Campos e região começam a sair da crise econômica?

 

Com aumento das receitas do petróleo em mais de 92% em relação a 2020, quando teve duas Participações Especiais (PEs) zeradas, Campos começa a sair da crise econômica nestes quase 10 primeiros meses de 2021? Esta, entre outras perguntas, foram feitas, em ordem alfabética, a Fábio Ribeiro (PSD), vereador, presidente da Câmara de Campos e do Parlamento Regional dos 22 municípios do Norte e Noroeste Fluminense; Igor Franco, especialista em finanças e professor do Uniflu; José Francisco Rodrigues, empresário e presidente da CDL, e o petroleiro José Maria Rangel (PT), diretor do Sindipetro-NF. Suas respostas, se não chegam a ser desanimadoras, demonstram o quanto a cidade e a região estão e continuarão a estar à mercê da incontrolável conjuntura internacional do petróleo. Assim como de suas próprias limitações de infraestrutura física, capital humano e desigualdade social. Cuja resolução urge para encarar processos inevitáveis, como a metropolização da região da Bacia de Campos. Entre as várias sugestões dadas por quatro pensamentos muitas vezes distintos, pontos de interseção, como o diálogo entre poder público e sociedade civil, foram estabelecidos neste painel.

 

Vereador Fábio Ribeiro, especialista em finanças Igor Franco, empresário José Francisco Rodrigues e petroleiro José Maria Rangel (Montagem: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Após um ano de 2020 economicamente muito difícil, com duas PEs ineditamente zeradas em agosto e novembro, tudo até aqui aponta um 2021 com finanças menos apertadas a Campos. Dá para dizer que saímos da crise?

Fábio Ribeiro – Lógico que não dá para dizer que saímos da crise, porém posso afirmar que estamos no caminho certo. Tivemos neste ano de 2021 a preocupação com equilíbrio fiscal. O município de Campos reduziu as despesas correntes e vem aumentando as suas receitas, tanto as de transferência como as próprias. Algumas medidas duras infelizmente precisaram ser tomadas, mas contribuíram com a redução com gasto de pessoal referente à Lei de Responsabilidade Fiscal, que bateu 54,5% em dezembro de 2020, em 54,5% e fechou o segundo quadrimestre de 2021 em 44,98%. Acredito que estamos no caminho certo.

Igor Franco – Se entendermos como “crise” a fase mais aguda, dado os preços de petróleo, que devem permanecer altos; e a cotação do dólar, que deve permanecer elevada; possivelmente teremos um 2022 mais tranquilo. O grande problema do município, entretanto, é estrutural: temos gastos elevados demais, rígidos e uma baixa eficiência geral na prestação de serviços à população. O grande perigo é imaginar que nosso problema foi superado pelo simples fato de não estarmos mais atrasando salários dos servidores. Devemos aproveitar o alívio momentâneo para buscar respostas de longo prazo para os nossos problemas fiscais.

José Francisco Rodrigues – De certa forma sim. As Participações Especiais estão sendo importantes para arrumar a economia do poder público municipal. Em uma visão maior, posso dizer que o setor produtivo privado também, aos poucos, vai se recuperando. Existem sinais claros disso, embora muitas empresas tenham fechado por causa da pandemia. Se não é um quatro bastante animador agora, posso dizer que não é mais tanto desanimador. E que estamos recuperando o tempo e o espaço perdidos.

José Maria Rangel – Essa melhora da situação fiscal é algo completamente conjuntural, em função do aumento do preço do petróleo internacional e de desvalorização do câmbio. É importante que a sociedade compreenda que a entrada dessas receitas não tem relação com a gestão do município, mas sim com o mercado internacional de petróleo. Por isso, se houver uma nova piora da situação externa, a cidade de Campos será afetada novamente. Infelizmente, esse resultado reflete os ciclos da indústria mundial de petróleo e não uma melhora robusta das finanças municipais.

 

Folha – O principal indicador da melhora na situação econômica é o acréscimo substancial o município que teve em royalties e PEs: somados de janeiro a setembro de 2020, foram R$ 208,4 milhões, 92,8% a menos que os R$ 401,9 milhões no mesmo período de 2021. Até quando Campos continuará refém das rendas do petróleo? Por que ainda somos dependentes após 30 anos de recebimento de royalties e mais de 20 de PEs?

