Opiniões

Cesar Maia: RJ e “fracasso total” do governo Bolsonaro

 

Com quase três anos de governo federal, o fracasso é total. Caberá ao próximo presidente recuperar a economia brasileira”. Ex-prefeito do Rio de Janeiro, onde hoje é vereador, Cesar Maia (DEM) deu seu diagnóstico como economista logo na abertura desta entrevista à Folha da Manhã, com respostas curtas, mas nem por isso menos contundentes. Como o agravamento da crise econômica no país, para ele não é o mercado que está desembarcando do governo Jair Bolsonaro (sem partido), mas “Bolsonaro que desembarcou do mercado”.

Pai do ex-presidente da Câmara Federal, o deputado licenciado Rodrigo Maia (sem partido), defendeu o fato do filho não ter aberto nenhum dos mais de 100 pedidos de impeachment presidencial: “sem chance de alcançar os 2/3 seria fortalecer Bolsonaro”. Sobre a eleição a governador do Rio em 2022, cargo que disputou e perdeu para Anthony Garotinho (hoje, sem partido) em 1998, Maia vê hoje “um quadro imprevisível”. Só aposta que a onda bolsonarista de 2018, que elegeu Wilson Witzel (PSC) governador, “não se repetirá agora”. Ele elogiou seu sucessor na prefeitura carioca, Eduardo Paes (PSD). Sobre o governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, admitiu: “não estou acompanhando de perto”. Mas ressalvou: “talvez ele tenha se precipitado na aproximação pragmática com o governador” Cláudio Castro (PL).

 

Cesar Maia (Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Economista, como vê e projeta o Brasil com volta da inflação, aumento dos juros, do dólar, da cesta básica, dos combustíveis e da energia elétrica, crise hídrica, 14,4 milhões de brasileiros desempregados, 35,6 milhões de outros na informalidade, prejuízos nas lavouras e pecuária de leite, fuga dos investidores internacionais, maior retração da produção industrial desde julho de 2015, queda das bolsas e do PIB?

Cesar Maia – A pergunta já traz a resposta. Com quase três anos de governo federal, o fracasso é total. Caberá ao próximo presidente recuperar a economia brasileira.

 

Folha – Como avalia a atuação de Paulo Guedes no ministério da Economia?  À exceção da reforma da Previdência, cujo crédito se deve muito à atuação do seu filho e então presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, o governo Jair Bolsonaro cumpriu a agenda liberal que usou para se eleger em 2018?

Maia – Conheci bem o Paulo Guedes, um importante economista liberal. Creio que, ao assumir o ministério da Economia, ele se encantou com a função. E passou a atuar de forma pragmática para se manter na cadeira. As crises econômica e fiscal que acompanharam o governo Dilma impuseram a reforma da Previdência. Sem elas, essa reforma não viria.

 

Folha – Com as ameaças de invasão ao STF e ao Congresso, nas convocações às manifestações de 7 de setembro, centenas de entidades dos setores produtivo e financeiro assumiram a defesa da democracia. O mercado desembarcou do governo Bolsonaro?

Maia – Melhor seria dizer que Bolsonaro desembarcou do mercado.

 

Folha – Como avalia as manifestações de 7 de setembro e 12 de setembro? Considera as primeiras uma tentativa frustrada de golpe, redundando no recuo do dia 9, na nota redigida pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) e assinada por Bolsonaro? E quanto aos atos de domingo (12), contra o presidente, foram esvaziadas pelo boicote do PT e Psol?

Maia – Nunca se viu um golpe de estado com data marcada. Na verdade, foi um blefe. Mas serviu para mostrar a força das instituições construídas em 1988 pela Constituição. As manifestações antibolsonaristas foram proporcionais às expectativas de cada um dos segmentos. Quanto o refluxo do PT e do Psol, é uma clara demonstração disso.

 

Folha – Nome mais bem avaliado nas pesquisas entre as opções para tentar furar a polarização Lula/Bolsonaro nas eleições de 2022, Ciro Gomes (PDT) disse à Folha FM 98,3, no dia 10, que o PT não quer o impeachment do presidente, por apostar no segundo turno contra ele como sua melhor chance de voltar ao poder. Concorda?

Maia – A fragilidade da política brasileira nos ensina a não antecipar as eleições. No segundo semestre de 2022, se poderá avaliar com maior precisão esse quadro. A declaração de Ciro, de que Lula e o PT não quereriam o impeachment de Bolsonaro, responde à sua própria condição de candidato declarado a presidente no próximo ano.

 

Folha – Após as ameaças de Bolsonaro no 7 de setembro, Rodrigo Maia disse: “O presidente estourou a corda e não há retorno”. Licenciado como deputado para ser secretário no governo paulista de João Doria (PSDB), seu filho é criticado por não ter aberto nenhum dos mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Ele errou ou acertou? E o sucessor dele, Arthur Lira (PP/AL)? 

Maia – Iniciar um processo de impeachment sem chance de alcançar os 2/3 seria fortalecer Bolsonaro. No dia seguinte a oposição estaria fragilizada. A presidência da Câmara por Arthur Lira responde à base que lhe dá sustentação heterogênea.

 

Folha – E o quadro econômico do estado do Rio, que desde 2017 só paga suas contas graças ao regime de recuperação fiscal com a União? O que esperar da partilha dos royalties do petróleo, aprovada pelo Congresso em 2013 e, desde então, suspensa por uma decisão liminar monocrática do STF, da ministra Cármem Lúcia?

Maia – A falência do estado do Rio criou um beco sem saída. Fato superado. Agora é planejar e executar bem e evitar a contaminação eleitoral. Não há nem ambiente nem apoio majoritário para alterar a partilha dos royalties nesta Legislatura.

 

Folha – Como viu a venda da Cedae, um dos últimos ativos fluminenses, que rendeu mais de R$ 22 bilhões? São R$ 7,688 bilhões distribuídos pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, e R$ 14,478 bilhões ao Governo do Estado. Como e onde investir? E qual a sua avaliação do governo Cláudio Castro?

Maia – A execução dos bilhões que virão precisa ser bem planejada. A confusão com o período eleitoral deve prejudicar. Todo o processo de preparação das ações, licitações, indicam que mais da metade desses recursos só poderá ser efetivada no próximo governo. Senti a falta de recursos para ciência e tecnologia, portanto, a falta de uma visão estratégica.

 

Folha – E a disputa ao Palácio Guanabara em 2022? Como avalia as chances entre os nomes postos: Castro, os deputados federais Marcelo Freixo (PSB) e Paulo Ganime (Novo), o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT) e o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz? Crê na candidatura do vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB)?

Maia – As pesquisas divulgadas mostram um quadro imprevisível.  Ainda são metade dos eleitores sem escolha efetiva. Há que se esperar pelo menos a janela de março, que vai movimentar os partidos. Impossível fazer uma análise neste momento, enquanto o quadro de candidatos não estiver definido.

 

Folha – Também à Folha FM, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, garantiu que não será candidato a governador em 2022. E gostou da analogia de que, na disputa por seu apoio, ele será a “noiva preferida” dessa eleição. O que foi confirmado, também à Folha, por Castro, Neves, Ganime e até Freixo. Vereador carioca, como vê a nova gestão Paes, que começou como seu subprefeito da Barra, e o papel dele na eleição a governador?

Maia – O prefeito Eduardo Paes está indo bem. Ter seu caixa reforçado bem antes da sua reeleição vai ajudar. Poderá pensar com rigor a aplicação desses recursos. Acho que Paes não se envolverá diretamente na campanha de governador. Creio que vai priorizar fazer boas bancadas de apoio legislativo.

 

Folha – O senhor não se elegeu ao Senado em 2018, mesmo com duas vagas, preenchidas na onda bolsonarista por Flávio (hoje, Republicanos) e Arolde Oliveira (PSD), falecido por Covid em 2020. Foi a mesma onda que elegeu Wilson Witzel governador, até o impeachment de 30 de abril. Com o recuo dessa onda, e até Castro agora querendo fugir da pecha de “bolsonarista”, o que a ressaca deixou ao RJ?

Maia – Mesmo com o apoio dos Bolsonaro ao Arolde, perdi por uma diferença mínima. A hora não era a melhor. O quadro eleitoral é muito diferente agora, a começar pela avaliação popular do presidente. No estado do Rio, essa onda não existe neste momento. A onda de 2018 não se repetirá agora.

 

Folha – À distância, como vê o governo Wladimir Garotinho em Campos?

Maia – Confesso que não tenho acompanhado de perto a gestão do prefeito de Campos. Mas talvez ele tenha se precipitado na aproximação pragmática com o governador.

 

Folha – Em série de 11 painéis publicados pela Folha entre julho e setembro de 2020 (confira aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui), ouvindo 34 representantes diversos da sociedade civil organizada sobre a crise financeira de Campos, três alternativas foram consensuais: resgate da vocação agropecuária do município, parceria deste com o polo universitário da cidade e adoção integral do pregão eletrônico nas compras públicas. Como as avalia?

Maia – Seria fundamental que o polo universitário de Campos ganhasse destaque com recursos e autonomia. O futuro está na ciência e tecnologia. O quadro é completamente diferente agora, inclusive o agronegócio.

 

Folha – Filiado ao PCB e preso pela ditadura militar em 1964, o senhor foi exilado político no Chile em 1968, onde se formou em economia, casou e teve filhos. Voltou ao Brasil em 1973 e à política com Leonel Brizola, no início dos anos 1980, como seu secretário estadual de Fazenda. Foi deputado federal constituinte e se reelegeu, antes de mudar ideologicamente com a queda do “socialismo real” e da União Soviética em 1991. E se elegeu três vezes prefeito do Rio, realizando governos considerados liberais. Personagem da Nova República, com suas idas e vindas, como reage a quem diz que ela morreu?

Maia – Agradeço por listar com precisão minha biografia. Com a experiência acumulada creio que tenho muito a ajudar o meu estado. Talvez o maior sucesso que tive foi como secretário estadual de Fazenda, que me deu uma ampla visão estadual.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Jacaré com cobra d’água — Eleição a governador do RJ

 

Cláudio Castro, Eduardo Paes, Marcelo Freixo e Rodigo Neves (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Orlando Thomé Cprdeiro, consultor em estratégia

Jacaré com cobra d’água

Por Orlando Thomé Cordeiro

 

Os atores que estão buscando se viabilizar para entrar em campo no jogo eleitoral em 2022 andaram algumas casas nas últimas semanas.

O governador Cláudio Castro, dando continuidade a seu trabalho de articulação com prefeitos e prefeitas, tem marcado presença em diversas solenidades onde formaliza o repasse de recursos aos municípios, principalmente aqueles decorrentes do leilão da Cedae. Na semana passada foi a vez da capital.

Chamou à atenção o clima de absoluta cordialidade e simpatia entre o prefeito Eduardo Paes e o governador. Em nada lembrava os momentos de refregas que marcaram a relação entre os dois no primeiro semestre, com troca de estocadas nas redes sociais. Na solenidade, eles pareciam quase amigos de infância. O que mudou?

Vamos recordar que no início do ano o governador estava em tratativas avançadas para sair do PSC e ingressar no PSD. Tudo parecia caminhar bem, mas em maio ele foi surpreendido com a divulgação da filiação de Paes ao PSD pelas mãos de seu presidente nacional, Gilberto Kassab. Diante dessa notícia, só restou a ele buscar abrigo em outra legenda, no caso o PL.

E a disputa era tão evidente que ambos se filiaram às suas novas legendas no mesmo dia, 26 de maio, em solenidades públicas, sendo que a do governador foi em Brasília com a presença do presidente Bolsonaro. Desde então, começaram a rivalizar na busca de apoio para seus projetos eleitorais, com o governador se apresentando como o candidato do presidente e o prefeito lançando a candidatura de Felipe Santa Cruz, presidente nacional da OAB.

Além desses citados acima, são públicas as pré-candidaturas de Marcelo Freixo e Rodrigo Neves. O primeiro, muito conhecido por anos de militância no Psol, resolveu se filiar ao PSB em um movimento para tentar atrair o eleitorado mais ao centro. Já o segundo saiu da prefeitura de Niterói muito bem avaliado, inclusive elegendo seu sucessor, mas que ainda é pouco conhecido da maioria da população.

