Opiniões

Do 11 ao 7 de setembro, Bolsonaro e os EUA no Afeganistão

 

11 de setembro de 2001 em Nova York e 7 de setembro de 2021 em São Paulo (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Capa da Folha da Manhã de 12 de setembro de 2001

Hoje é 11 de setembro. Há 20 anos, se deu o atendado às Torres Gêmeas de Nova York e ao Pentágono, em Washington, com três jatos comerciais sequestrados por militantes islâmicos da Al Qaeda. Um quarto voo caiu na Pensilvânia, após a reação dos passageiros e tripulação. Até hoje não se sabe se o objetivo seria atingir também a Casa Branca ou o Capitólio. O fato é que muitos historiadores consideram aquela data o fim da Idade Contemporânea, iniciada com a Revolução Francesa em 1789. Se ainda não sabemos como será chamado o tempo em que vivemos, no Brasil, setembro também trouxe um marco que será devidamente registrado pela História. Foi a terça, dia 7, singular nos ataques golpistas à democracia brasileira pelo seu próprio presidente, eleito democraticamente em 2018. Que semeou vento e colheu tempestades nas reações firmes das instituições do país, culminando com o pedido público de arrego de um Jair Bolsonaro (sem partido) totalmente isolado na noite de quinta (09).

 

Presidente estadunidense John Kennedy e o premier soviético Nikita Khrushchev evitaram a III Guerra Mundial na crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962

 

Curiosamente, para se conhecer a origem dos dois eventos históricos setembrinos, dos EUA de 20 anos e do Brasil de hoje, necessário voltar ao mundo bipolar da Guerra Fria. Que foi disputada entre os dois grandes vencedores da II Guerra Mundial (1939/1945), os EUA capitalistas e o “socialismo real” da extinta URSS. Em outra curiosidade, a Guerra Fria teria início em 1947, com a disputa pela influência dos dois blocos mundiais sobre a Grécia, berço da democracia na comercial Atenas, como também do que muitos chamam de proto-comunismo, na militarizada Esparta. “Herdeiros atenienses”, os EUA venceram aquela primeira disputa. Como também venceriam a final, com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da “espartana” União Soviética, em 1991.

 

Tropas da União Soviética se retiram do Afeganistão, em 1989, após 10 anos ocupando do país (Foto: Ria Novosti)

 

Osama bin Laden

Entre as várias causas da queda da URSS, está a derrota humilhante que a potência militar mundial sofreu na 1ª Guerra do Afeganistão (1979/1989). Os soviéticos invadiram e ocuparam durante 10 anos seu vizinho pobre, asiático e islâmico. Até serem expulsos pelos mujahedin (“guerreiros sagrados” do Islã), não só afegãos, como também os muitos outros que a CIA, agência de espionagem dos EUA, recrutou em todo o vasto mundo islâmico, treinou e armou para combater sua maior rival na Guerra Fria. Entre estes jovens fundamentalistas islâmicos, camaradas em armas do soldado estadunidense mais conhecido de Hollywood, vivido pelo ator Sylvester Stallone em “Rambo 3” (1988, de Peter MacDonald), estava Osama bin Laden. Da Arábia Saudita e então com seus 20 e poucos anos, ele era filho da bilionária família proprietária da Saudi Bin-laden Group, conglomerado de petróleo e gestão de patrimônio, além de maior empresa de construção do mundo.

 

Stallone luta ao lado dos mujahedins do Afeganistão contra a União Soviética, em “Rambo 3”, de 1988

 

Se a ficção fosse realidade, Rambo e Osama lutariam lado a lado contra os soviéticos. Mas após ajudar a expulsar estes do Afeganistão, os EUA se desinteressaram pelo país. Cujo vácuo no poder foi ocupado por um grupo de radicais islâmicos, cujo fundamentalismo religioso foi estimulado pela CIA contra a ateia URSS, e ficaria mais conhecido como talibãs. Que, por sua vez, davam guarida a um grupo formado e liderado por Bin Laden, a Al Qaeda, durante a 1ª Guerra do Afeganistão. Concluída esta em 1989, no ano seguinte o mundo islâmico e do petróleo seria abalado com a invasão do Kwait pelo seu vizinho Iraque, em 1990, governado pelo ditador Saddam Hussein. Que os EUA também tinham armado, inclusive com blindados brasileiros da Engesa, para lutar na Guerra Irã-Iraque (1980/1988). Temendo que a invasão iraquiana ao Kwait se estendesse à vizinha Arábia Saudita, o Pentágono enviou suas forças militares ao país natal dos Bin Laden, onde ficam as duas cidades mais sagradas a qualquer muçulmano: Meca e Medina.

