RJ vê a metropolização da região da Bacia de Campos

 

Com Campos como polo, municípios do interior fluminense que integram o processo de metropolização da região da Bacia de Campos

 

 

William Passos, geógrafo e consultor especializado em estatística e desenvolvimento regional

Metropolização da região da Bacia de Campos veio para ficar

Por William Passos

 

Os recentes acenos do presidente da Alerj, André Ceciliano (PT), do pré-candidato a governador Marcelo Freixo (PSB), do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), e até mesmo a própria aliança do governador Cláudio Castro (PL) com as famílias Bacellar e Garotinho, ao mesmo tempo, mostram a força simbólica de Campos dos Goytacazes como capitalidade do interior do estado do Rio de Janeiro.

Em entrevista ao Folha no Ar de 9 de julho, Eduardo Paes disse que o estado do Rio de Janeiro deveria ter duas capitais, sendo Campos uma delas. Marcelo Freixo, embora tenha dividido a visita ao interior com Macaé e Rio das Ostras em 27 e 28 de agosto, deu mais destaque a Campos nas suas redes sociais. E André Ceciliano, em artigo publicado na Folha da Manhã e no blog Opiniões, no último dia 29, fez questão de destacar a geração de energia termelétrica, especialmente no Porto do Açu, e o potencial de energia solar no Norte Fluminense.

Um recente trabalho científico publicado na revista Caderno do Desenvolvimento Fluminense, editado pela Fundação Ceperj e pela Uerj, concluiu que a energia solar fotovoltaica encontra-se em franco processo de expansão nas cidades das Baixadas Litorâneas e Norte Fluminense, com Campos assumindo a liderança tanto em potência instalada quanto na quantidade de conexões. Segundo os autores, três pesquisadores da UFRJ, um da Femass/Macaé e uma pesquisadora da Empresa Marte Engenharia Ltda, “Campos dos Goytacazes atualmente apresenta mais de um terço da potência instalada no município do Rio de Janeiro, que conta com uma população doze vezes maior”.

As termelétricas instaladas no Açu, assim como os demais investimentos instalados e que virão, ao contrário do entusiasmo do presidente da Alerj e das expectativas, não devem produzir grandes transformações no Norte Fluminense porque o Complexo do Açu instalou-se em São João da Barra sob a forma de um enclave. Ou seja, separado da cidade e mantendo muito mais relações com o exterior e com outras partes do Brasil, do que propriamente com o território do Norte Fluminense.

Nesse sentido, as declarações de Ceciliano, em conjunto com os acenos de Freixo, Paes e Castro, que recentemente visitou a região e vem atraindo os prefeitos, devem ser interpretadas como o reflexo do fortalecimento de Campos e região, e da capitalidade histórica de Campos — influência e referência de capital, mesmo sem sê-la. Campos configurava a principal concentração de nobres do Brasil (barões, viscondes, comendadores, etc) por metro quadrado no Segundo Reinado (período D. Pedro II); chegou a reivindicar a condição de capital de uma nova província que seria criada pelo desmembramento do norte do Rio de Janeiro e do sul do Espírito Santo; e elegeu um presidente da República (Nilo Peçanha) e três governadores do estado do Rio de Janeiro, contando com o próprio Nilo.

No entanto, os acenos de Ceciliano e demais figuras de peso no cenário político fluminense estão muito mais associadas ao fortalecimento econômico da porção territorial que vai de Araruama até São João da Barra, pelo litoral e acompanhando a produção da Bacia de Campos, do que propriamente pelas termelétricas instaladas (ou ainda a serem instaladas) no Açu, pelo potencial de energia solar do Norte Fluminense ou mesmo pela força do maior colégio eleitoral do interior do estado (Campos dos Goytacazes), com quase 400 mil eleitores. Ainda que não constitua um componente explícito do discurso destes personagens políticos, há algo de novo sob o Sol gerado pelo petróleo. No fundo, todos eles sabem que o estado do Rio de Janeiro já não é mais o mesmo.

Há algo de novo no ar, e esse é novo é uma transformação profunda e que veio para ficar. Essa transformação é a metropolização do nosso interior. E o interior do Rio de Janeiro não existe sem Campos!