Aparentemente, esse era o cenário de candidaturas que se desenhava, sem nenhuma novidade à vista, mas nada como um dia após o outro, com a noite no meio. O crescimento acentuado da desaprovação de Bolsonaro tem gerado novas movimentações do governador no sentido de tentar se desvencilhar da pecha de bolsonarista.

Essa talvez seja a explicação para estarmos presenciando a retomada da narrativa utilizada por ele durante o período em que assumiu o governo interinamente, quando se apresentava como um gestor exclusivamente preocupado em promover um grande pacto em defesa da recuperação do estado.

Somem-se a isso os constantes recados enviados por articuladores políticos de seu entorno ressaltando que, por estar impedido de concorrer à reeleição, apoiá-lo em 2022 não prejudica os concorrentes que teriam a pista livre em 2026.

Recentemente, fiquei sabendo por fontes muito próximas ao governador que seu sonho de consumo é formar uma chapa com um candidato a vice-governador indicado pelo prefeito Eduardo Paes e ter o deputado estadual André Ceciliano, do PT, como candidato ao Senado. Neste sentido, do ponto de vista deles, seria natural uma ampla aliança sem vinculação obrigatória com a disputa presidencial. Cada um faria a campanha para o candidato a presidente de seu partido, mas todos estariam juntos no palanque estadual.

Para quem não se lembra, já tivemos situações semelhantes na história política recente. Quem não se lembra que nas eleições de 2006, em MG, foi criada a chapa Lulécio, juntando Lula para presidente e Aécio para governador. Já em 2014 tivemos no RJ o Aezão, com Aécio presidente e Pezão governador.

Ainda no terreno das lembranças, no mês passado viralizou um vídeo do ex-prefeito de Maricá, Washington Quaquá, do PT, em que agradecia os recursos do governo do estado para aquele município, falando “É Lula e Castro em 2022”.

Outro elemento relevante numa eventual composição a ser liderada por Cláudio Castro é a indicação para a próxima vaga a ser aberta no TCE-RJ em razão da possível aposentadoria compulsória do conselheiro Aloysio Neves. Com os deputados estaduais Marcio Pacheco (PSC) e Rosenverg Reis (MDB) aparecendo como candidatos mais fortes.

Caso essas articulações prosperem, o principal prejudicado seria Freixo. Afinal, cairia por terra todo seu esforço para articular uma chapa agregando o PT do ex-presidente Lula, outros partidos de esquerda e partidos de centro, de forma a evitar repetir a situação vivida por ele em eleições majoritárias que disputou anteriormente: chegava ao segundo turno, mas acabava derrotado.

Claro que ainda falta mais de 1 ano para o pleito e muita água ainda vai passar debaixo dessas pontes. Porém, não se pode descartar a possibilidade de que essa chapa seja construída. Seria mais um casamento de jacaré com cobra d’água. 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Lágrimas na chuva — Centenário da vida do Mestre Ziza

 

Zizinho, o Mestre Ziza

Na última terça, se fosse vivo, Thomaz Soares da Silva teria completado 100 anos. Nasceu em São Gonçalo, morou e viveu em Niterói. De onde atravessava a Baía de Guanabara nas barcas, em um tempo antes da Ponte Rio/Niterói, para brilhar no futebol carioca, brasileiro e do mundo. Considerado o jogador mais completo antes de Pelé e único ídolo nos campos assumido por este, passaria a história como Zizinho, ou Mestre Ziza. Prejudicado pela II Guerra Mundial (1939/1945), foi eleito pela imprensa internacional como grande craque da única Copa do Mundo que jogou, no Brasil, em 1950. Preterido injustamente na Copa de 1954, na Suíça, viu surgir nesta seu sucessor, como camisa 8 e cérebro da Seleção Brasileira: o campista Didi.

Dois maiores meias direita da história do futebol brasileiro: Zizinho e seu “herdeiro” Didi

Fã de Didi, meu pai, o jornalista Aluysio Barbosa, viu ambos jogarem. E morreu em 2012 sem nunca decidir, entre os dois, quem foi o maior meia armador da história do futebol brasileiro. Mas o velho Aluysio não tinha dúvida em testemunho que sempre me impressionou. Para ele o grande craque de todos os tempos do Flamengo não era Zico, mas Zizinho. E, sabendo por conta própria o que foi o Galo ao Rubro-negro, me perdia desde criança na vertigem de tentar imaginar o que pudesse estar ainda acima.

Só na noite de terça vi o aviso do editor de Esportes da Folha, Matheus Berriel, sobre o centenário de Zizinho naquele mesmo dia. Já era tarde para a edição impressa de quarta, mas não para assistir a um documentário, produzido e exibido pela ESPN Brasil, no finalzinho da terça. Emocionei-me, às lágrimas, vendo o especial sobre os 100 anos de Zizinho. Gênio antes da TV, cujo teto da Sistina não vemos e 9ª Sinfonia não escutamos. Herói trágico e esquecido, talvez por isso ainda mais belo, de um país sem memória.

Não por outro motivo e antes tarde do que nunca, republico hoje um texto que escrevi para este mesmo jornal, em 17 de fevereiro de 2002, nove dias após a morte do Mestre, sobre uma tabela que a vida nos deu:

 

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade”

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

 

“Vi coisas que vocês nem imaginariam.

Vi naves em fogo na encosta de Orion.

Vi raios cósmicos cingindo o espaço em Tanhauser Gate.

E esses momentos ficarão perdidos para sempre…

como lágrimas na chuva”

(Do filme “Blade Runner”)

 

Heróis do meu pai: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode em pé; Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo agachados

 

Lágrimas na chuva

 

Sou filho de um adolescente de 14 anos, cuja grande frustração foi não ter ido, junto com seu pai e irmão mais velho, à final da Copa de 1950, em 16 de julho, no recém-inaugurado Maracanã. Daqui de Campos, pelo rádio, o garoto (?) vibrou com o primeiro gol do jogo, de Friaça, que certamente abriria a contagem para mais uma goleada, igual às dos dois últimos jogos — 7 a 1 sobre a Suécia, campeã olímpica de 1948, e 6 a 1 diante da Espanha, quando um coro demais de 200 mil pessoas cantava “Touradas de Madri” das arquibancadas.

O belo gol, emendando de primeira, de Juan Alberto Schiaffino — cracaço da Celeste Olímpica, integrante da lista oficial dos dez maiores camisa 10 que o mundo já viu, mesmo 50 anos após sua maior conquista — fez com que meu velho (?) e toda uma nação despencassem de nuvens soberbas com a cara no chão, passando a torcer como doidos pelo empate que garantiria o título. Dez minutos mais tarde, aos 34 do segundo tempo, após uma arrancada pela direita, veio aquele chute fatal de Ghiggia, quase sem ângulo, entre Barbosa e a trave. Que selou a história que todo brasileiro já ouviu falar e os uruguaios, chamando-a “Maracanazzo”, até hoje se ufanam ao contar.

 

Gol de Alcides Ghiggia, sem ângulo, que selou a maior derrota do Brasil no Maracanã: 2 a 1 ao Uruguai, na final da Copa de 1950

 

Com a dimensão, desde muito novo, desse fantasma do imaginário nacional, “tragédia maior que a de Canudos”, nas palavras de Nelson Rodrigues, me interessei pela história até esgotar as narrações de meu pai. Além, passei a ler o que me caísse à mão sobre aquele grande time marcado pela fatalidade. Tomei ciência, por exemplo, de que nosso scratch — para usar um anglicismo recorrente à crônica da época — era regido por um meia direita que a crítica internacional, aqui presente pela Copa, elegeu como jogador mais completo que já havia surgido no mundo até então: Zizinho, o Mestre Ziza.

E olha que naquela Copa ainda jogaram, além de Schiaffino, craques do porte do também uruguaio Julio Perez, do iugoslavo Rajko Mitic, do inglês Stanley Matthews, além dos próprios brasileiros Jair Rosa Pinto, Ademir Menezes, Danilo e Bauer. Como disse nosso tacanho Felipão e o Fernando Calazans vive satirizando em sua coluna: eram aqueles (bons) tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.

Quando Péris Ribeiro, amigo daquele adolescente de 1950, lançou seu “O Brasil e as Copas”, em 1986, me presenteou, além dele, com um livro sobre a vida do Mestre Ziza, cujo título e autor não recordo, pois fiz a besteira de depois emprestá-lo. O primeiro livro me deu a base histórica de todo deslumbramento que colhi em 1982, nos injustos gramados de Espanha, com Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Luisinho, Cerezzo e cia. — “Maracanazzo” da minha geração. Já o segundo, me proporcionou a dimensão completa daquele grande mestre do futebol de que tanto ouvira falar.

 

Flamengo Tricampeão de 1944: Jurandir, Newton, Quirino, Valido, Jaime, Bria, Pirilo, Zizinho, Tião, Biguá e Vevé

 

Zizinho pelo São Paulo e seu fã Pelé, pelo Santos

Além da tragédia épica de 50, descobri ter sido Zizinho o grande ídolo de Pelé e, muito mais importante, herói da primeira grande conquista de meu time, construída ao lado de gente como Domingos da Guia, Jurandir, Biguá, Valido e Vevé: o tri estadual do Flamengo de 1942/1943/1944. Vendido ao Bangu numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas, foi depois, já velho, jogar pelo São Paulo, ao qual conduziu ao título estadual de 57.

Algum tempo depois, quando Péris lançou seu “Didi, o gênio da folha seca”, em 1993, numa livraria do Leblon, fui ao Rio prestigiar o amigo. Comigo foram Luiz Costa — que cobriu o evento pela Folha — e Adelfran Lacerda, todos conduzidos pelo hábil volante (de carro) Leonardo Moreira. Pegando chuva desde Rio Bonito, chegamos ao Rio e paramos em Copacabana, para apanhar Christiano, meu irmão, então estudante universitário da PUC/RJ.

Ouvindo as impagáveis histórias de Leonardo, fui durante a viagem me preparando psicologicamente para o encontro cara a cara com o campista Didi, maior jogador da Copa de 1958, na Suécia, nosso primeiro Mundial; bicampeão pela Seleção, em 1962, no Chile; e, não fosse mais nada, herdeiro de Mestre Ziza. Aí eu entro na livraria e vejo não só Didi, mas também Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Vavá, Belini, Gerson, Afonsinho e… Zizinho.

Num dos poucos momentos em que despertei do meio transe no qual permaneci durante quase todo o coquetel, em meio a todos aqueles semideuses da bola, vi Luiz Costa indagar a Zizinho: “Você foi tido em sua época como o maior jogador do mundo e muitas pessoas hoje não têm essa dimensão. A que credita isso?”.

Ele respondeu: “O Brasil não sabe preservar sua história. Os jovens de hoje só querem saber de ouvir música americana no rádio e ver televisão. E eu não joguei na época da televisão!”.

A amargura do ídolo entrou pelo meu ouvido e ficou como fel salivando na boca. Talvez por isso não tenha tirado os olhos dele até que saísse do evento, acompanhado da esposa. Passaram pela porta, e, enquanto ela abria a sombrinha para protegê-los da chuva, enfrentei a timidez, saí também, me dirigi a eles e gritei: “Zizinho!”.

Ele se virou. Eu disse: “Ouvi o que você falou lá dentro para o repórter. Pois eu sou jovem, gosto de música americana, mas ouvi e li muito sobre você. Você foi o melhor do mundo, jogou no meu time e foi campeão por ele. Nunca te vi jogar, mas você é um dos meus ídolos no futebol”.

Em meio à chuva fina, olhos marejaram e sorrisos se revelaram. Nos demos as mãos e o cumprimento virou um abraço. Após, ele deu um tapinha paternal na minha face e disse: “Valeu, garoto!”. Virou-se pela última vez, se abraçou à mulher, que também sorria com olhos infiltrados, e juntos saíram pela noite chuvosa, caminhando com a mesma classe que sempre atribuí, em minha imaginação, às suas passadas nos campos.

