Lágrimas na chuva — Centenário da vida do Mestre Ziza

 

Zizinho, o Mestre Ziza

Na última terça, se fosse vivo, Thomaz Soares da Silva teria completado 100 anos. Nasceu em São Gonçalo, morou e viveu em Niterói. De onde atravessava a Baía de Guanabara nas barcas, em um tempo antes da Ponte Rio/Niterói, para brilhar no futebol carioca, brasileiro e do mundo. Considerado o jogador mais completo antes de Pelé e único ídolo nos campos assumido por este, passaria a história como Zizinho, ou Mestre Ziza. Prejudicado pela II Guerra Mundial (1939/1945), foi eleito pela imprensa internacional como grande craque da única Copa do Mundo que jogou, no Brasil, em 1950. Preterido injustamente na Copa de 1954, na Suíça, viu surgir nesta seu sucessor, como camisa 8 e cérebro da Seleção Brasileira: o campista Didi.

Dois maiores meias direita da história do futebol brasileiro: Zizinho e seu “herdeiro” Didi

Fã de Didi, meu pai, o jornalista Aluysio Barbosa, viu ambos jogarem. E morreu em 2012 sem nunca decidir, entre os dois, quem foi o maior meia armador da história do futebol brasileiro. Mas o velho Aluysio não tinha dúvida em testemunho que sempre me impressionou. Para ele o grande craque de todos os tempos do Flamengo não era Zico, mas Zizinho. E, sabendo por conta própria o que foi o Galo ao Rubro-negro, me perdia desde criança na vertigem de tentar imaginar o que pudesse estar ainda acima.

Só na noite de terça vi o aviso do editor de Esportes da Folha, Matheus Berriel, sobre o centenário de Zizinho naquele mesmo dia. Já era tarde para a edição impressa de quarta, mas não para assistir a um documentário, produzido e exibido pela ESPN Brasil, no finalzinho da terça. Emocionei-me, às lágrimas, vendo o especial sobre os 100 anos de Zizinho. Gênio antes da TV, cujo teto da Sistina não vemos e 9ª Sinfonia não escutamos. Herói trágico e esquecido, talvez por isso ainda mais belo, de um país sem memória.

Não por outro motivo e antes tarde do que nunca, republico hoje um texto que escrevi para este mesmo jornal, em 17 de fevereiro de 2002, nove dias após a morte do Mestre, sobre uma tabela que a vida nos deu:

 

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade”

(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

 

“Vi coisas que vocês nem imaginariam.

Vi naves em fogo na encosta de Orion.

Vi raios cósmicos cingindo o espaço em Tanhauser Gate.

E esses momentos ficarão perdidos para sempre…

como lágrimas na chuva”

(Do filme “Blade Runner”)

 

Heróis do meu pai: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode, em pé; Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo, agachados

 

Lágrimas na chuva

 

Sou filho de um adolescente de 14 anos, cuja grande frustração foi não ter ido, junto com seu pai e irmão mais velho, à final da Copa de 1950, em 16 de julho, no recém-inaugurado Maracanã. Daqui de Campos, pelo rádio, o garoto (?) vibrou com o primeiro gol do jogo, de Friaça, que certamente abriria a contagem para mais uma goleada, igual às dos dois últimos jogos — 7 a 1 sobre a Suécia, campeã olímpica de 1948, e 6 a 1 diante da Espanha, quando um coro demais de 200 mil pessoas cantava “Touradas de Madri” das arquibancadas.

O belo gol, emendando de primeira, de Juan Alberto Schiaffino — cracaço da Celeste Olímpica, integrante da lista oficial dos dez maiores camisa 10 que o mundo já viu, mesmo 50 anos após sua maior conquista — fez com que meu velho (?) e toda uma nação despencassem de nuvens soberbas com a cara no chão, passando a torcer como doidos pelo empate que garantiria o título. Dez minutos mais tarde, aos 34 do segundo tempo, após uma arrancada pela direita, veio aquele chute fatal de Ghiggia, quase sem ângulo, entre Barbosa e a trave. Que selou a história que todo brasileiro já ouviu falar e os uruguaios, chamando-a “Maracanazzo”, até hoje se ufanam ao contar.

 

Gol de Alcides Ghiggia, sem ângulo, que selou a maior derrota do Brasil no Maracanã: 2 a 1 ao Uruguai, na final da Copa de 1950

 

Com a dimensão, desde muito novo, desse fantasma do imaginário nacional, “tragédia maior que a de Canudos”, nas palavras de Nelson Rodrigues, me interessei pela história até esgotar as narrações de meu pai. Além, passei a ler o que me caísse à mão sobre aquele grande time marcado pela fatalidade. Tomei ciência, por exemplo, de que nosso scratch — para usar um anglicismo recorrente à crônica da época — era regido por um meia direita que a crítica internacional, aqui presente pela Copa, elegeu como jogador mais completo que já havia surgido no mundo até então: Zizinho, o Mestre Ziza.