Fábio – A independência dos royalties está sendo discutida pelo nosso Parlamento Regional, que reúne os 22 municípios das regiões Norte e Noroeste do estado. No mesmo período da pergunta, vivemos uma grande covardia, pois o estado vizinho do Espírito Santo, com uma alíquota bem menor que a nossa, acaba ganhando um grande número de investidores. Temos que lutar pela equiparação da alíquota e criar um grande plano de desenvolvimento econômico, que conste a vocação de cada município e o ponto em comum que é o agronegócio, os dois visando a industrialização. Estou muito motivado com o nosso futuro.

Igor – Poucos conseguem formular alternativas viáveis de receitas que suplantem a renda do ouro negro. A explicação é trivial: trata-se de uma receita que não tem qualquer esforço de arrecadação pelo município. A extração é privada ou a cargo de outro ente da federação; as receitas são calculadas e pagas por entes externos ao município e os valores são extremamente elevados. Do ponto de vista político, ainda haveria o desgaste de justificar para a população a necessidade de criar novos tributos, enquanto os cofres estão sendo plenamente abastecidos. Ou seja: é impopular e dá trabalho, tudo que qualquer político odeia.

José Francisco – Campos ainda vai continuar por um bom período refém dessas PEs e do petróleo propriamente dito. Isso porque continuamos não fazendo o chamado dever de casa. A gente continua usando mal os royalties. Esse dinheiro deveria ser acondicionado em um fundo de reserva, que muitos chamam de fundo soberano, para ser aplicado em momentos difíceis e também incentivar a nossa economia. Experimentos como o Fundecam não deram certos porque não se cobraram garantias. O certo seria usar esse dinheiro como uma reserva para momentos críticos e chamar a sociedade para debater.

José Maria – A miopia do grupo político que governa o município há 30 anos, com exceção de Rafael Diniz, mas que também fez uma gestão catastrófica, tem como efeito colateral essa dependência econômica de Campos em relação à indústria petróleo. Enquanto não houver nenhum governo que utilize esses recursos para criar alternativas as receitas do petróleo, tentando atrair novos empreendimentos e outras indústrias para o município, continuaremos dependentes dos royalties e PE até quando existir produção de petróleo por aqui.

 

Folha – Com a partilha dos royalties aprovada no Congresso Nacional e suspensa por uma liminar no Supremo desde 2013, a mudança de matriz energética para fontes limpas perseguida pela Europa e os EUA sob governo Joe Biden, e o fato dos nossos campos de petróleo serem maduros, explorados comercialmente desde 1977, qual o futuro da atividade? E para Campos?

Fábio – Observando com cautela a mudança das matrizes energéticas. Trazendo isso para nossa realidade, percebemos que Campos pode seguir essa tendência. Essa é uma crise que pode ser uma oportunidade para o nosso município, desde que haja planejamento. Nós temos a questão da energia solar que pode ser uma solução, as termoelétricas, a eólica. Podemos, sim, com planejamento, criar uma alternativa para o nosso município e regiões. Mesmo com a busca de energias limpas, acredito que teremos a manutenção da atividade petrolífera por um bom tempo, mas cientes de que é uma atividade finita.

Igor – A indústria do petróleo ainda deve ter vida longa. A tentativa de mudança rápida na matriz energética para fontes limpas, não-nucleares, está cobrando um alto preço no momento com a crise do gás natural na Europa. Os campos maduros da Bacia de Campos são menos produtivos e podem tornarem-se economicamente inviáveis, reduzindo substancialmente as receitas petrolíferas. Isso torna ainda mais urgente a estruturação de um plano de longo prazo para desenvolver ou resgatar vocações econômicas da cidade e da região. Que deveria ser uma preocupação não só municipal, mas também federal e estadual.