O Mestre morreu, mas nunca vou esquecer essa tabela que a vida nos deu.

 

Página 12 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Prefeitura de Campos inaugura sala Marcelo Lessa Bastos

 

Promotor de Justiça Marcelo Lessa Bastos (Foto: Folha da Manhã)

 

Será inaugurada às 10h de hoje (16), na Procuradoria Geral do Município, na sede da Prefeitura de Campos, a sala Marcelo Lessa Bastos. É uma homenagem do prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e do vice-prefeito, Frederico Paes (MDB), ao promotor de Justiça carioca que marcou época em Campos, morto aos 51 anos no último dia 14 de agosto, vítima de um choque séptico. Sua viúva Viviane e os filhos Maria Fernanda e Gabriel convidam a todos.

Abaixo o convite oficial feito por Wladimir e Frederico:

 

 

Ciro analisa Campos, RJ e Brasil entre Lula e Bolsonaro

 

Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Se há espaço para uma terceira via na eleição presidencial em 2022, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) tenta abri-lo com a contundência que se tornou sua marca em 40 anos de vida pública. Sem meias palavras na entrevista ao vivo da manhã de ontem (10), no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, ele afirmou que Bolsonaro “é um bandido na presidência da República” e representa “a milícia da periferia do Rio de Janeiro que foi ao poder deslumbrado em Brasília”. Da mesma maneira, não poupou o PT: “virou uma organização criminosa”. Tampouco o maior líder do partido, a quem serviu como ministro da Integração Regional entre 2003 e 2006, ao lembrar da “corrupção levada pelo Lula ao centro do modelo de poder no Brasil”. Embora considere Bolsonaro “corrupto”, assim como sua família, e “coordenador do caos social e econômico” do país, o cearense ressalvou: “Não foi ele que criou essa crise, mas ele está agravando tudo”, atribuindo a origem dos graves problemas nacionais ao lulopetismo. Inclusive nas fake news que o partido usou contra sua ex-correligionária Marina Silva (Rede), nas eleições presidenciais de 2014, e que já retoma na pré-campanha de 2022, enquanto acusa o bolsonarismo de produzi-las. Crítico também à esquerda identitária, mas não às suas pautas, o presidenciável propõe conciliá-las com a população mais pobre, no atendimento às suas demandas reais, com respeito à “sabedoria das suas expressões morais e religiosas” e ao trabalho social realizado pelos pastores evangélicos. Ciente da realidade fluminense e goitacá, Ciro respeitou as posições dos pedetistas de maior destaque nas duas esferas. Chamou Caio Vianna de “um grande companheiro” e bateu o martelo a governador: “o meu candidato no Rio de Janeiro chama-se Rodrigo Neves”.

 

(Foto: Divulgação)

 

Folha da Manhã – Na manhã do dia 8, o senhor disse em entrevista ao UOL que o Brasil era outro. Dois dias depois, o que é o Brasil do dia 10?

Ciro Gomes – Continua sendo outro, porque o dia 7 foi uma disruptura muito grave para quem acompanha com responsabilidade a vida brasileira. O que aconteceu foi uma tentativa real de golpe, que fracassou. Se dependesse dos planos delirantes do Bolsonaro, o Brasil estaria chorando, hoje, alguns cadáveres; nós teríamos o constrangimento de termos assistido à invasão de prédios institucionais relevantes, simbólicos do Estado de Direito Democrático. Só a polícia do Distrito Federal teve que reprimir 28 tentativas de invasão ao Supremo Tribunal Federal; o Senado da República suspendeu as sessões por uma semana, e o país todo ficou em sobressalto. Isso se revelou também nos indicadores da economia. Nossa moeda desvalorizou pesadamente; a bolsa de valores, onde especulam os ricos do país, tomou um tombo que não recuperou ainda; e fica como rescaldo a constatação óbvia de que nós temos na presidência da República um celerado. Infelizmente, é uma palavra muito dura, muito difícil de alguém com a minha responsabilidade falar, mas nós temos na presidência da República o chefe da baderna e o chefe do caos social e econômico. E aqui embaixo, meu irmão, deixa eu lembrar, porque essa é a nossa responsabilidade, a economia brasileira está se deteriorando de uma forma que eu nunca vi. Eu fui ministro da Fazenda (do governo Itamar Franco), eu ajudei a fazer o Plano Real; e a inflação brasileira do atacado hoje passa de 32%. Ela que mexe com as tarifas de energia, ela que mexe com o aluguel do povo. Além da política estratégica da Petrobras, de que Campos dos Goytacazes é vítima grave disso também, é um crime. O lucro distribuído para os ricos foi de 3.572% acima do mesmo período do ano passado. Escute o que eu estou dizendo: 3.572% de lucro. Uma empresa que, estando endividada, esse lucro deveria ter ido para abater dívida. Distribuíram às pressas, sem nenhum pagamento de tributos. Cinquenta e oito mil homicídios aconteceram no Brasil nos últimos 12 meses; 15 milhões de desempregados, 6 milhões de pessoas desistiram de procurar emprego, 63,7 milhões de brasileiros estão humilhados no SPC. Estou colocando aqui, com argumentos objetivos, aquilo que é a minha conclusão. O Bolsonaro é um criminoso que tem que ser afastado da presidência da República. Ele percebeu esse fracasso e como um pusilânime líder, como um covarde, ele abandona os seus feridos no campo da batalha. Esse é o pior tipo de covarde que pode surgir na liderança de uma luta. O Supremo Tribunal Federal vai julgar se o filho do Bolsonaro, Flávio (senador do Republicanos/RJ), merece ou não o foro privilegiado, com o qual ele tenta se livrar das acusações de desvios monstruosos do dinheiro público.  De maneira que o Brasil do dia 8 não pode mais ser o Brasil do dia 7. Nós temos que entrar numa quarta fase. Num primeiro momento, o Bolsonaro fazia loucuras, e a gente botava na conta de que é um doido, é um exótico, de que não vai acontecer nada. No segundo momento, nós partimos para o enfrentamento individual, cada partido, cada grupo. Eu mesmo apresentei um pedido de impeachment, lá atrás. No terceiro momento, ele puxou uma confrontação com o Judiciário. E, veja: o Judiciário não pode ser parte política de um conflito, porque o Judiciário, na hora que entra no conflito, já perde, porque é suposto que o acatamento que nós devemos ao Judiciário é pela distância dele, pela isenção, pela insuspeita, com distância das questões em disputa. Quando o Bolsonaro puxa o Judiciário para a arena política, e o Judiciário às vezes entra nisso, ele acaba fazendo uma disfuncionalidade grave. Por isso, a partir do dia 7, é o poder político: somos os democratas, os republicanos da direita até a esquerda. Temos o compromisso com a República e com a democracia, com o Estado de Direito. Precisamos nos reunir para fazer o crime de responsabilidade ser punido com o impeachment. Seria o quarto momento agora, sem nenhuma dúvida, porque o recuo do Bolsonaro é uma cédula de R$ 3 reais. É um covarde, “me segura”. Quando o cara solta: “me segura, senão eu não vou mais”. E é basicamente isso: um grande celerado. E aí, o que ele fez? Ele viu faltar o chão, viu que a democracia reagiu com a dureza necessária, e que se armou sobre ele, inclusive, o isolamento político, em que os estafetas dele no Congresso Nacional ficaram sem argumento, porque quase todos eles também devem contas ao Supremo Tribunal Federal, como é o caso do Arthur Lira, presidente da Câmara; o Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, e essas pessoas não acompanharam o Bolsonaro. Quando ele viu isso, ele faz um recuo covarde para tentar acumular forças. Evidentemente, está se desmoralizando. É um bandido na presidência da República.

 

Folha – Ficou muito claro de que a nota de mea culpa do presidente é do Temer, só assinada pelo Bolsonaro. Como vê essa chamada do Temer como apaziguador? Bolsonaro vai manter esse discurso quando estiver falando, não assinando papel?

Ciro – O Brasil parece ter uma bola de chumbo amarrando nosso povo no passado. Então, você vê o Michel Temer sair da catacumba, ele também um réu. O Michel Temer também é um ex-preso por roubalheira. O Michel Temer tem esse tráfico de influência na Justiça brasileira desde muito tempo, e ele é uma expressão muito clara desse Brasil antigo, viciado, corrupto. O grave e chocante aí, para quem não conhecia e está conhecendo a cada dia mais, especialmente o povo que votou no Bolsonaro enganado, é que ele prometeu que seria o antídoto contra a roubalheira, a corrupção posta como elemento central, denunciando essa mesma contradição com o PT. Lembrando que quem trouxe o Michel Temer para o centro da República, irresponsavelmente, na vice-presidência (da ex-presidente Dilma Rousseff), foi o Lula. Que, por detrás de todo esse bastidor, está nessa mesma trama. O Lula quer ver o diabo e não quer ver o Bolsonaro impedido, porque acaba também a razão de pôr a boa parte do povo brasileiro aborrecidíssima, frustradíssima com o Bolsonaro, para achar que o Lula é a única solução. Ou seja, a mesma bola de chumbo se acertando “com Judiciário, com tudo”. Lembra da frase do (ex-senador pelo MDB/RR) Romero Jucá (“estancar a sangria” da Lava Jato)? E nós precisamos levar o Brasil para o futuro, libertar o Brasil dessa bola de chumbo.

 

Folha – O senhor afirmou que Lula e o PT não querem o impeachment. A última pesquisa XP/Ipespe (feita entre 11 e 14 de agosto) deu 61% de rejeição a Bolsonaro e 45% a Lula. São duas rejeições muito altas. É por isso que Lula quer Bolsonaro no segundo turno?