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Aristides Arthur Soffiati Netto

    Por tópicos para ser breve, e sem ufanismos
    1-O norte-noroeste fluminense começou com a capitania de São Tomé-Paraíba do Sul no século XVI-XVII. Ela se estendia do rio Itapemirim ao rio Macaé. Não havia capitania do Rio de Janeiro. Esta resultou da união de parte da capitania de São Vicente e de toda a capitania de Paraíba do Sul.
    2-Em 1742, o Distrito de Campos dos Goytacazes, divisão administrativa da capitania do Rio de Janeiro, passou para a capitania do Espírito Santo no que concerne à aplicação da justiça, mas o governo capixaba excedeu em suas atribuições. Em 1815, o naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied informou que Campos era o maior núcleo urbano (ainda como vila) entre as cidade do Rio de Janeiro e de Salvador. O distrito pertencia à capitania do Rio de Janeiro, mas sua representação política estava em Vitória.
    3-Em 1832, a administração da justiça de Campos voltou ao Rio de Janeiro, agora como sede da comarca de Campos. Em 1835, a vila foi elevada a cidade. A região entre os rios Itapemirim e Macaé continuava dividida entre Rio de Janeiro e Espírito Santo.
    4-Sendo uma área rica economicamente, graças ao açúcar sobretudo, Campos liderou, em 1855, um movimento pela criação de uma nova província, formada por parte do território do Rio de Janeiro (rio Macaé), do território do Espírito Santo (até o rio Itapemirim) e do território de Minas Gerais. O movimento contou com o apoio da vila de Itapemirim, mas fracassou. Restou o pleito de que a capital da província do Rio de Janeiro fosse transferida de Niterói para Campos, mas ela se transferiu de Niterói para Petrópolis entre 1894 e 1902 por causa da Revolta da Armada, voltando a Niterói.
    5-Em 1873, foi apresentada um projeto de redivisão das províncias do Brasil. A do Espírito Santo cederia território do norte à Bahia e incorporaria território do Rio de Janeiro até a totalidade da lagoa Feia. O projeto não prosperou.
    6-Em 1931, Alberto Ribeiro Lamego lançou um opúsculo pleiteando a transferência do antigo estado do Rio de Janeiro para Campos.
    7-A partir de então, a discussão sobre a criação de um novo estado dentro da federação e da transferência da capital do estado do Rio de Janeiro de Niterói para Campos estendeu-se até 2001.
    8-A partir de 1980, algumas transformações estruturais se operaram na antiga região norte fluminense. Ela foi dividida em duas: norte e noroeste; Macaé despontou como o polo mais dinâmico da região norte depois da instalação de uma base da Petrobras; as duas regiões foram contemplada com royalties do petróleo em escalas diferentes; a cana e as usinas entraram em declínio; em São João da Barra, instalou-se um complexo industrial-portuário de grande magnitude, porém relativamente fechado à economia regional.
    9-Agora, políticos representativos do estado, como André Ceciliano, Marcelo Freixo, Eduardo Paes e Claaudio Castro ressaltam a importância de Campos, chegando mesmo a defender, como no caso de Eduardo Paes, duas capitais para o novo estado do Rio de Janeiro (formado pelos antigos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara). Uma continuaria a ser o Rio de Janeiro. A outra seria Campos.
    10-Tenho refletido sobre tais manifestações, agora saídas da boca de políticos não-regionais, como aconteceu no passado. De fato, tem se falado na recuperação da região com a cana e com a energia. O colégio eleitoral de Campos deve ser considerado e as eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais estão próximas. Haverá sinceridade nas palavras desses políticos ou apenas bajulação?
    11-A região tem um alto potencial energético para o futuro. Tendo em vista os novos tempos, esqueçamos o petróleo e o gás natural para pensar nas fontes representadas pelo sol, pelos ventos e pelo mar, como apontou um atlas formulado pela PUC nos anos de 1980. Campos deve considerar que agora tem um rival em Macaé e que é melhor desenvolver um projeto de desenvolvimento endógeno afinado às novas exigências mundiais.

  2. Sidney Siqueira

    A criação de um novo estado englobando o Norte, Noroeste fluminense, baixadas litoraneas e parte da zona da Mata de Minas e mais que necessário, e todo um processo de identidade econômica, social e cultural.

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