Igor Franco — O ocaso liberal

 

 

Igor Franco, especialista em Finanças e professor do Uniflu

O ocaso liberal

Por Igor Franco

 

Na sexta-feira, o presidenciável João Amoêdo, um dos fundadores do Novo, partido declaradamente liberal, foi o entrevistado do programa Folha no Ar. Profissional oriundo de uma carreira de sucesso no mercado financeiro — o que até hoje lhe rende a injusta qualificação de “banqueiro” —, Amoêdo tornou-se a face mais conhecida do seu partido.

Criado com o objetivo de romper com a tradição da maior parte dos partidos, o Novo adotou práticas inovadoras na democracia partidária brasileira: rejeitou verba pública, promoveu uma espécie de processo seletivo para seus candidatos, defendeu abertamente privatizações e redução do tamanho do Estado, num tempo em que tais ideias ainda eram amaldiçoadas no país. Outrora, o Novo causava curiosidade, deslumbramento dos entusiastas e críticas do campo ideológico contrário.

Fosse há poucos anos, provavelmente Amoêdo teria tido vida mais fácil perante os entrevistadores e os sempre atentos e incisivos ouvintes do programa. Sexta-feira, porém, o presidenciável se viu obrigado a responder questionamentos que iam desde as denúncias de corrupção envolvendo o ex-ministro Ricardo Salles — que fez parte dos quadros do partido —, passando por uma aparente ruptura interna com membros extremamente alinhados ao presidente Jair Bolsonaro e chegando à contestada capacidade do programa liberal de responder aos desafios recentes. A impressão é que, apesar de nunca ter feito parte da base do governo, pelo menos de forma oficial, o apoio do Novo a diversos pontos da plataforma bolsonarista desgastou o partido e traz, inclusive para seus apoiadores, a dúvida quanto à viabilidade do projeto para o Brasil. O liberalismo do Novo envelheceu.

Surgido no século XVII, o liberalismo político surge num contexto de muitas restrições às liberdades civis e à mobilidade social dos cidadãos. Suas ideias são rapidamente abraçadas com entusiasmo na classe burguesa. À época, uma classe emergente que ameaçava a hegemonia da aristocracia e, por conseguinte, dos monarcas. Numa espécie de aplicação sociológica da ideia da “Mão-Invisível” de Adam Smith, o auto-interesse de preservação das recentes conquistas da burguesia culminou em uma sucessão de revoluções sociais e culturais motivadas pelas ideias de liberdade. E acabou nos legando uma série de conquistas consideradas como pilares da civilização moderna. A limitação de poderes dos governantes, o reconhecimento de direitos inalienáveis, a proteção à propriedade privada, o sistema de freios e contrapesos, entre outras conquistas, são legados inegáveis do movimento liberal.

Após a luta contra o poder absolutista, o liberalismo político ganhou novo impulso com os movimentos de independência das colônias europeias. Mais recentemente, a doutrina das liberdades individuais passou a superar obstáculos lentamente nas liberdades civis e identitárias. Já o liberalismo econômico, após o ostracismo causado pela Grande Depressão de 1929, retorna com protagonismo na década de 1970, sendo rapidamente adotado como doutrina econômica dominante desde então. Embora resumido em poucas linhas, as ideias liberais já percorreram longos 400 anos desde o seu surgimento.

A contradição entre a suposta ou aparente defesa da liberdade e a conexão a autoritarismos de diversas naturezas, porém, não é novidade no liberalismo. John Locke, um dos primeiros teóricos do liberalismo, justificava a escravidão ao mesmo tempo em que estabelecia marcos históricos em favor das liberdades políticas e de culto. George Washington, um dos fundadores da república americana, era senhor de escravos. Milton Friedman, considerado o pai do “neoliberalismo”, foi mentor intelectual de uma série de políticos proeminentes do regime ditatorial de Pinochet, no Chile.

No Brasil, onde as ideias de liberdade nunca foram tão populares e cuja história pode ser contada através de diversos golpes e regimes autoritários se sucederam há até trinta anos atrás, o liberalismo político, mais que uma necessidade, seria uma decorrência natural da nossa história. Porém, em roteiro bem tupiniquim, nossa primeira experiência liberal começa no período Imperial e termina logo quando da República de 1989. A carência de expoentes políticos faz de Roberto Campos o mais famoso liberal de nossa história. Embora dono de uma coleção de entrevistas e escritos memoráveis em favor do liberalismo, Campos tem sua biografia marcada pela sua contribuição ao regime autoritário de Vargas e como ministro do Planejamento do governo Castelo Branco, logo após o golpe de 1964.

Hoje, a história parece se repetir com o apoio dado por grande parte dos deputados do Novo à agenda do governo federal — que não envolve a área econômica — tocada, aliás, pelo ministro Paulo Guedes, um dos acadêmicos mais abertamente liberais de nossa história. Sob uma aparente tentativa de ceder parte da liberdade política por maior liberdade econômica e reformas estruturais, muitos liberais parecem não perceber o fracasso desse movimento, que acaba por colher mais autoritarismo e menos desenvolvimento. O que torna o movimento sócio de um fracasso retumbante na condução do país. Como bem definido por críticos do governo brasileiro, a tentativa de “liberalizar” Bolsonaro se converteu fatalmente numa “bolsonarização” do liberalismo tupiniquim.

Como liberal saudoso de um tempo que não chegou, me resta apenas torcer para que haja um ponto de retorno e que nossos quatrocentos anos passem rápido.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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