Ciro – Eu não tenho nenhuma dúvida disso. Não é por uma análise distante, eu conheço bastante bem todos os personagens envolvidos. Eu fui ministro do Lula, tenho um relacionamento com o Lula há mais de 30 anos. O Bolsonaro, eu fui contemporâneo dele enquanto deputado da Câmara Federal, também conheço bastante de perto. Convivo com essas pessoas e sei como é que funcionam as tramas de Brasília. Então, vamos raciocinar juntos, porque todo o nosso povo tem capacidade de amadurecer as coisas, pois elas são muito simples quando a gente tira o véu de cima. Veja uma coisa: para fazer o impeachment do Bolsonaro, nós precisamos reunir 3/5 da Câmara Federal. A Câmara Federal tem 513 deputados. Nós, do grande grupo de partidos do centro à esquerda, somos apenas 130. Evidentemente que quem quer o impeachment do Bolsonaro tem que entender que impeachment não é remédio para governo ruim. O impeachment é uma punição grave para o cometimento de casos pensados, dizemos nós da faculdade de Direito, dolosos: ou seja, em que se quis o resultado criminoso, como é o caso claro do comportamento do Bolsonaro. E, para isso, nós precisamos avançar em direção à direita, fazer um entendimento com a direita. Não é um entendimento sobre o futuro do Brasil, não é um entendimento sobre a economia brasileira, não é um entendimento sobre o modelo econômico, porque essas nossas diferenças têm que ser feridas no ambiente da democracia, do diálogo, da paz, do respeito à diferença, que é o que está faltando ao Brasil. Eliminando o ódio e as paixões. Pois bem, existe um momento em que havia já convocado uma manifestação pelo impeachment do Bolsonaro, cuja única tese é “fora, Bolsonaro”, e que calhou de ser a resposta marcada para o dia seguinte à tentativa mais grave de golpe que a vida brasileira sofreu, numa convocação feita por um grupamento da direita (o MBL). Ora, mas nós vamos fazer o que diante disso? Vamos dizer: “não, vocês da direita vão para lá, que nós, os turistas da esquerda, estamos para cá”? Isso quer que nós não estamos realmente preocupados com o Brasil. Nós fizemos uma reunião, eu pedi pra ligar, o núcleo presidente do PDT ligou para todos os partidos. Fizeram uma reunião, e quebrou o pau lá dentro, o que o povo brasileiro não sabe. A Gleisi (Hoffmann, deputada federal e presidente nacional do PT) e, infelizmente, o Psol, que virou de novo puxadinho do PT, foram os únicos que disseram: “não, nós não vamos”. Os outros, todos entendemos. O raciocínio é óbvio: se a gente só tem 130 e precisa de 305 deputados, nós precisamos dialogar com a direita, para construir um acordo para resolver o impeachment do Bolsonaro e o país poder voltar a ter paz. E, veja: quem toma posse com o impeachment não é ninguém da oposição, não; é o general Mourão (PRTB). E, evidentemente, eu sou oposição ao general Mourão. Mas, eu volto a dizer: não é conveniência de tirar o Bolsonaro porque eu não gosto do Bolsonaro. É porque o Bolsonaro virou um criminoso; comete, sistematicamente, diante de todo o povo brasileiro, crimes de responsabilidade que vão ao constrangimento ao regular funcionamento das instituições da democracia, falta de probidade administrativa, falta de compostura para o cargo, alienação do interesse nacional a interesse de potências estrangeiras, e o crime de genocídio (da pandemia da Covid) continuar. O Brasil não consegue sair do atoleiro de não vacina, de segunda dose, porque o Bolsonaro atrasou a vacina. E agora nós estamos com documentos (na CPI da Covid) mostrando que esse atraso foi causado para permitir roubalheira na vacina. O que está faltando para o Lula se compenetrar? Nada! E o que é que o Lula está vendo? Se o jogo é uma volta ao passado, ele tem chance. Se o jogo é uma discussão do futuro, o Lula afunda nesse passado junto com Bolsonaro. Uma pergunta humilde que eu faço: existiria o bolsonarismo fanático, criminoso, se não fossem as contradições de corrupção e de desastre econômico que o Lula produziu? Setenta por cento do eleitorado do Rio de Janeiro votou (67,95% no segundo turno de 2018) no Bolsonaro. Povo maravilhoso, que nos deu muitas vitórias, muitas vezes. E agora o nosso povo todo se transformou em gado e fascista, como o lulopetismo fanatizado fala? Isso é mentira! E o purismo do Lula se acaba na letra B. Na letra A, ele diz que não faz confraternizar com MBL, mas na letra B ele está almoçando com (ex-senador pelo MDB/CE) Eunício Oliveira, presidente do Senado que fez o “golpe” (impeachment de Dilma) e a quem ele (Lula) deu um contrato de R$ 1 bilhão, sem licitação, para assaltar a Petrobras. Eu tenho documentos para tudo isso. Então, nós precisamos entender que o Brasil não aguenta mais essa redução da política ao ódio e à paixão lulopetista e bolsonarista. Temos que andar para frente.

 

Folha – No Folha no Ar do último dia 20, entrevistamos uma colega sua no ministério do governo Lula, a Marina Silva (Rede). E perguntamos sobre as fake news, que é um termo cunhado em 2016 pela imprensa dos EUA, na disputa presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton, mas que Marina sofreu do PT na eleição presidencial de 2014. E ela se mostrou ainda traumatizada com o que foi feito contra ela pelo ex-partido, acusações inverídicas, sórdidas. Agora, por exemplo, o PT já fala que “quem não quer nem Bolsonaro nem Lula, quer Bolsonaro”. O PT também investe nas fake news que acusa Bolsonaro?

Ciro – Esse é o comportamento deles. Quando você faz o que eles gostam, você é o herói do planeta. É só recuperar aí no Google a opinião do Lula sobre mim: “O cara mais real do mundo, um cara muito inteligente, um cara brilhante”. Nunca teve um amigo tão competente e tão companheiro. Ciro pra cá, companheiro Ciro pra lá. À medida em que eu reajo ao fato de que ele se corrompeu de forma feia e que montou essa estrutura de conchavo político, com o Brasil mais corrupto e atrasado em nome de um projeto eterno de poder, deixo de prestar. O Lula está com 78 anos, não é? Não desmereço a pessoa de 78 anos, mas a pergunta é: o que o Lula quer fazer, já que o povo brasileiro, tão generosamente, deu a ele a oportunidade de fazer por quatro mandatos (dois de Dilma, o último interrompido pelo impeachment), e ele não fez? Eu brinco, porque não costumo ter mau humor, nem rancor, que a única mudança que o Lula introduziu para valer no Brasil foi a tomada de três pinos. Terminou o período e não fez uma reforma. O Brasil tem um sistema tributário mais caótico do mundo e mais injusto; o Brasil tem um sistema previdenciário completamente falido; o Brasil tem um problema de ciência e tecnologia dramáticas; o Brasil destruiu sua indústria nacional: 30% do PIB brasileiro era indústria em 1980, nós éramos maior do que a China, e, na brincadeira de consumismo populista, manipulando as coisas para ganhar a eleição, sem introduzir nenhuma reforma, o Brasil, hoje, tem menos de 9% do PIB industrial. Isso tudo tem explicação: quem produziu essa crise econômica aí foi o PT, foi o Lula. O Bolsonaro tem agravado tudo isso, mas a explosão do crédito, que subiu de 15% para 55% no período do Lula, virou 63,7 milhões de pessoas no SPC. Isso é concreto. Cada brasileiro que está sofrendo isso. Existiria o (ex-governador fluminense, do MDB, preso por corrupção) Sérgio Cabral e toda a tragédia que se abateu no Rio de Janeiro, se não fosse o apoio decisivo central do Lula e do PT a esse projeto de assalto ao Rio de Janeiro? Ontem, eu cheguei no aeroporto do Galeão e não tinha ninguém. Saí do aeroporto de Fortaleza, o aeroporto lotado. Cheguei, tinha um único voo pousando no Galeão. O Rio de Janeiro está com uma crise estrutural. Quem produziu isso foi o Lula junto com Sérgio Cabral. Será que o Lula pensa que todo mundo do Rio de Janeiro é idiota? Que todo mundo esqueceu isso que aconteceu? Então, essa é a questão. E aí, eles querem relativizar. Uma coisa impressionante: como eles têm força, qual é a explicação, se a gente quer o impeachment, para a gente não abrir um diálogo com a direita? É uma explicação simples: 120 votos, 130 votos, isso é o que nós temos; 307 votos, o que nós precisamos para afastar o Bolsonaro. Então, esses votos estão na direita. Como é que nós vamos fazer? Ora, lá atrás, nós engolimos muita coisa pra redemocratizar o país com Tancredo Neves (ex-presidente, do MDB/MG, que morreu sem tomar posse). O Lula ficou contra (o PT expulsou do partido seus deputados federais que votaram em Tancredo). Pelo gosto do Lula, o (Paulo, candidato a presidente contra Tancredo pelo então PDS, partido da ditadura militar, na eleição indireta de 1985) Maluf tinha ganhado a eleição, não é? Quando nós fizemos a Constituição, o Lula ficou contra. Pelo gosto do Lula, a Constituição Brasileira não teria entrado em vigor. Quando Itamar Franco assumiu, Lula ficou contra. Pelo gosto do Lula, o Brasil tinha se desastrado. Quando nós fizemos o Real, o Lula ficou contra. Qual é a explicação? Só existe vida no Brasil se for o Lula no centro do processo? Ele cumpriu um papel, mas agora virou parte grave do problema.

 

 

Folha – A LRF também, o PT ficou contra.

Ciro – Ficou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Olha, em tudo ele ficou contra. Ele pediu impeachment do Fernando Henrique, pediu impeachment do Itamar Franco, percebe? E agora fica fazendo discurso de que é a favor do impeachment, mas sabotando profissionalmente o esforço de a gente dialogar para construir a base objetiva do impeachment.

 

 

Folha – Voltando à questão das manifestações do dia 7 de setembro e as consequências nos dias seguintes, nós tivemos reação dos presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco (DEM/MG), dos presidentes do STF e do TSE, ministros Luiz Fux e Luís Roberto Barroso. Inclusive, estas foram as reações mais fortes, porque foram as instituições mais atacadas. Tivemos também a reação da PGR, do Augusto Aras. Como analisa cada uma dessas reações?

Ciro – Ninguém duvide: o Bolsonaro planejou por três meses, jogou muito dinheiro público, muito dinheiro privado, muito dinheiro estrangeiro clandestino, mobilizou 100% da sua base para preparar o ambiente para fazer um golpe de estado e fracassou. Embora tenham sido manifestações grandes, mas fracassou. E, na medida em que fracassou, as institucionalidades da democracia, sabendo que tinha se armado um golpe, foram obrigadas, algumas, a reagir, como é o caso do Aras: preferia passar em branco e não falar nada, porque, infelizmente, tem se revelado uma pessoa completamente descuidada dos seus deveres para a República e muito alinhado à impunidade do Bolsonaro e da sua quadrilha governamental e familiar. Mas, enfim, tudo foi tão grave que todos se obrigaram a uma reação. Mais intensa ou menos intensa, mas todas tendo em comum o traço do antigolpe, da defesa do Estado de Direito Democrático. Isto é que provocou o pusilânime, viu e covarde recuar do Bolsonaro. Mentiroso, porque não é um recuo de quem, tendo cometido um erro, se desculpa. Isso é humano, é normal. Aquilo não foi um erro do calor do momento, como covardemente anunciou, ontem, assinando uma carta escrita pelo outro grande corrupto da vida brasileira, Michel Temer. Então, essa reação é muito boa. O que que o Bolsonaro está querendo fazer? É descomprimir essa correção, que nasceu a partir da tentativa frustrada de golpe. Vamos vigiar, porque, não duvide: o que o Michel Temer ofereceu ao Bolsonaro pra ele se expor de forma tão covarde e tão vil, onde os seus próprios feridos, que ele deixou no caminho e fugiu, é algum acordo. Não duvidem disso, vamos todos ficar atentos. E eu desconfio que, essa semana, o julgamento do foro privilegiado do filho dele, Flávio Bolsonaro. Porque tudo que o Bolsonaro quer é proteger a família quadrilheira dele.

 

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Folha – E os caminhoneiros fechando estradas em 15 estados, de maneira descontrolada, sem nenhuma organização, sem os líderes nacionais da categoria na greve de 2018, que denunciaram a manipulação bolsonarista? Demonstra um governo perdido? Como deu para trás, o “imbroxável” broxou?