 

Tanque brasileiro Engesa EE-9 Cascavel, danificado e abandonado pelos iraquianos no campo de batalha da 1ª Guerra do Golfo, em 1991

 

Liderando uma coalizão internacional pela disputa das reservas de petróleo do Oriente Médio, os EUA derrotaram Saddam com certa facilidade, na 1ª Guerra do Golfo, em 1991. Mas a presença da potência militar, “infiel” aos islâmicos radicais, tão perto de Meca e Medina, transformou em inimigos os ex-aliados contra a URSS no Afeganistão. E o resultado foram os atentados de 11 de setembro de 2001, ao custo de 2.996 vidas humanas. Feridos em seu coração, os EUA retaliaram iniciando a 2ª Guerra do Afeganistão em 2001, menos de um mês após as duas torres do World Trade Center virem abaixo. E promoveram também a injustificada 2ª Guerra do Golfo em 2003, contra o Iraque que nada tinha a ver com a história. Mas que custaria a cabeça de Saddam, julgado e morto por enforcamento em 2006. Além da caçada a Bin Laden, que só terminaria com sua execução a tiros em 2011, no Paquistão, por forças especiais estadunidenses.

 

Saddam Hussein foi capturado e preso em 13 de dezembro de 2003, por militares dos EUA, no porão de uma fazenda da cidade de Adwar, próxima a Ticrite, sua cidade natal

 

Mordidos pelas serpentes que criaram, os EUA ocupariam o Iraque por oito anos, de 2003 a 2011. E por 20 anos, de 2001 a 2021, o Afeganistão, deixando o país em humilhante retirada, consumada no último dia 30. E o entregaram com relativa facilidade aos inimigos e ex-aliados talibãs. Que na última quarta (8) dispersaram a tiros de fuzil uma manifestação de corajosas mulheres afegãs nas ruas da sua capital, Kabul. Elas faziam protesto pacífico pelo fato do novo governo do seu país, anunciado naquele mesmo dia, não ter nenhuma presença feminina.

 

Durante a retirada dos EUA do Afeganistão, em 19 de agosto, bebê é passado sobre o muro e a cerca de arame no aeroporto de Kabul (Foto: Omar Haidari/Reuters)

 

Um dia antes das mulheres de Kabul, centenas de milhares de brasileiros saíram as ruas de 167 cidades do seu país, inclusive Campos, para prestarem apoio ao governo Bolsonaro. Que usou de todos os meios possíveis para arregimentá-los nos dois meses anteriores. A favor do capitão e contra seu “inimigo” da vez: o Supremo Tribunal Federal (STF), que tem o presidente da República investigado em cinco inquéritos. Aos quais ele respondeu com o que deve gerar outro, por crime de responsabilidade, ao dizer na av. Paulista que nem ele, nem seus seguidores, respeitarão decisões judiciais com os quais não concordem.

 

 

O motivo? Do alto da sua inteligência, o presidente deixou bem claro: “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso!”. Faltou incluir seus filhos, todos igualmente investigados pela prática de crimes: o senador Flávio (Zero Um), o vereador Carlos (Zero Dois), o deputado federal Eduardo (Zero Três) e até Jair Renan (Zero Quatro). Este, não era nada antes do pai assumir a presidência. Mas hoje é um dos proprietários da empresa Bolsonaro Jr Eventos e Mídia, em sociedade com o lobista Marconi Albernaz de Faria. Este, por sua vez, revelado na CPI da Covid como intermediário da Precisa Medicamentos, que negociou com o ministério da Saúde a compra de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin, por R$ 1,6 bilhão do dinheiro público. Que foi cancelada por suspeita de corrupção no governo do “acabou a mamata”.