E olha que naquela Copa ainda jogaram, além de Schiaffino, craques do porte do também uruguaio Julio Perez, do iugoslavo Rajko Mitic, do inglês Stanley Matthews, além dos próprios brasileiros Jair Rosa Pinto, Ademir Menezes, Danilo e Bauer. Como disse nosso tacanho Felipão e o Fernando Calazans vive satirizando em sua coluna: eram aqueles (bons) tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.

Quando Péris Ribeiro, amigo daquele adolescente de 1950, lançou seu “O Brasil e as Copas”, em 1986, me presenteou, além dele, com um livro sobre a vida do Mestre Ziza, cujo título e autor não recordo, pois fiz a besteira de depois emprestá-lo. O primeiro livro me deu a base histórica de todo deslumbramento que colhi em 1982, nos injustos gramados de Espanha, com Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Luisinho, Cerezzo e cia. — “Maracanazzo” da minha geração. Já o segundo, me proporcionou a dimensão completa daquele grande mestre do futebol de que tanto ouvira falar.

 

Flamengo Tricampeão de 1944: Jurandir, Newton, Quirino, Valido, Jaime, Bria, Pirilo, Zizinho, Tião, Biguá e Vevé

 

Zizinho pelo São Paulo e seu fã Pelé, pelo Santos

Além da tragédia épica de 50, descobri ter sido Zizinho o grande ídolo de Pelé e, muito mais importante, herói da primeira grande conquista de meu time, construída ao lado de gente como Domingos da Guia, Jurandir, Biguá, Valido e Vevé: o tri estadual do Flamengo de 1942/1943/1944. Vendido ao Bangu numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas, foi depois, já velho, jogar pelo São Paulo, ao qual conduziu ao título estadual de 57.

Algum tempo depois, quando Péris lançou seu “Didi, o gênio da folha seca”, em 1993, numa livraria do Leblon, fui ao Rio prestigiar o amigo. Comigo foram Luiz Costa — que cobriu o evento pela Folha — e Adelfran Lacerda, todos conduzidos pelo hábil volante (de carro) Leonardo Moreira. Pegando chuva desde Rio Bonito, chegamos ao Rio e paramos em Copacabana, para apanhar Christiano, meu irmão, então estudante universitário da PUC/RJ.

Ouvindo as impagáveis histórias de Leonardo, fui durante a viagem me preparando psicologicamente para o encontro cara a cara com o campista Didi, maior jogador da Copa de 1958, na Suécia, nosso primeiro Mundial; bicampeão pela Seleção, em 1962, no Chile; e, não fosse mais nada, herdeiro de Mestre Ziza. Aí eu entro na livraria e vejo não só Didi, mas também Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Vavá, Belini, Gerson, Afonsinho e… Zizinho.

Num dos poucos momentos em que despertei do meio transe no qual permaneci durante quase todo o coquetel, em meio a todos aqueles semideuses da bola, vi Luiz Costa indagar a Zizinho: “Você foi tido em sua época como o maior jogador do mundo e muitas pessoas hoje não têm essa dimensão. A que credita isso?”.

Ele respondeu: “O Brasil não sabe preservar sua história. Os jovens de hoje só querem saber de ouvir música americana no rádio e ver televisão. E eu não joguei na época da televisão!”.

A amargura do ídolo entrou pelo meu ouvido e ficou como fel salivando na boca. Talvez por isso não tenha tirado os olhos dele até que saísse do evento, acompanhado da esposa. Passaram pela porta, e, enquanto ela abria a sombrinha para protegê-los da chuva, enfrentei a timidez, saí também, me dirigi a eles e gritei: “Zizinho!”.

Ele se virou. Eu disse: “Ouvi o que você falou lá dentro para o repórter. Pois eu sou jovem, gosto de música americana, mas ouvi e li muito sobre você. Você foi o melhor do mundo, jogou no meu time e foi campeão por ele. Nunca te vi jogar, mas você é um dos meus ídolos no futebol”.

Em meio à chuva fina, olhos marejaram e sorrisos se revelaram. Nos demos as mãos e o cumprimento virou um abraço. Após, ele deu um tapinha paternal na minha face e disse: “Valeu, garoto!”. Virou-se pela última vez, se abraçou à mulher, que também sorria com olhos infiltrados, e juntos saíram pela noite chuvosa, caminhando com a mesma classe que sempre atribuí, em minha imaginação, às suas passadas nos campos.

O Mestre morreu, mas nunca vou esquecer essa tabela que a vida nos deu.

 

Página 12 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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