Ciro – Não tenha nenhuma dúvida, até porque jamais foi “imbroxável”, embora eu não goste muito de frequentar esses termos para onde ele quer levar a discussão, e o Rodrigo Maia (deputado federal atualmente sem partido e licenciado para ser secretário estadual de São Paulo, que disse recentemente que Bolsonaro seria um gay não assumido) talvez tenha melhor explicação para o assunto. Mas, eu estou preocupado com as coisas sérias do Brasil. Então, o que está acontecendo é que a base do Bolsonaro está desmilinguindo. O Bolsonaro se elegeu com base em duas pernas relevantes, e ambas tinham a corrupção e o debate do lulopetismo como fundadoras. Primeira: o combate à corrupção. Segunda: a ideia de consertar a economia com o choque liberal, representado pelo tal Posto Ipiranga; o posto Ipiranga que é um grande incompetente, antes de mais nada, Paulo Guedes (ministro da Economia). Então, essa foi a estrutura do Bolsonaro: uma promessa de moralização de “nova política”, e um choque liberal que modernizaria a economia brasileira, devolvendo a nós uma condição de crescer que o PT destruiu. Vamos lembrar que 7% foi a queda do PIB em dois anos da tragédia da Dilma, que estava ali por determinação do Lula, e o Lula dando as cartas. Tanto que é ela chamou o Lula para a assumir o Governo quando teve a crise. Todo mundo lembra disso, menos o Lula, que quer que nós sejamos idiotas e esqueçamos as contradições dele. Bom, então repare: o Bolsonaro é um corrupto, a família do Bolsonaro é corrupta; agora, a ex-esposa, com o tal 04 (Jair Renan Bolsonaro), parece que comprou por debaixo dos panos, com “laranja”, uma outra mansão. Quer dizer, aquilo é a milícia da periferia do Rio de Janeiro que foi ao poder deslumbrado da República, em Brasília. Eles não têm nem sequer o pudor, estão comprando mansões. O Flávio comprou uma mansão, e uma parte é financiada com dinheiro sem origem, a outra parte é com financiamento especial de banco público. Então, é assim, é um canalhocrata que sempre foi. O Bolsonaro roubava dinheiro quando eu fui contemporâneo dele na Câmara Federal, o Bolsonaro roubava o dinheirinho do gabinete. Dinheirinho para nós, porque para o povão era muito dinheiro. O dinheiro da gasolina, o dinheiro do funcionário fantasma, o dinheiro do auxílio-moradia, o Bolsonaro roubava isso e botava no bolso, mas as pessoas não queriam ouvir, porque a corrupção do Lula foi trágica, profunda, foi generalizada. Ninguém pode fazer de conta que o (ex-ministro Antonio) Palocci foi um acidente. Palocci era braço direito, fundador do PT, quem dava as cartas no governo do Lula, e fez uma confissão. E o povo não sabe, mas o Palocci devolveu R$ 100 milhões roubados, e, na delação, ele conta a história de como é que repartiu o dinheiro com o Lula e com os outros. Agora, chegou para mim a delação premiada do filho do outro braço direito, íntimo do Lula, que é o (falecido ex-presidente nacional do PT, Luiz) Gushiken. É chocante, chocante. Então, não dá para esconder. E o Bolsonaro, que prometeu limpar tudo isso, virou a mesma coisa. Então, a base dele está se desmilinguindo toda, mas ele ainda tem um resto fanatizado. Um povo que está sofrido, desesperado, e que devotou a ele uma crença mítica, que ele até chama de “mito”. Mito é o que não existe. É psicologicamente complexo o fenômeno. O cara chama um homem de carne e osso, um político cheio de contradições, de “mito”. Mito por quê? Todos os setores da vida brasileira pioraram. O irmão que está nos ouvindo agora, a irmã evangélica, o irmão caminhoneiro, passa a mão na cabeça e tente se lembrar de que setor da vida brasileira melhorou com Bolsonaro. Tudo piorou, tudo! A corrupção piorou, a mortalidade piorou, a fome piorou, a miséria piorou, o salário mínimo tem o pior poder de compra dos últimos 15 anos, o desemprego é o maior da história, a informalidade, precarização do trabalho, a humilhação do povo no SPC é a pior da história, enfim. Não foi ele que criou essa crise, mas ele está agravando tudo. Então veja, o que que resta é esse grupo que ele traiu ontem, dos caminhoneiros. O que é isso? O caminhoneiro tem uma razão pra protestar: o preço dos combustíveis. Essa é a razão. E a decadência do mercado, que não tem frete para ele, porque a economia está numa estagnação econômica também sem precedentes, que começa lá atrás, com o Lula. Dez anos paralisado o país. Com Lula/Dilma, não é? Com 10 anos da economia parada, seis anos são de Dilma, dois de Michel Temer, que o Lula irresponsavelmente trouxe para a presidência da República, e dois anos de Bolsonaro. Então, o caminhoneiro tinha todas as razões para protestar, porque a renda dele caiu, porque não tem frete. Os caminhoneiros de verdade têm essa agenda. O outros são os fanáticos que partiram para a rua de forma anárquica. E Bolsonaro os traiu miseravelmente.

 

 

Folha – Falando de economia, a inflação no Brasil atingiu patamares que a gente não vê desde a implantação do Plano Real, aumento da taxa de juros, aumento da cesta básica, aumento de combustíveis, R$ 7 a gasolina, R$ 6 o diesel, mais de R$ 100 o botijão de gás, aumento da tarifa de energia elétrica, crise hídrica e promessa de apagão pela frente, 14,6 milhões de desempregados, 35,6 milhões de outros brasileiros na informalidade, prejuízo na lavoura de milho, café, cana, hortaliças, frutas, na pecuária de leite, fuga dos investidores internacionais, a maior retração da produção industrial desde julho de 2015, e queda do PIB no segundo semestre, erodindo qualquer possibilidade de crescimento a longo prazo. Qual é o seu projeto a partir dessa realidade?

Ciro – Eu tenho tentado chamar a atenção dos irmãos e irmãs brasileiros para isso. Nós estamos com o pior dos quadros, que é a inflação. A pior doença que uma economia pode sofrer é uma inflação, ou seja, uma alta de preços combinada com uma estagnação econômica. Então, você tem a renda deprimida pela paralisia econômica e o custo de vida subindo, agravando dramaticamente o sofrimento das classes médias e da pobreza no Brasil, que não tem precedentes. Isso é o que precisa ser debatido. Nisso é o que nós precisamos iluminar a nossa palavra, pedir a Deus que ponha juízo na cabeça desta grande nação, especialmente dos políticos, para que nós possamos fazer um grande debate, porque solução tem. Mas, nenhuma das soluções é simples ou trivial, e todas elas exigem coesão política, que é exatamente o oposto. Daí o crime superior que o Bolsonaro comete, de ser ele mesmo o chefe da baderna e o líder do caos econômico e social que está se generalizando no país. A resposta para isso vocês tem em Campos, uma cidade importante do Brasil, que está com os ovos todos numa cesta só, perigosamente, na dependência dos royalties de petróleo e com a falta de um planejamento estratégico. Isso gera uma espécie de crise política cíclica para vocês todos, com confusão, judicialização da política, enquanto Niterói fez o oposto com a mesma base de grana. Você tem uma estratégia de fazer um fundo reciclável e, necessariamente, diversificar o perfil econômico. O potencial do Norte Fluminense para uma agroindústria tem uma vocação importante para agregação de valor, para serviços, para uma série de outras atividades. Mas, isso não cai do céu, isso tem que ser ordenado. E eu estou dando a comparação com Campos. Tem que ser ordenado num projeto nacional de desenvolvimento, que é o que eu obsessivamente tenho tentado pedir ao povo que preste atenção. Não é que eu quero ser dono da verdade, estou muito longe disso. Eu apenas acumulei uma experiência de muito êxito, muitas experiências concretas em cargos públicos, eu conheço as finanças brasileiras, eu sei as pistas por onde a gente pode resolver o problema tecnicamente. Pode acreditar, tem solução. Inclusive, talvez surpreendentemente para vocês, algumas são soluções de relativamente curto prazo. Vou dar um exemplo aqui de uma proposta que eu tenho tentado e que os bancos tratam de desmoralizar. O consumo das famílias é o principal motor da atividade econômica brasileira. Quando o PIB cresce qualquer coisinha e você vai fazer a radiografia, 60% desse crescimento são puxados pelo consumo das famílias. Ninguém precisa ser economista para entender que se a comida expande o consumo, o comércio aumenta a venda, contrata mais gente, encomenda mais da indústria, que, tendo mais encomenda, contrata mais gente, compra mais matéria-prima, e assim a economia gira. Pois bem, o consumo das famílias no Brasil, responsável por 60% da economia, está sendo deprimido de forma trágica por causa de três fatores: desemprego aberto, o número que você já deu; queda na renda por precarização do trabalho violenta, e pelo colapso do crédito. Vou repetir aqui o número que você não deu, mas aí é chato: 73% das famílias brasileiras estão hiper endividadas e encalacradas na impossibilidade de manejar suas dívidas. A única política pública que é capaz de ser feita nesse motor da economia é uma política pública em relação a reestruturação do crédito, estrangulado das famílias. É só pegar o seguinte: a gente faz isso sistematicamente lá com o nosso Procon em Fortaleza. Então, você pega o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, e convoca o Serasa para mediar um desconto. Qualquer pessoa consegue sozinho um desconto de 90%. É só olhar aí no Google, leilões do Serasa, e dá 90% de desconto. Pois bem, se você conseguir 90% de desconto, a dívida média das famílias fica em R$ 1.400. Só que elas não têm esses R$ 1.400, que são quase dois salários mínimos, para uma cesta básica que está custando quase um salário mínimo. A opção já é comer ou pagar o aluguel, é comer ou pagar o crediário, e as pessoas não têm essa opção mais. Então, você pega o Banco do Brasil e a Caixa e financia isso em 20 vezes, em 30 vezes, cobrando um jurinho módico, mas que remunere bem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Não haverá prejuízo, e você faz um programa de reeducação financeira. Isso tem efeito de curto prazo muito rápido. O mesmo trabalho com a reestruturação do passivo de 6 milhões de microempresas que estão quebradas no Serasa. Você tem aí dinheiro aonde? Você tem dinheiro nas reservas cambiais do país. Então, nós temos 360 bilhões de dólares em espécie de caderneta de poupança, que eles não sabem usar e ficam reservando só para financiar a goela sem fundo da especulação e da agiotagem financeira. Se você pegar 80 bilhões, 70 bilhões de dólares, vamos fazer aqui um número redondo, nós estamos falando R$ 350 bilhões que você pode injetar na economia, reestruturando criteriosa e seletivamente o passivo das empresas que, com um pouquinho de crédito de capital de giro, voltariam a trabalhar, produzir, a empregar gente. E você também giraria isso com garantias, com aval solidário, coisas que a gente sabe fazer também. Quem duvidar, veja o que nós formulamos lá atrás, chama CredAmigo, do Banco do Nordeste, estamos fazendo agora diretamente através de prefeituras em que nós temos influência, porque eu fico ajudando a encontrar soluções para os problemas. A terceira ferramenta do curto para médio prazo é retomar 24 mil obras públicas paradas no Brasil. Qual é a característica delas? Já passaram a burocracia da licitação? Já passaram a burocracia as vezes infindável da licença ambiental? Algum pepino que tem no Tribunal de Contas, você faz uma força-tarefa e supervisiona aquilo, resolve, tira o pepino. Mas, qual é o efeito disso? É que, no curto prazo, você pode fazer a outra ferramenta de ativação do PIB, que é o investimento público sair de perto de zero para uma crescente que, no meu projeto, chega a R$ 3 trilhões em 10 anos. Por que isso? Dez anos era um planejamento estratégico que não precisa ser eu a executar, mas nada sério se faz no curto prazo. E você então tem a fonte do recurso, você seleciona os investimentos de retorno mais imediato, intensidade de mão de obra, e aí sobre a favela com saneamento básico, com moradia, reestruturação de moradia, titulação de papel da casa. Obra de infraestrutura que tem efeito instantâneo na produtividade da economia, como ferrovias inacabadas, a Transnordestina, a Fiol, a conclusão da Norte-Sul, ou a retomada de outras obras estruturais de moradia popular, de saneamento básico, enfim. De onde é que vem o dinheiro? Aí você tem aqui um capítulo, não sei se você tem paciência, mas eu gosto muito de dizer às pessoas para me diferenciar dessa conversa mole que está infernizando a vida brasileira. Eu vou arrumar aqui os R$ 3 trilhões em 10 anos. Primeiro, R$ 342 bilhões é o que o governo tem a obrigação de receber e não recebe, as chamadas renúncias fiscais. Eu estudei: um corte de apenas 20% dá quase R$ 70 bilhões por ano. Em dez anos, R$ 700 bilhões. Olha aí onde é que nós vamos achando a coisa: só cobrando imposto de quem deve e não paga, não é? Por exemplo, o cara da Localiza, dono da Localiza, 60% do faturamento dele são de vender carro usado sem pagar imposto, quando ele é, na pessoa jurídica, uma empresa de locação de veículo. Quando você chega, em Campos, para alugar um carro da Localiza, a placa é de Belo Horizonte. É por quê? Porque lá não paga imposto, o IPVA. Enquanto o motoqueiro que está carregando caixote de aplicativo nas costas em Campos, de madrugada, chovendo, ele paga 4% do valor da motocicleta de IPVA, o cara da Localiza não paga. Às vezes, a renúncia fiscal é para ter uma contrapartida de emprego, mas não é o caso. Definitivamente, é tudo a propina, tudo favores criminosos que a elite brasileira vai conseguindo. Depois, você tem a tributação de lucros e dividendos empresariais. Só o Brasil não cobra. Eu cobrei, quando fui ministro da Fazenda do Itamar. Aqui dá para arrecadar R$ 80 bilhões. E vocês, quando vão receber aí da Folha? O salário morre com 27,5% na fonte, não tem nem como escapulir. E um cidadão de classe pequena, baixa, de R$ 2.050, começa a pagar imposto de 15%. E no Brasil, quem recebe da pessoa física lucros e dividendos, bilhões, não paga imposto. O IPVA do carro é 4% quatro por cento do valor; e dos jatinhos, lanchas, helicóptero da burguesia do Brasil, não pagam imposto. Para não cansar vocês, eu tenho aí R$ 3 trilhões para incrementar a taxa de investimento e fazer o terceiro grande motor da economia, que é o investimento público: ativar a economia e a geração dos empregos, tão dramaticamente necessitados. E, por fim, aí já existe mais maturação, mas nada que a virada agora é uma retomada forte do processo de industrialização perdida pelo Brasil. Nós denunciamos a política de preço da Petrobras. Vocês, de Campos, têm uma relação imediata, umbilical, de vida ou morte com a Petrobras. Pois bem, a Petrobras do senhor Michel Temer, de Jair Bolsonaro, simplesmente paralisou um 1/3 da capacidade de refino do Brasil. Resultado: a senhora dona de casa de Campos está pagando R$ 110 num gás de cozinha, porque eles dolarizaram criminosamente o preço dos derivados de petróleo do Brasil, quando a razão de ser da existência da Petrobras é verticalizar, dando ao Brasil independência de importação do estrangeiro, e cancelar os investimentos que autonomizariam o Brasil em matéria de refino do petróleo pesado, que é o petróleo do pré-sal. Você tem que retomar isso e transformar o Brasil numa grande potência de petróleo, gás, bioenergia, tirando daí uma indústria 4.0 de polímeros. Sabe quanto tinha sido, antes da pandemia, a importação pelo Governo Federal de coisas da saúde? Dezessete bilhões de dólares. Em um aninho. R$ 85 bilhões saíram do cofre pobre do Brasil para financiar emprego na China, na Índia, na Europa e nos Estados Unidos. E agora chegamos no fundo do poço: estamos importando máscara e insumo da vacina da China. Aliás, ontem o Bolsonaro plantou um elogio para a China, na presença do Xi Jinping (presidente chinês), que deve ter também enchido de vergonha os alucinados enganados por ele. Ele é um canalha voltando e indo de novo, por qualquer ângulo que se queira considerar. Voltando aqui ao nosso raciocínio: como você vê, há saídas para o Brasil. O grande problema é que essas saídas exigem um ambiente político, um ambiente de governança política radicalmente diferente desse que o Lula, o Fernando Henrique, o Bolsonaro, de forma absolutamente igual, praticam. Deixa eu só terminar para população saber o que eu estou dizendo: o Roberto Jefferson, que está preso, que deve estar aí muito interessado, muito feliz com a com o recuo horrível do Bolsonaro. O Roberto Jefferson fez o discurso de defesa do Collor na sessão do impeachment (em 1992). O Roberto Jefferson ganhou do Lula os Correios pra roubar. Dali nasceu o Mensalão. Todo mundo aí lembra da tragédia que aconteceu. E o Roberto Jefferson agora é o homem que defende o Bolsonaro. Esse (deputado federal do PP/PR) Ricardo Barros, líder do governo Bolsonaro, que está suspeito de roubar nas vacinas, era vice-líder da Dilma e do Lula, líder do governo Fernando Henrique e ministro da Saúde do Temer. O irmão brasileiro vai entender o que nos amarra ao passado. Vamos cortar essa corrente e vamos andar pro futuro.