José Francisco – Ainda vamos ter, por algum tempo, uma economia regional girando em torno do petróleo. Mas temos que nos livrar dessa dependência, até porque uma hora o STF vai bater esse martelo. O Porto do Açu que tem uma termelétrica já funcionando e outra com obras iniciadas. Mas a gritaria ambiental contra o uso de combustível fóssil é uma agenda forte. Defendemos investimento em energia limpa e temos todas as condições para isso. Podemos ter grandes usinas de energia solar espalhadas pelo município e eólica também. Governos e instituições financeiras deveriam incentivar. São as matrizes energéticas do futuro.

José Maria – Não há dúvida que o mundo atravessa um período de grande mudança para produzir energia mais limpa. Apesar disso, o petróleo e o gás natural continuam sendo as principais fontes de energia do mundo, e ainda serão importantes por algumas décadas. O ideal é que as empresas de petróleo comecem a criar sinergia com a indústria de energia limpa. Na Noruega, já há casos de operadoras utilizando plataformas de petróleo para instalar estruturas de eólica offshore. Estudos realizados aqui na região, já indicam a Bacia de Campos pode seguir esse exemplo. Sou otimista com essa possibilidade para o nosso município.

 

Folha – Há notícias positivas também em receita própria. Em todo o ano de 2020, Campos gerou R$ 1,6 bilhão em notas fiscais de serviço emitidas pelos CNPJs do município. Em setembro de 2021, esse valor já tinha chegado a R$ 2,2 bilhões. E o governo Wladimir projeta que possa chegar perto dos R$ 3 bilhões até o fim do ano. Como você analisa?

Fábio – Discordo sobre esses números (na verdade, repassados por Wladimir). Temos um orçamento em 2021 de 1,7 bilhões e poderemos chegar no final do ano, perto de 2 bilhões, e a previsão do governo Wladimir para 2022 é de 1,9 bilhões. Eu acredito que devido à austeridade do governo Wladimir e pela busca do equilíbrio fiscal, poderemos ter um superávit no final do ano. E isso é logico, implicará no orçamento de 2022. Não sei precisar o valor corretamente. Essa discussão tem que ser com a sociedade civil em todos os segmentos, uma outra forma tributária, considerando a credibilidade que o governo vem conquistando.

Igor – A expansão da atividade econômica sempre deve ser comemorada. Campos é um polo geograficamente estratégico, possui uma infraestrutura universitária invejável e protagonismo histórico no interior do estado. Com a retomada forte dos investimentos no Porto do Açu, temos a oportunidade de estar entre duas grandes indústrias mundiais, petróleo e operações portuárias, além da tradicional força do comércio e serviços da planície. O trabalho do poder público deve ser buscar a sustentabilidade de longo prazo do crescimento. Commodities como petróleo e minério de ferro, que movimentam o Porto, são cíclicos por natureza.

José Francisco – São bons números, mas para que possamos deixar a condição de reféns dos royalties precisamos aumentar essa chamada receita própria. Não através de aumento de impostos e, sim, com o aumento da produção. Aumentar impostos neste momento é justamente impedir que o setor produtivo se recupere. Temos que aumentar essa arrecadação própria aumentando a produção, atraindo novos investimentos, incentivando a empregabilidade. As possibilidades são muitas.

José Maria – Vejo com bons olhos essa notícia. Além de gerar mais recursos para que o município possa investir, a emissão das notas fiscais evita a sonegação, com produtos e serviços de melhor qualidade. No entanto, acredito que Campos pode avançar mais, dando incentivos à população para solicitar nota fiscal, como fazem outros municípios do estado. Em Niterói, por exemplo, o programa NitNota fornece desconto do IPTU do próximo ano, quando uma pessoa exige a nota fiscal. A cada pagamento, o cliente receberá crédito de 10% do ISS efetivamente recolhido. Experiências como essas precisam ser adotadas em Campos.

 

Página 10 da edição de hoje da Folha

 

 

Folha – Passada a fase mais crítica da pandemia da Covid-19, em setembro a Azul retomou a venda de passagens para voos de Campos, Macaé e Cabo Frio aos EUA. E, no início deste mês, a inédita venda de voos comerciais regulares de Campos e Macaé à Europa. O que o mundo parece ver economicamente na região que nós temos que aprender a enxergar?

