. E que, infelizmente, ainda tem Cuba como passageiro perdido daquele período. Mas um túnel do tempo pessoal mesmo. Com a manhã de domingo aberta na TV por smurfs azuis, felizes e contentes, cantando “tra-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá”, em meio aos cogumelos do seu mundo idílico, numa floresta encantada. Até que um deles grita “Gargamel!” e todos saem correndo com medo do mal encarnado no estereótipo do feiticeiro careca e narigudo, com seu gato emblematicamente de orelha furada e chamado Cruel.

É mais ou menos a ideia que alguns querem vender, junto dos seus anacronismos políticos: a Cuba dos smurfs felizes em seu isolamento do mundo e os EUA dos malvados Gargamel e Cruel, que querem literalmente devorá-los. Enquanto isso, na vida real, ontem o presidente Miguel Díaz-Canel falou em autocrítica do regime. E a alta comissária da ONU para os direitos humanos, a ex-presidente de esquerda do Chile Michelle Bachelet, exigiu respeito aos direitos universais dos cubanos que foram às ruas de 20 cidades da ilha pedir por liberdade, além da libertação imediata dos até 130 deles presos pelo regime.

Liberdade que já não pode ser concedida a Diubis Laurencio Tejeda, de 36 anos, morto durante “abordagem policial” em Havana.

Assim, enquanto senhores tupiniquins de meia e terceira idade festejam seus dogmas de fé, em cópia carbono com mais leitura dos tiozões bolsonaristas do WhatsApp, a música de afrocubanos que inspirou os protestos no país segue ecoando seu versos pelo mundo: “No más mentiras! Mi pueblo pide libertad, no más doctrinas!” (“Chega de mentiras! Meu povo exige liberdade, não mais doutrinas!”).

 

Confira abaixo a música “Pátria e Vida”, em oposição ao “Pátria ou Morte” ecoado em vida por Fidel Castro (1926/2016) como líder da ilha caribenha:

 

 

E como o debate sobre Cuba, sempre controverso no Brasil, tem muito mais propriedade quando tratado longe do maniqueísmo raso de quem nunca molhou seus pés no mar caribenho de azul profundo, segue abaixo o relato da médica cubana Arleny Valdés Arias. Residente em São João da Barra, ela usou as redes sociais para dar seu testemunho (confira aqui) sobre o que ocorre de fato em seu país:

 

 

Arleny Valdés Arias, médica cubana (Foto: Facebook)

13 de julho de 2017. Eu desertei de meu país. Hoje fazem exatamente 4 anos que decidi não voltar a Cuba, quando meu contrato acabou no Programa Mais Médicos. Foi uma decisão difícil porque estava ciente que meu governo tomaria medidas contra mim pela decisão de viver diferente, de decidir por mim e pelo bem de minha família e não deixar mais eles decidirem onde e como devo trabalhar.

Foi o dia que decidi deixar de ser propriedade de um governo que hoje reprime seu povo que está nas ruas pedindo liberdade de forma pacífica. Lembro que solicitei ao meu governo renovar meu contrato no Brasil, ainda eles ficando com 85% de meu salário. Mas a resposta foi que meu relacionamento com os munícipes da cidade onde eles me enviaram a trabalhar era muito forte e isso era risco para eu desertar. Mais uma vez me trataram como propriedade, eu deveria trabalhar e não me envolver? Eu deveria simplesmente ser mais um objeto que eles utilizam?

Hoje meu coração está apertado pelos meus irmãos cubanos, pelo meu povo que com coragem está na rua porque não aguenta mais não poder se expressar e viver com as necessidades básicas cobertas. Meu povo que está sendo reprimido pelo mesmo Exército que deveria defendê-los, meu povo que enfrenta com palavras, valentia e o peito aberto os militares com armas.

Eu sofri as medidas de meu país, oito anos sem poder entrar a Cuba e sem ver minha família, meus documentos muitas vezes negados, meus diplomas de estudo negados para me privar de avançar na vida.

Eu falo a vocês que eu venci e meu povo vai vencer, eu estou bem e ajudando a minha família, eu fui acolhida por um povo lindo no Brasil. Em São João da Barra, construí meu lar feliz e livre, revalidei meu diploma ainda com todos os obstáculos impostos. E essa é minha forma de mostrar que não podem ser donos de minha vida, vencendo sempre…

Meu povo cubano corajoso, seja firme. Estamos longe ajudando. E se pudéssemos estaríamos aí junto a vocês.

Meus amigos brasileiros compartilhem as notícias de Cuba, apoiem meu país. O governo bloqueou o sinal de internet para que não possam compartilhar o que acontece lá e pedir ajuda.

Vamos pedir ajuda por eles, em Cuba os direitos humanos estão sendo violentados cruelmente.

Não estou falando de direita e esquerda, não falo da política no Brasil, é uma realidade totalmente diferente. Falo hoje de vidas e pessoas que precisam de ajuda, da verdade da opressão sendo escondida pelo governo.

Viva Cuba livre!!!

Pátria e Vida!!!

 

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