 

 

Folha — O senhor mencionou Campos e Niterói na questão do petróleo. As duas cidades têm quadros políticos fortes do PDT. Niterói tem seu ex-prefeito Rodrigo Neves pré-candidato a governador pelo partido. E Campos tem o Caio Vianna, que foi candidato a prefeito e é pré-candidato a deputado federal. Os dois foram entrevistados recentemente no Folha no Ar. O Rodrigo disse que ele tem nome a presidente, que é o Ciro Gomes, pré-candidato do PDT, “mas nós vamos construir um palanque duplo ou triplo em torno do nosso projeto no estado do Rio de Janeiro. Vamos com Doria, com o PSDB, e com o ex-presidente Lula, com lideranças do Rio de Janeiro do PT”. O Caio, em 2018, como candidato a deputado federal, não pediu votos para você na campanha. E foi questionado sobre isso pelo sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf, para saber se em 2022 o político de Campos faria campanha para o candidato do PDT à presidência. Caio falou que isso está sendo construído, mas que “a gente tem um projeto nacional de partido, acho que Ciro tem transformado, evoluído muito, sem dúvida a gente vai estar engajado nesse processo, mas é uma avaliação pessoal”. Como avalia que os dois ainda não tenham declarado tão claramente o apoio só à pré-candidatura do Ciro Gomes?

Ciro – Eu vejo isso com muita humildade. Quem acumulou a experiência que eu acumulei não pode andar assustado com coisas que são uma imposição ruim, porque eu cultivo a franqueza. Isso é muito ruim para o Brasil: a falta de cara, a falta de rosto, de personalidade própria para permitir ao povo um esclarecimento do ambiente onde você está. Mas é uma inerência da cultura política brasileira. Então, nós, com fricção legal, determinamos o mesmo dia para eleições cujas lógicas são completamente distintas: a eleição para a presidência da República e eleições para os governadores estaduais, às assembleias, ao Congresso Nacional. Esta até tem muito a ver com a eleição do presidente, mas também tem uma dessintonia muito grave. Eu não tenho queixa disso. Tenho um (deputado federal do PDT e campista) Chico D’Ângelo hoje, que é um companheiro; Rodrigo é um grande companheiro; o Caio é um grande companheiro. E eu procuro cumprir a minha tarefa. Eu jamais chegaria em Campos com dubiedade de qualquer natureza. Como não aconteceu. Gravei para ele e tal. Como jamais chegaria em Niterói com qualquer tipo de dubiedade. Enfim, mas é compreensível isso. Ninguém consegue impor de cima pra baixo a mesma linha política do presidente da República, todos os governadores estaduais. A Federação Brasileira tem essas características. Algumas realidades são típicas. Por exemplo: o Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, acredita que o Lula fez uma promessa de apoiá-lo para governador, não é? Ele saiu do Psol e foi para o PSB, na crença de que de que o PSB vai lançá-lo, com apoio do PT. E o Lula, que diz o que a pessoa quer ouvir, está dizendo para o Rodrigo, a quem foi visitar, que também apoia o Rodrigo, mas já disse ao Eduardo Paes (PSD) que vai apoiar seu candidato a governador, que pode ser o (Felipe) Santa Cruz, o grande presidente da OAB, que é a minha organização sindical e trabalhista de categoria, porque eu sou advogado. Então veja, isso tudo é próprio desse mundo. O fundamental, entretanto, que eu acho, é que eu, de um lado, me mantenha firme na linha de oferecer ao povo brasileiro uma alternativa concreta de um projeto nacional, poder fazer uma aposta na inteligência das pessoas, tentar denunciar que ódios e paixões não levarão o Brasil para canto nenhum; tentar sinalizar para a necessidade de uma reconciliação não ao redor da minha personalidade, mas ao redor de um punhado de ideias, de pessoas diferentes, de maneira a fazer o ódio sumir da centralidade que está tomando na vida brasileira. E vou ajudar o PDT a crescer como ferramenta de transformação do Brasil. Portanto, o meu candidato no Rio de Janeiro chama-se Rodrigo Neves. É o meu candidato. Gostaria muito que o Rio de Janeiro prestasse atenção nele, porque ele é um cara que traz experiência concreta de extraordinário êxito em políticas públicas práticas. E só olhar do outro lado da Baía de Guanabara. Estou falando do Rio de Janeiro. Olhar o que ele fez em Niterói em saúde, em educação, em infraestrutura, em segurança pública, os números de cobertura vacinal, os números da economia, a forma com que ele trata essa perigosa receita farta dos royalties de petróleo e, ao invés de gastar por conta, criou uma coisa. E o Caio bateu na trave (na eleição a prefeito de Campos em 2020), não é? Então, é sinal de que o trabalhismo está começando a se enraizar de volta naquilo que é o estado que deu a Leonel Brizola, o nosso grande companheiro e amigo, fundador do PDT, duas extraordinárias governanças no Rio. Vamos esperar para ver quem é que o Lula vai enganar por último.

 

Folha – Além das possibilidades de apoio do PT que o senhor citou, ainda tem ao governador Cláudio Castro (PL). Ex-prefeito de Maricá, o petista Quaquá recebeu Castro recentemente em sua cidade. Não é um apoio possível a Lula a governador também?

Ciro – Quaquá, por exemplo, sem o charme do Lula, vende até a mãe e não entrega.

 

Folha – O Folha no Ar também entrevistou, em 23 de junho, o Benjamin Sicsú, que foi ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio do governo Fernando Henrique. Ele é presidente da maior ONG da Amazônia e conhece muito bem essa questão de matriz energética. Ele disse que a crise hídrica no país era uma coisa irreversível. Segundo os especialistas, o Brasil deveria ter acionado as termelétricas desde outubro do ano passado, para poder poupar o sistema hidrelétrico. E não fez, no medo de Bolsonaro, lá atrás, de aumentar a tarifa, que agora é inevitável. Vê o risco de um novo apagão no Brasil?

Ciro – Eu não tenho a menor dúvida de que acontecerá em horários de pico, especialmente. Mas pode acontecer o racionamento por uma circunstância: um desgoverno absoluto. Quando eu digo que o presidente é o chefe da baderna e o coordenador do caos social e econômico, acredite, eu não estou exagerando. Quem me acompanha nas redes, sabe que, desde fevereiro, eu estou tentando chamar a atenção para isso. Nessa questão, o professor Paulo Rabello de Castro (economista) me avisou, e vi os avisos do (hidrólogo Jerson) Kelman, que foi presidente da Agência Nacional de Água. E a nossa mídia não presta atenção, porque fica aí todo dia no cercadinho, reverberando as maluquices do Bolsonaro. E nós não temos planejamento de nada. Ao contrário, o planejamento na área descontinuou as políticas estratégicas da Eletrobras, porque se anuncia a privatização. Se eu anuncio a privatização, o que é que você acha que o gestor e os conselhos e os técnicos da Eletrobras estão fazendo? Estão cuidando de sobreviver, estão cuidando de limpar as gavetas, cuidando de organizar seus fundos de pensão, suas aposentadorias precoces. E isso é uma descontinuidade grave, gravíssima. Essa é a grande questão, por quê? Porque, com a vacinação, a economia vai voltar a algum nível de atividade, e a oferta está ali na frente estrangulada. Então, no horário de pico, ali por novembro, nós vamos ter constrangimento, sem nenhuma dúvida. O Bolsonaro, ainda ontem, me dão uma notícia de que estava na live dele pedindo para o povo subir cinco andares a pé. Tenha santa paciência! O cara é um irresponsável! Se você reparar, a cada grande constrangimento brasileiro, ele bota um general ou um almirante. Então, o ministro das Minas e Energia que vai pagar esse pato, é um almirante (Bento Albuquerque). O constrangimento do preço da Petrobras, é um general (Joaquim Silva e Luna). O colapso na saúde pública, ele meteu um general irresponsável (Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde). Por quê? Porque é uma vingança que o capitão expulso do Exército está fazendo, desmoralizando o melhor conceito que as Forças Armadas devem merecer da nação brasileira. Como com o comportamento omisso desses bajuladores tipo Braga Neto (general da reserva e ministro da Defesa), que há muito tempo largou a honra para ser um mero puxa-saco de um presidente criminoso e irresponsável. Então, vai ter, sim, constrangimento na oferta de energia elétrica, e hoje a população brasileira já está pagando 52% a mais na bandeira por conta das imprudências e da falta de planejamento do senhor Messias Bolsonaro.

 

Folha – Bolsonaro chamou o Sérgio Malandro para fazer a campanha de economia de energia. Está no ar.

Ciro – Dá vontade de rir, se não fosse trágico para chorar.