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Fábio – Campos está no centro das regiões Norte e Noroeste Fluminense e sendo uma cidade que é a maior do interior do estado, possui muitas características importantes: o maior numero de população, maior PIB, alternativas das matrizes energéticas, agronegócio, o petróleo, um comércio que pode voltar a ser pungente e um polo universitário que representa muito. O que vemos é uma circulação grande de dinheiro e depósitos bancários que são significativos. Porém, temos que melhorar muito a distribuição de renda e, principalmente, a oportunidade de crescimento e desenvolvimento de vida.

Igor – Campos e Macaé são as principais cidades do estado do RJ fora da região metropolitana da capital. Além disso, a presença de multinacionais ligadas à área de petróleo torna o eixo mais estratégico para companhias aéreas. Porém, a notícia me parece menos surpreendente do que à primeira vista. No site da companhia aérea que opera o trecho, é possível localizar passagens de São Félix do Araguaia (MT) para a Europa. Em tempo, a cidade mato-grossense possui 10 mil habitantes e um PIB de R$ 140 milhões de reais.

José Francisco – É uma boa expectativa, sinal de que estamos no mapa. Mostra que Campos é grande e tende a crescer ainda mais. A demanda para esse tipo de serviço, por tudo que passamos e ainda estamos passando, é pequena. Mas essa decisão da empresa Azul mostra que ela acredita no nosso potencial. Então digo que é uma expectativa plausível e animadora.

José Maria – Na melhor das hipóteses, como Campos possui dois voos diários para o Rio de Janeiro, um pouco menos de 5 mil cidadãos viajam todo mês, o que representa menos de 1% da população. Enquanto isso, o número de pessoas na miséria só cresce. Já são mais de 120 mil pessoas diretamente beneficiadas pelo Bolsa Família. Não acredito que esse seja o melhor parâmetro para medir uma suposta recuperação econômica, mas sim para mostrar a gigantesca desigualdade do município.

 

Folha – Representativo no passado, o setor produtivo de Campos tem retomado sua força política. Já havia enquadrado o governo Rafael Diniz e voltou a fazê-lo com Wladimir, no engavetamento do novo Código Tributário e na resistência ao reajuste do IPTU. Como equilibrar interesses muitas vezes antagônicos entre iniciativa privada e poder público?

Fábio – Estivemos reunidos com os representantes do setor produtivo e combinamos de fazer um fórum permanente de debates para um banco de ideias para o Legislativo e possíveis ações do Executivo. Não concordo com o engavetamento do Código Tributário ter sido só por força do setor produtivo, nós tivemos uma má condução do processo político. Dos 13 projetos apresentados pelo Executivo, 12 foram aprovados. O que teve reflexo na aprovação do TAG (Termo de Ajustamento de Conduta) junto ao TCE. E, agora, de uma forma mais tranquila podemos discutir juntos uma nova forma de participação na questão tributária.

Igor – No Brasil, toda classe possui algum tipo de benefício que precisaria revisto à luz do melhor interesse nacional. Alguém que esteja perdendo algum benefício não acredita que esse sacrifício será arcado por outros e, então, sente-se na posição perdedora. Isso é verdade, visto que políticas de ajustes no Brasil nunca são horizontais e, invariavelmente, algumas partes interessadas mantém seu quinhão preservado. O empresário sente que os políticos mantêm privilégios; o assalariado se acha mais afetado que o empresário; o pensionista se julga prejudicado em relação ao profissional da ativa. O resultado é um equilíbrio ruim para todos.

José Francisco – Com diálogo e debatendo exaustivamente cada ponto antagônico. A CDL defende os interesses do comércio, do segmento produtivo e da sociedade em geral. Não fizemos outra coisa este ano senão debatermos exaustivamente essas questões as quais você se referiu. O diálogo é uma ferramenta importante. Temos feito isso e colhidos resultados na medida do possível.

José Maria – O problema é que atualmente a maioria dos nossos representantes, na Câmara Municipal, estão atrelados, de alguma forma, ao setor produtivo. Por isso, quando são colocadas pautas que atendem seus interesses, mas prejudicam a maior parte da sociedade, são aprovadas tranquilamente. Todavia, quando o contrário acontece, há um grande tensionamento. Por isso, a dificuldade de aprovar o IPTU, mas a facilidade em aprovar a contribuição para iluminação pública. Esse maior equilíbrio só ocorrerá quando tivermos uma Câmara de Vereadores com mais representação da sociedade civil.

