Jacaré com cobra d’água — Eleição a governador do RJ

 

Cláudio Castro, Eduardo Paes, Marcelo Freixo e Rodigo Neves (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Orlando Thomé Cprdeiro, consultor em estratégia

Jacaré com cobra d’água

Por Orlando Thomé Cordeiro

 

Os atores que estão buscando se viabilizar para entrar em campo no jogo eleitoral em 2022 andaram algumas casas nas últimas semanas.

O governador Cláudio Castro, dando continuidade a seu trabalho de articulação com prefeitos e prefeitas, tem marcado presença em diversas solenidades onde formaliza o repasse de recursos aos municípios, principalmente aqueles decorrentes do leilão da Cedae. Na semana passada foi a vez da capital.

Chamou à atenção o clima de absoluta cordialidade e simpatia entre o prefeito Eduardo Paes e o governador. Em nada lembrava os momentos de refregas que marcaram a relação entre os dois no primeiro semestre, com troca de estocadas nas redes sociais. Na solenidade, eles pareciam quase amigos de infância. O que mudou?

Vamos recordar que no início do ano o governador estava em tratativas avançadas para sair do PSC e ingressar no PSD. Tudo parecia caminhar bem, mas em maio ele foi surpreendido com a divulgação da filiação de Paes ao PSD pelas mãos de seu presidente nacional, Gilberto Kassab. Diante dessa notícia, só restou a ele buscar abrigo em outra legenda, no caso o PL.

E a disputa era tão evidente que ambos se filiaram às suas novas legendas no mesmo dia, 26 de maio, em solenidades públicas, sendo que a do governador foi em Brasília com a presença do presidente Bolsonaro. Desde então, começaram a rivalizar na busca de apoio para seus projetos eleitorais, com o governador se apresentando como o candidato do presidente e o prefeito lançando a candidatura de Felipe Santa Cruz, presidente nacional da OAB.

Além desses citados acima, são públicas as pré-candidaturas de Marcelo Freixo e Rodrigo Neves. O primeiro, muito conhecido por anos de militância no Psol, resolveu se filiar ao PSB em um movimento para tentar atrair o eleitorado mais ao centro. Já o segundo saiu da prefeitura de Niterói muito bem avaliado, inclusive elegendo seu sucessor, mas que ainda é pouco conhecido da maioria da população.

Aparentemente, esse era o cenário de candidaturas que se desenhava, sem nenhuma novidade à vista, mas nada como um dia após o outro, com a noite no meio. O crescimento acentuado da desaprovação de Bolsonaro tem gerado novas movimentações do governador no sentido de tentar se desvencilhar da pecha de bolsonarista.

Essa talvez seja a explicação para estarmos presenciando a retomada da narrativa utilizada por ele durante o período em que assumiu o governo interinamente, quando se apresentava como um gestor exclusivamente preocupado em promover um grande pacto em defesa da recuperação do estado.

Somem-se a isso os constantes recados enviados por articuladores políticos de seu entorno ressaltando que, por estar impedido de concorrer à reeleição, apoiá-lo em 2022 não prejudica os concorrentes que teriam a pista livre em 2026.

Recentemente, fiquei sabendo por fontes muito próximas ao governador que seu sonho de consumo é formar uma chapa com um candidato a vice-governador indicado pelo prefeito Eduardo Paes e ter o deputado estadual André Ceciliano, do PT, como candidato ao Senado. Neste sentido, do ponto de vista deles, seria natural uma ampla aliança sem vinculação obrigatória com a disputa presidencial. Cada um faria a campanha para o candidato a presidente de seu partido, mas todos estariam juntos no palanque estadual.

Para quem não se lembra, já tivemos situações semelhantes na história política recente. Quem não se lembra que nas eleições de 2006, em MG, foi criada a chapa Lulécio, juntando Lula para presidente e Aécio para governador. Já em 2014 tivemos no RJ o Aezão, com Aécio presidente e Pezão governador.

Ainda no terreno das lembranças, no mês passado viralizou um vídeo do ex-prefeito de Maricá, Washington Quaquá, do PT, em que agradecia os recursos do governo do estado para aquele município, falando “É Lula e Castro em 2022”.

Outro elemento relevante numa eventual composição a ser liderada por Cláudio Castro é a indicação para a próxima vaga a ser aberta no TCE-RJ em razão da possível aposentadoria compulsória do conselheiro Aloysio Neves. Com os deputados estaduais Marcio Pacheco (PSC) e Rosenverg Reis (MDB) aparecendo como candidatos mais fortes.

Caso essas articulações prosperem, o principal prejudicado seria Freixo. Afinal, cairia por terra todo seu esforço para articular uma chapa agregando o PT do ex-presidente Lula, outros partidos de esquerda e partidos de centro, de forma a evitar repetir a situação vivida por ele em eleições majoritárias que disputou anteriormente: chegava ao segundo turno, mas acabava derrotado.

Claro que ainda falta mais de 1 ano para o pleito e muita água ainda vai passar debaixo dessas pontes. Porém, não se pode descartar a possibilidade de que essa chapa seja construída. Seria mais um casamento de jacaré com cobra d’água. 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Deixe um comentário