 

Folha – O senhor tem dito que após a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da ex-União Soviética, em 1991, com o fracasso do chamado “socialismo real”, a esquerda perdeu a perspectiva da revolução. E a substitui pela pauta identitária, que a afasta da população mais pobre do Brasil pela qual diz lutar e que tem forte tradição religiosa, católica e agora com muita força evangélica, no avanço dos neopentecostais. Como conciliar isso?

Ciro – Vacinando o nosso povo dessa propaganda estrangeira que uma certa esquerda pouco lida, e que não tem nada de esquerda, a não ser a autorreferência e a goela muito barulhenta, mas absolutamente estéril e vazia, porque praticamente nenhum deles jamais deu um dia de serviço à humanidade. Então, nós precisamos trazer para o debate aquilo que está ao alcance da política resolver e onde nós temos que propor um grande consenso ao povo brasileiro. Vamos lá, vamos debater um modelo que resolva emprego salário, renda, educação dos filhos, saúde para a população com decência. Nós precisamos trazer o povo pra discutir isso. O que que eles descobriram, esses caras da direita? É que, se nós formos discutir emprego, salário, educação, saúde, segurança, moradia, 80% do povo vota de forma progressista. E o pobre desempregado de Campos, que entra no ônibus e pula catraca, porque não tem dinheiro para comprar passagem, e o cobrador entende, porque ele está indo procurar um emprego? São 6 milhões de brasileiros que voltam para casa e desistem de procurar emprego. E há 58 mil homicídios (por ano), a pessoa não sabe se o filho ou a filha, na sexta-feira, quando sair de casa para o baile funk, vai voltar inteiro ou se vai ser chamado para o necrotério. Essa é a vida do povo. E, enquanto, isso, você, com bucho cheio, com plano de saúde bem pago, arrota que é de esquerda e dana a fazer a percepção de que o povo é ignorante, de que todos os pastores que prestam serviço inestimável à população estão errados? A minha universidade não foram os bancos da extraordinária escola pública que eu tive, foi a favela, foi a praça, sabe? Eu encontro mães dizendo que o pastor emprestou o dinheirinho para ela pagar o traficante que ia matar o filho; os templos, hoje, do evangélico, estão servindo de verdadeira agência de emprego, em que o pastor liga para o mestre de obra e diz: “me arranja uma vaga de servente”. E além do que, o nosso povo tem uma formação cristã que me é comum. Agora, nós vamos dizer que isso é ignorância, como faz essa gente? Nós vamos dizer que o nosso povo todo é ignorante, e nós, os valentões, déspotas esclarecidos, de cima para baixo, vamos ensinar ao povo como ser progressista? É o que eu estou dizendo: no Rio de Janeiro existiria o Sérgio Cabral e tudo o que aconteceu se não fosse o apoio, o entusiasmo do Lula? Que, aliás, também apoiou o (ex-ministro de Dilma Marcelo) Crivella (Republicanos). Vem para esse papo agora, está querendo enganar quem? Chega, não é? Vamos em socorro do nosso povo. E aí, no que for consenso, a gente constrói um ambiente em que nossas questões identitárias, todas sérias, todas importantes, serão tratadas como tem que ser: tolerância, respeito à diversidade, respeito à diferença, maturidade no debate. Eu estou fazendo esse debate com os pastores evangélicos e propondo pra eles: me ajudem. Qual é a experiência que os senhores trazem? O aborto é uma tragédia. É uma tragédia humana, é uma tragédia emocional, é uma tragédia de saúde, é uma tragédia familiar. Como é que a gente faz diante dessa realidade? Em vez de a gente ensinar para eles, a gente pergunta para eles, que têm muita sabedoria nas suas expressões morais e religiosas. Eu estou nessa.

 

Folha – Qual o caminho para a chamada terceira via, entre Lula e Bolsonaro, na eleição presidencial de 2022?

Ciro – A rigor, o que está acontecendo é o seguinte: o Bolsonaro foi uma grande mentira, está se desmoralizando. E todo dia se reforça a minha impressão de que ele não estará nas eleições. Não estando nas eleições, uma parte do eleitorado que hoje se afirma no Lula, perde a razão de votar no Lula, engolindo com casca e tudo as contradições inexplicáveis e repetidas de forma reiterada pelo Lula, que não mudou nada, está apostando na mesma coisa, na mesma gente, nas mesmas práticas. O Lula anda num avião, quem que paga esse avião? Eu pago a passagem da Gol e sou muito bem tratado, mas o Lula anda de avião para cima e para baixo. Quem paga? Percebe? É a mesma pessoa, as mesmas práticas, as mesmas conexões, não aprende nada e agora acha que o crime compensa. Então, veja, com o Bolsonaro se desmoralizando, uma parte importante da população brasileira vai se ver livre da tarefa de ter que voltar para o Lula, para a corrupção, para a contradição econômica, para a arrogância e para a sustentação do Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, por exemplo, e vai procurar alternativa. O que é que eu posso oferecer ao povo brasileiro? Primeiro, uma vida limpa. Eu sou um homem honrado, de 40 anos de vida pública, nunca respondi por um processo de corrupção. Nunca, nem pra ser absolvido. Segundo, uma experiência que ninguém tem. Não pense que estou sendo aqui soberbo, apenas estou apresentando o meu currículo, porque eu sou candidato pela quarta vez à presidência da República e peço uma chance ao povo brasileiro, para mostrar o que eu posso fazer. Eu tenho experiência, ocupei cargos importantes, administrei a Economia do Brasil, fui governador, prefeito, sempre saí melhor avaliado do país. Terceiro, tenho um plano, chego a ser chato nas entrevistas, né? É porque eu tenho uma equipe gigantesca, dedicada a estudar o Brasil, as melhores práticas internacionais, chocar isso com a realidade, com as possibilidades políticas. E, por fim, eu tenho um amor, uma paixão, e só isso explica por que que o cara três vezes candidato permanece aqui, com todo entusiasmo, acordando às 6h30, para chegar no Rio de Janeiro e dar uma entrevista para a nossa rádio Folha.

 

Folha – O senhor disse lá atrás que Lula virou parte do problema. O que quis dizer?

Ciro – Eu acredito, firmemente, em respeito ao povo brasileiro, que 70% do eleitorado de São Paulo, Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Sul do Brasil, do Norte do país e do Centro-Oeste do país, 70%, em números redondos, votaram no Bolsonaro. Não é possível chamar o nosso povo de gado, não é possível reduzir o nosso povo a um punhado de fascistas, sabe? O nosso povo votou nessa proporção porque sentiu na pele a contradição grave da economia nas mãos do Lula. E em cima disso, de uma notícia generalizada de corrupção levada pelo Lula ao centro do modelo de poder no Brasil. Então, eu não tenho nenhum prazer, mas, na minha análise, o Lula é parte central do problema. Ele deveria compreender isso. Se ele tivesse o mínimo de compromisso, aos 78 anos de idade, um presidente que já teve tantas oportunidades, respeitado mundo afora, devia abrir passagem para um petista. Mas, se você olhar, é sombra de mangueira, não nasce nada. Um partido importante como o PT virou uma organização criminosa, todos os tesoureiros presos. E aí não dá pra gente fazer de conta que o povo brasileiro é fascista, não é possível. Então, é um ato meu de dor, mas é preciso que a gente rompa com essa bola de chumbo que representa essa amarração que o lulopetismo faz do Brasil com o passado. E discutir o futuro. O destino econômico brasileiro está sendo destruído, o nosso povo está passando o pão que o diabo amassou. Isso foi consequência dessas irresponsabilidades todas do Lula. Então, o Bolsonaro é um acidente. O Bolsonaro tirou do armário 15% de fascistas, que tem em qualquer lugar do mundo. No Brasil tem também, mas são só 15%. O resto, quem levou esse povo ao desespero foi a tragédia que o Lula produziu no país.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira nos três vídeos abaixo a íntegra do Folha no Ar na manhã de sexta com Ciro Gomes, pré-candidato do PDT a presidente da República:

 

 

 

 

Do 11 ao 7 de setembro, Bolsonaro e os EUA no Afeganistão

 

11 de setembro de 2001 em Nova York e 7 de setembro de 2021 em São Paulo (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Capa da Folha da Manhã de 12 de setembro de 2001

Hoje é 11 de setembro. Há 20 anos, se deu o atendado às Torres Gêmeas de Nova York e ao Pentágono, em Washington, com três jatos comerciais sequestrados por militantes islâmicos da Al Qaeda. Um quarto voo caiu na Pensilvânia, após a reação dos passageiros e tripulação. Até hoje não se sabe se o objetivo seria atingir também a Casa Branca ou o Capitólio. O fato é que muitos historiadores consideram aquela data o fim da Idade Contemporânea, iniciada com a Revolução Francesa em 1789. Se ainda não sabemos como será chamado o tempo em que vivemos, no Brasil, setembro também trouxe um marco que será devidamente registrado pela História. Foi a terça, dia 7, singular nos ataques golpistas à democracia brasileira pelo seu próprio presidente, eleito democraticamente em 2018. Que semeou vento e colheu tempestades nas reações firmes das instituições do país, culminando com o pedido público de arrego de um Jair Bolsonaro (sem partido) totalmente isolado na noite de quinta (09).

 

Presidente estadunidense John Kennedy e o premier soviético Nikita Khrushchev evitaram a III Guerra Mundial na crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962

 

Curiosamente, para se conhecer a origem dos dois eventos históricos setembrinos, dos EUA de 20 anos e do Brasil de hoje, necessário voltar ao mundo bipolar da Guerra Fria. Que foi disputada entre os dois grandes vencedores da II Guerra Mundial (1939/1945), os EUA capitalistas e o “socialismo real” da extinta URSS. Em outra curiosidade, a Guerra Fria teria início em 1947, com a disputa pela influência dos dois blocos mundiais sobre a Grécia, berço da democracia na comercial Atenas, como também do que muitos chamam de proto-comunismo, na militarizada Esparta. “Herdeiros atenienses”, os EUA venceram aquela primeira disputa. Como também venceriam a final, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da “espartana” União Soviética, em 1991.

 

Tropas da União Soviética se retiram do Afeganistão, em 1989, após 10 anos ocupando do país (Foto: Ria Novosti)

 

Osama bin Laden

Entre as várias causas da queda da URSS, está a derrota humilhante que a potência militar mundial sofreu na 1ª Guerra do Afeganistão (1979/1989). Os soviéticos invadiram e ocuparam durante 10 anos seu vizinho pobre, asiático e islâmico. Até serem expulsos pelos mujahedin (“guerreiros sagrados” do Islã), não só afegãos, como também os muitos outros que a CIA, agência de espionagem dos EUA, recrutou em todo o vasto mundo islâmico, treinou e armou para combater sua maior rival na Guerra Fria. Entre estes jovens fundamentalistas islâmicos, camaradas em armas do soldado estadunidense mais conhecido de Hollywood, vivido pelo ator Sylvester Stallone em “Rambo 3” (1988, de Peter MacDonald), estava Osama bin Laden. Da Arábia Saudita e então com seus 20 e poucos anos, ele era filho da bilionária família proprietária da Saudi Bin-laden Group, conglomerado de petróleo e gestão de patrimônio, além de maior empresa de construção do mundo.

 

Stallone luta ao lado dos mujahedins do Afeganistão contra a União Soviética, em “Rambo 3”, de 1988

 

Se a ficção fosse realidade, Rambo e Osama lutariam lado a lado contra os soviéticos. Mas após ajudar a expulsar estes do Afeganistão, os EUA se desinteressaram pelo país. Cujo vácuo no poder foi ocupado por um grupo de radicais islâmicos, cujo fundamentalismo religioso foi estimulado pela CIA contra a ateia URSS, e ficaria mais conhecido como talibãs. Que, por sua vez, davam guarida a um grupo formado e liderado por Bin Laden, a Al Qaeda, durante a 1ª Guerra do Afeganistão. Concluída esta em 1989, no ano seguinte o mundo islâmico e do petróleo seria abalado com a invasão do Kwait pelo seu vizinho Iraque, em 1990, governado pelo ditador Saddam Hussein. Que os EUA também tinham armado, inclusive com blindados brasileiros da Engesa, para lutar na Guerra Irã-Iraque (1980/1988). Temendo que a invasão iraquiana ao Kwait se estendesse à vizinha Arábia Saudita, o Pentágono enviou suas forças militares ao país natal dos Bin Laden, onde ficam as duas cidades mais sagradas a qualquer muçulmano: Meca e Medina.

