Opiniões

A pedido do bispo, diálogo sobre o Afeganistão

 

Sylvester Stallone interpreta o soldado mais famoso de Hollywood ao lado dos mujahedins do Afeganistão contra a União Soviética, em “Rambo 3”, de 1988

 

 

A pedido do bispo, diálogo sobre o Afeganistão

Por Aluysio Abreu Barbosa e João Monteiro Pessôa

 

Cinéfilo, dotado de grande cultura e bispo católico da Administração Apostólica São João Maria Vianney, Dom Fernando Rifan me pediu uma análise. Sobre como o filme “Rambo 3” (1988), estreado por Sylvester Stallone e dirigido por Peter MacDonald, explica a crise do Afeganistão. Que dominou o noticiário do mundo, após a vergonhosa retirada das forças militares dos EUA do país asiático, onde ficaram por 20 anos. Com o grupo fundamentalista islâmico dos talibãs assumindo o poder em menos de 20 horas.

 

 

O pedido do bispo se deu em grupo de WhatsApp que o blog Opiniões, hospedado no Folha1, divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Que lá tentei atender. E, para superar as minhas muitas limitações, o fiz chamando também ao debate o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF-Guarus e outro integrante do grupo.

Antes de refugiados afegãos despencarem dos céus, caindo de aviões em que tentavam a fuga do próprio país, João confirmou ser profundo conhecedor de história militar e geopolítica. Ele já havia previsto, no Afeganistão, a repetição de erros estratégicos dos EUA. A despeito da apreensão que estes fizeram e fazem dos ensinamentos táticos ofertados em batalha por seus eventuais inimigos.

 

 

“Sim, Dom Rifan, com o Afeganistão de volta ao noticiário do mundo, após a retirada vexatória dos EUA e a retomada rápida do país pelos talibãs, a lembrança ao filme ‘Rambo 3’ é oportuna. O primeiro filme da franquia sobre o fictício veterano do Vietnã, de 1982 e dirigido por Ted Kotcheff, fez bastante sucesso. Tanto que o ex-ator Ronald Reagan, em seus tempos na Casa Branca, se aproximou do colega Stallone para tentar ‘domesticar’ seu personagem.

 

Nos anos 1980, o encontro na Casa Branca entre os atores Sylvester Stallone e Ronald Reagan, quando este interpretava o papel de presidente dos EUA

 

“Assim, se ‘Rambo 1’ abordava criticamente o tratamento que os EUA davam aos veteranos do Vietnã, ele se torna um leal ‘patriota’ acrítico nos filmes seguintes. Em ‘Rambo 2’ (1985), dirigido por George P. Cosmatos, o protagonista tenta ganhar a guerra perdida no sudeste asiático. E, em ‘Rambo 3’, ele se alia aos mujahedins (‘guerreiros santosְ’ do Islã) que atuaram na 1ª Guerra do Afeganistão (1979/1989) contra o ‘grande Satã’ da União Soviética.

 

Tropas da União Soviética se retiram do Afeganistão, em 1989, após 10 anos ocupando do país (Foto: Ria Novosti)

 

“A retirada russa, após 10 anos de ocupação do país montanhoso e rural, foi uma das causas para a queda e dissolução da URSS, em 1991. Da Arábia Saudita, Osama bin Laden foi um dos tantos jovens religiosos recrutados no mundo islâmico, com apoio da CIA, para resistir à invasão da União Soviética ateia e comunista, em nome de Alá. Assim, é correto dizer que Rambo lutaria ao lado de Bin Laden no Afeganistão de 1988, se a ficção fosse realidade.

 

Osama bin Laden nas montanhas do Afeganistão

 

“A Al-Qaeda teve sua célula máter nas ações do EUA contra o inimigo comum soviético no Afeganistão, antes de se voltar contra quem a criou, nos atentados às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Como o Iraque de Saddam Hussein foi também armado pelos EUA, inclusive com tanques brasileiros da Engesa, para enfrentar o regime dos aiatolás dos seus vizinhos, na Guerra Irã-Iraque (1980/1988). Antes de também se tornar inimigo dos EUA, a partir da invasão do Kuwait em 1990. Que levou à primeira Guerra do Golfo em 1991.

 

Cenário de campos de petróleo incendiados e carcaças de blindados iraquianos abandonados marcou a 1ª Guerra do Golfo, em 1991

 

“Constatado isso, tenho que concordar com o que o historiador João Monteiro Pessôa já disse no grupo: apesar de apreenderem as lições táticas ofertadas por seus inimigos, como a adoção da blitzkrieg alemã que revolucionou a própria maneira de lutar na II Guerra Mundial (1939/1945), os EUA permanecem repetindo os mesmos erros estratégicos. Que cometem desde o sapeca-iá-iá que tomaram na Guerra do Vietnã (1955/1975). Daí a incrível semelhança entre as retiradas de Saigon e Kabul.

 

Após a retirada das tropas dos EUA, mesmas cenas da tentativa de fuga desesperada e em massa na Kabul de 2021 e na Saigon de 1975

 

“Sem contar as virtudes militares próprias de quem, como o Vietnã, lutou na sequência e sem levar a pior contra Japão, França, EUA e China, se credenciando como a mais brilhante infantaria do século 20. Ou do Afeganistão, que resiste às invasões estrangeiras desde Alexandre Magno, no século IV a.C. Antes de derrotar o Império Britânico no auge do poder, nas três Guerras Anglo-Afegãs dos séculos 19 e 20. Para bater mais recentemente a URSS e os EUA”, disse eu, atendendo ao pedido de análise de Dom Rifan. Ao que João complementou:

 

Nos arredores de Kabul, peças de artilharia do Afeganistão tomadas pelo Exército Britânico em 1879, antes de ser expulso do país na 2ª Guerra Anglo-Afegã (1878/1880)

 

“Uma reflexão sobre a dimensão do fracasso dessa retirada de Kabul, que ecoou a queda de Saigon de várias maneiras. Os EUA retiraram as tropas combatentes do Vietnã em janeiro de 1973, daí para frente só deram apoio indireto ao governo do Vietnã do Sul. Ainda assim, o governo do Sul se aguentou mais de 2 anos no poder, até a ofensiva final do Vietnã do Norte dominar Saigon em maio de 1975.

“Os russos ocuparam o Afeganistão por uma década, entre 1979 e 1989. Ao se retirarem, deixaram um governo fantoche pró-comunista à frente do país, que sobreviveu até 1992, durando mais tempo que a própria URSS, extinta no Natal de 1991. Os EUA ocuparam o Afeganistão por 20 anos, desde 2001. Torraram um trilhão de dólares nessa aventura, trilhão com T! E deixaram um governo que se desintegrou antes mesmo da data final para retirada, estabelecida para o dia 31 deste mês. Nessa perspectiva, o fracasso estratégico é tão grande que chega a ser difícil mensurar”.

“Allahu Akbar” (“Deus é grande”), ecoam os afegãos na imensidão da Ásia, do alto do Himalaia, maior cordilheira de montanhas da Terra. Na planície goitacá, o bispo católico não diria diferente do mesmo Deus de Abraão. A diferença está na visão fundamentalista dos talibãs da revelação de Muhammad (Maomé), alfabetizado pelo Arcanjo Gabriel na fundação da Civilização Islâmica. Que, do século 7 para cá, não passou por Renascimento, Reforma, Revolução Inglesa, Americana, Francesa ou Russa. E, a despeito dos seus pecados, não está disposta a dizer amém à Civilização Ocidental. Nem por bem, nem por mal.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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