 

 

No 7 de setembro da Paulista, Bolsonaro também chamou de “fraude” a eleição presidencial de 2022. O motivo? Ele hoje perderia em todas as simulações de segundo turno, em todas as pesquisas. Nas quais vem derretendo popularidade neste ano de 2021. A última, do PoderData, divulgada dia 2, revelou que 63% dos brasileiros reprovam o seu governo. Não é necessário entender muito de aritmética para constatar que é uma rejeição proibitiva a qualquer candidato em uma eleição com dois turnos. Cujo segundo só existe para que um deles vença pelo mínimo de 50% + 1 dos votos válidos.

 

 

Ainda assim, o presidente mantém resilientes 27% de aprovação. Entre estes, segundo outro instituto de pesquisa, o Datafolha, 12% são os chamados “bolsonaristas-raiz”. É a minoria absoluta, mas fanática e ruidosa, que saiu às ruas no dia que deveria se celebrar a Independência. Dependentes do seu “mito”, se este matar a mãe, em praça pública, provavelmente dirão: “a velha merecia porque era comunista”. Para essa gente, a Guerra Fria, sepultada há 30 anos, ainda não acabou. Acreditam na ameaça comunista como as crianças acreditam no velho do saco.

 

 

Nos dias 8 e 9, Bolsonaro colheu as reações aos crimes de responsabilidade que cometeu. Começou com o presidente da Câmara Federal, Arthur Lira (PP/AL), que não citou os mais de 100 pedidos de impeachment que segura em troca de verbas federais ao Centrão, mas advertiu que não mais admitirá a cantilena do capitão pelo voto impresso. Depois foi o presidente do STF, ministro Luiz Fux, que proferiu o mais duro discurso contra um governante do país nos 213 anos da Corte, uma dúzia de anos mais velha que o Brasil independente de Portugal. Depois — até tu, Augusto Aras? — o procurador-geral da República fez um discurso morno, mas que garantiu o cumprimento da Constituição, que em seu artigo 85 tipifica as palavras de Bolsonaro como crime. Ainda na quarta (8), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG), se comprometeu com a democracia ameaçada por Bolsonaro, deixando este completamente isolado politicamente. Por fim, na quinta (9), o ministro do STF Luís Roberto Barroso, na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fez entre todos a fala mais contundente, colocando o bolsonarismo em seu devido lugar obscurantista.

 

 

Foi esse mesmo obscurantismo, elevado por Bolsonaro à sua enésima potência, que se voltou contra ele mesmo. Na quarta, caminhoneiros que as próprias lideranças nacionais da categoria denunciaram agir a soldo de empresários e produtores rurais bolsonaristas, começaram a fechar estradas, inclusive em Campos, em 15 estados do país. Na quinta, em áudio de tom oposto a quem se intitula “imbroxável”, o presidente arregou pela primeira vez, suplicando aos caminhoneiros a liberação das estradas. O que, ironicamente, foi inicialmente tratado como fake news por quem foi adestrado a se “informar” por elas. E teve que ser confirmado em vídeo pelo ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas. Mas não sem antes ser parodiado pelo comediante Marcelo Adnet, na mais brilhante crônica política da situação surreal.

 

 

Completamente desmoralizado, Bolsonaro pediu socorro a um dos poucos interlocutores que lhe restaram, o impopular, mas habilíssimo politicamente, ex-presidente Michel Temer (MDB/SP). E, a conselho dele, no mesmo dia, o atual presidente arregou publicamente pela segunda vez. Prometeu respeitar a Constituição que ameaçou rasgar e cumprir as decisões do STF, inclusive as que ameaçou ignorar. E deixou os bolsonaristas com cara de tacho, no papel descartável de peão. Foram mordidos pela serpente que criaram, como os EUA com o Afeganistão. Cujo bote mais letal está armado para daqui a um ano: se confirmarem o voto no primeiro turno presidencial de 2022 em Bolsonaro, levarão Lula (PT) de volta ao poder.

 

Bolsonaro e Temer (Foto: Agência Brasil)

 

Não por acaso, entre os vários memes gerados pelo arrego vergonhoso do capitão, um deles trouxe um jovem bolsonarista, fantasiado de “patriota”, dando de cara em casa com suas malas arrumadas pela mãe. Surpreso, o filho abre o diálogo:

— Mãe, que malas são essas?

— São suas! Você vai para o Afeganistão. Lá é do jeito que você gosta: não tem STF, não tem direitos humanos, não tem urna eletrônica, não tem Congresso… Mas tem arma pra todo mundo e tudo é em nome de deus! — sentencia a sabedoria materna.

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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