 

Tanque brasileiro Engesa EE-9 Cascavel, danificado e abandonado pelos iraquianos no campo de batalha da 1ª Guerra do Golfo, em 1991

 

Liderando uma coalizão internacional pela disputa das reservas de petróleo do Oriente Médio, os EUA derrotaram Saddam com certa facilidade, na 1ª Guerra do Golfo, em 1991. Mas a presença da potência militar, “infiel” aos islâmicos radicais, tão perto de Meca e Medina, transformou em inimigos os ex-aliados contra a URSS no Afeganistão. E o resultado foram os atentados de 11 de setembro de 2001, ao custo de 2.996 vidas humanas. Feridos em seu coração, os EUA retaliaram iniciando a 2ª Guerra do Afeganistão em 2001, menos de um mês após as duas torres do World Trade Center virem abaixo. E promoveram também a injustificada 2ª Guerra do Golfo em 2003, contra o Iraque que nada tinha a ver com a história. Mas que custaria a cabeça de Saddam, julgado e morto por enforcamento em 2006. Além da caçada a Bin Laden, que só terminaria com sua execução a tiros em 2011, no Paquistão, por forças especiais estadunidenses.

 

Saddam Hussein foi capturado e preso em 13 de dezembro de 2003, por militares dos EUA, no porão de uma fazenda da cidade de Adwar, próxima a Ticrite, sua cidade natal

 

Mordidos pelas serpentes que criaram, os EUA ocupariam o Iraque por oito anos, de 2003 a 2011. E por 20 anos, de 2001 a 2021, o Afeganistão, deixando o país em humilhante retirada, consumada no último dia 30. E o entregaram com relativa facilidade aos inimigos e ex-aliados talibãs. Que na última quarta (8) dispersaram a tiros de fuzil uma manifestação de corajosas mulheres afegãs nas ruas da sua capital, Kabul. Elas faziam protesto pacífico pelo fato do novo governo do seu país, anunciado naquele mesmo dia, não ter nenhuma presença feminina.

 

Durante a retirada dos EUA do Afeganistão, em 19 de agosto, bebê é passado sobre o muro e a cerca de arame no aeroporto de Kabul (Foto: Omar Haidari/Reuters)

 

Um dia antes das mulheres de Kabul, centenas de milhares de brasileiros saíram as ruas de 167 cidades do seu país, inclusive Campos, para prestarem apoio ao governo Bolsonaro. Que usou de todos os meios possíveis para arregimentá-los nos dois meses anteriores. A favor do capitão e contra seu “inimigo” da vez: o Supremo Tribunal Federal (STF), que tem o presidente da República investigado em cinco inquéritos. Aos quais ele respondeu com o que deve gerar outro, por crime de responsabilidade, ao dizer na av. Paulista que nem ele, nem seus seguidores, respeitarão decisões judiciais com os quais não concordem.

 

 

O motivo? Do alto da sua inteligência, o presidente deixou bem claro: “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso!”. Faltou incluir seus filhos, todos igualmente investigados pela prática de crimes: o senador Flávio (Zero Um), o vereador Carlos (Zero Dois), o deputado federal Eduardo (Zero Três) e até Jair Renan (Zero Quatro). Este, não era nada antes do pai assumir a presidência. Mas hoje é um dos proprietários da empresa Bolsonaro Jr Eventos e Mídia, em sociedade com o lobista Marconi Albernaz de Faria. Este, por sua vez, revelado na CPI da Covid como intermediário da Precisa Medicamentos, que negociou com o ministério da Saúde a compra de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin, por R$ 1,6 bilhão do dinheiro público. Que foi cancelada por suspeita de corrupção no governo do “acabou a mamata”.

 

 

No 7 de setembro da Paulista, Bolsonaro também chamou de “fraude” a eleição presidencial de 2022. O motivo? Ele hoje perderia em todas as simulações de segundo turno, em todas as pesquisas. Nas quais vem derretendo popularidade neste ano de 2021. A última, do PoderData, divulgada dia 2, revelou que 63% dos brasileiros reprovam o seu governo. Não é necessário entender muito de aritmética para constatar que é uma rejeição proibitiva a qualquer candidato em uma eleição com dois turnos. Cujo segundo só existe para que um deles vença pelo mínimo de 50% + 1 dos votos válidos.

 

 

Ainda assim, o presidente mantém resilientes 27% de aprovação. Entre estes, segundo outro instituto de pesquisa, o Datafolha, 12% são os chamados “bolsonaristas-raiz”. É a minoria absoluta, mas fanática e ruidosa, que saiu às ruas no dia que deveria se celebrar a Independência. Dependentes do seu “mito”, se este matar a mãe, em praça pública, provavelmente dirão: “a velha merecia porque era comunista”. Para essa gente, a Guerra Fria, sepultada há 30 anos, ainda não acabou. Acreditam na ameaça comunista como as crianças acreditam no velho do saco.

 

 

Nos dias 8 e 9, Bolsonaro colheu as reações aos crimes de responsabilidade que cometeu. Começou com o presidente da Câmara Federal, Arthur Lira (PP/AL), que não citou os mais de 100 pedidos de impeachment que segura em troca de verbas federais ao Centrão, mas advertiu que não mais admitirá a cantilena do capitão pelo voto impresso. Depois foi o presidente do STF, ministro Luiz Fux, que proferiu o mais duro discurso contra um governante do país nos 213 anos da Corte, uma dúzia de anos mais velha que o Brasil independente de Portugal. Depois — até tu, Augusto Aras? — o procurador-geral da República fez um discurso morno, mas que garantiu o cumprimento da Constituição, que em seu artigo 85 tipifica as palavras de Bolsonaro como crime. Ainda na quarta (8), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), se comprometeu com a democracia ameaçada por Bolsonaro, deixando este completamente isolado politicamente. Por fim, na quinta (9), o ministro do STF Luís Roberto Barroso, na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fez entre todos a fala mais contundente, colocando o bolsonarismo em seu devido lugar obscurantista.

 

 

Foi esse mesmo obscurantismo, elevado por Bolsonaro à sua enésima potência, que se voltou contra ele mesmo. Na quarta, caminhoneiros que as próprias lideranças nacionais da categoria denunciaram agir a soldo de empresários e produtores rurais bolsonaristas, começaram a fechar estradas, inclusive em Campos, em 15 estados do país. Na quinta, em áudio de tom oposto a quem se intitula “imbroxável”, o presidente arregou pela primeira vez, suplicando aos caminhoneiros a liberação das estradas. O que, ironicamente, foi inicialmente tratado como fake news por quem foi adestrado a se “informar” por elas. E teve que ser confirmado em vídeo pelo ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas. Mas não sem antes ser parodiado pelo comediante Marcelo Adnet, na mais brilhante crônica política da situação surreal.

 

 

Completamente desmoralizado, Bolsonaro pediu socorro a um dos poucos interlocutores que lhe restaram, o impopular, mas habilíssimo politicamente, ex-presidente Michel Temer (MDB/SP). E, a conselho dele, no mesmo dia, o atual presidente arregou publicamente pela segunda vez. Prometeu respeitar a Constituição que ameaçou rasgar e cumprir as decisões do STF, inclusive as que ameaçou ignorar. E deixou os bolsonaristas com cara de tacho, no papel descartável de peão. Foram mordidos pela serpente que criaram, como os EUA com o Afeganistão. Cujo bote mais letal está armado para daqui a um ano: se confirmarem o voto no primeiro turno presidencial de 2022 em Bolsonaro, levarão Lula (PT) de volta ao poder.

 

Bolsonaro e Temer (Foto: Agência Brasil)

 

Não por acaso, entre os vários memes gerados pelo arrego vergonhoso do capitão, um deles trouxe um jovem bolsonarista, fantasiado de “patriota”, dando de cara em casa com suas malas arrumadas pela mãe. Surpreso, o filho abre o diálogo:

— Mãe, que malas são essas?

— São suas! Você vai para o Afeganistão. Lá é do jeito que você gosta: não tem STF, não tem direitos humanos, não tem urna eletrônica, não tem Congresso… Mas tem arma pra todo mundo e tudo é em nome de deus! — sentencia a sabedoria materna.

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Ciro Gomes analisa Brasil e 2022 no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (10), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Ciro Gomes (PDT), ex-governador do Ceará, ex-ministro dos governos Itamar Franco e Lula, e pré-candidato a presidente da República. Ele falará sobre o Brasil após as manifestações do 7 de setembro, a reação dos demais Poderes às ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), além do fechamento desastrado das estradas no país por caminhoneiros bolsonaristas. Ele falará também da economia nacional, com a volta da inflação, crises de desemprego e hídrica.

Por fim, Ciro falará das manifestações contra o governo Jair Bolsonaro programadas para este domingo (12) e do caminho à terceira via na eleição presidencial de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Crime de responsabilidade de Bolsonaro: Lira ignora; Fux, não

 

Luiz Fux, Arthur Lira e Jair Bolsonaro, presidentes, respectivamente, do STF, da Câmara dos Deputados e da República (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na tarde de hoje, os presidentes da Câmara Federal, deputado Arthur Lira (PP/AL), e do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, reagiram publicamente aos discursos golpistas feitos ontem, em Brasília e São Paulo, pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Lira, político conhecido pela firmeza, miou. Fux, jurista conhecido pela polidez, rugiu.

Lira ignorou o crime de responsabilidade cometido por Bolsonaro, ao dizer em São Paulo que ele e seus apoiadores não cumprirão as decisões judiciais do STF que não concordarem. O deputado foi duro somente ao que a coluna Ponto Final de hoje adiantou: não aceitará mais os questionamentos feitos ontem pelo capitão à decisão plenária da Câmara que sepultou em 10 de agosto a PEC bolsonarista do voto impresso.

No resumo da sua ópera alagoana, Lira garantiu que vamos ter eleição com urna eletrônica em 3 de outubro de 2022 — o que é obrigação constitucional e democrática, não favor. Mas não teremos aberto, pelo menos por enquanto, nenhum dos mais de 100 pedidos de impeachment do capitão.

Por sua vez, com seu sotaque de surfista carioca, Fux deu um recado duro a Bolsonaro, sem citar seu nome em nenhum momento, e aos seus seguidores. Na dúvida ainda das consequências práticas ao que foi dito ontem pelo presidente aos seus “cercadinhos” braziliense e paulistano, expandidos em dois meses de organização intensa, uma certeza: será preciso mais que um cabo e um soldado do Exército, ou dois tanques fumacentos da Marinha, para passar da bravata ao gópi:

— A crítica institucional não se confunde, nem se adequa com narrativas de descredibilização do Supremo Tribunal Federal e de seus membros, tal como vêm sendo gravemente difundidas pelo chefe da nação. Ofender a honra dos ministros, incitar a população a propagar discurso de ódio contra a instituição do Supremo Tribunal Federal e incentivar o descumprimento de decisões judiciais são práticas antidemocráticas, ilícitas e intoleráveis (…) Infelizmente tem sido cada vez mais comum que alguns movimentos invoquem a democracia como pretexto para ideais antidemocráticos. Estejamos atentos a esses falsos profetas do patriotismo (…) Povo brasileiro, não cai na tentação das narrativas fáceis e messiânicas (…) O Supremo Tribunal Federal também não tolerará ameaças à autoridade das suas decisões. Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa de qualquer dos Poderes, essa atitude, além de representar um atentado à democracia, configura crime de responsabilidade (…) Ninguém, ninguém fechará esta Corte! — garantiu o presidente do STF.

 

Confira abaixo os vídeos com as íntegras dos pronunciamentos de Lira e Fux:

 

 

 

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