 

 

 

Folha – Na série de 11 painéis sobre a crise financeira de Campos (confira aquiaquiaquiaquiaqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui), que ouviu 34 representantes diversos da sociedade civil organizada de julho a setembro de 2020, a Folha combateu o estelionato eleitoral na eleição a prefeito. Entre as discordâncias, houve três opções consensuais: retomada da vocação agropecuária, parceria com o polo universitário e pregão eletrônico integral nas compras. O que precisamos avançar em cada uma delas?

Fábio – Precisamos avançar muito na área agropecuária. Porém, dentro dessa nova perspectiva do Parlamento Regional precisamos fazer um planejamento junto aos outros municípios, fortalecendo não cada um isoladamente, mas toda a região. Quanto à participação das universidades é indiscutível, já que temos aqui instituições de grandes qualidades. Referente ao pregão eletrônico integral, isso hoje é uma realidade que hoje está estabelecida por lei (na verdade, só às compras com verbas federais). Faço só uma ponderação quanto à reserva às empresas locais, pois com a nova lei empresas de todo Brasil poderão participar.

Igor – Há diversos pontos que podem ser levantados para cada uma das iniciativas. Porém, algo que une todas elas e que deve ser trabalhado pelo poder público é a publicidade das medidas que estão sendo tomadas nesse sentido. Sinto falta de um plano de desenvolvimento de longo prazo, tão comentado ao longo da entrevista, e que seja facilmente consultado e acompanhado pelos cidadãos. A publicidade das iniciativas públicas, principalmente as mais aclamadas pela população e pela sociedade civil organizada, promovem o controle social do trabalho executado pelo governo e o aperfeiçoamento das políticas desenvolvidas.

José Francisco – Começo destacando que essa foi uma boa iniciativa do Grupo Folha. Sempre tivemos uma grande vocação agropecuária que andou meio esquecida. Hoje, neste momento, o agronegócio do país é a locomotiva da nossa economia. Acreditamos que possa ser aqui também. A universidade é importante neste processo com suas pesquisas e na educação em geral, porque a educação liberta. Quanto ao pregão eletrônico já é uma realidade (na verdade, só é, por imposição legal, para as compras municipais com verbas federais).

José Maria – Para avançar é necessário que o governo também envolva a sociedade civil na execução das políticas públicas para o município. Na minha opinião, o que falta é vontade política de dialogar com todos os setores da sociedade para que propostas desse tipo de proposta se efetive, como ocorreu quando foi criado o Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social (Conselhão) em 2003. O Conselhão, por exemplo, trouxe a proposta de implementação do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Propostas como essa apenas surgem se toda a sociedade civil for envolvida na construção de políticas públicas.

 

Folha – Na questão da parceria com o polo universitário e, sobretudo, na retomada da centenária vocação agropecuária do município, uma iniciativa importante foi o Projeto Fênix. Com apoio da Folha e reunindo 20 entidades, já entregou documento base ao governador Cláudio Castro e firmou apoio com a Assessoria Especial da Presidência da República. Como vê a iniciativa?

Fábio – Importantíssima a iniciativa do projeto fênix. Quero convidar o projeto para estar junto com a Câmara de Campos e o Parlamento Regional institucionalizando ou conversando sobre possíveis projetos de lei, e caso seja da vontade das instituições participantes disponibilizamos a Casa Legislativa para que haja debates e participação institucional.

Igor – A retomada da vocação agropecuária parece ser uma das alternativas mais promissoras à dependência do petróleo. Dessa forma, as iniciativas nesse sentido têm minha simpatia, são boas notícias. O otimismo fica ainda maior quando tais propostas são embasadas em estudos acadêmicos, evidências científicas, e estruturados de forma planejada, algo que deveria ser padrão em todas as iniciativas de governo. Mas que nem sempre ocorre, principalmente em nível municipal.

José Francisco – Repito que apostamos no agronegócio e estamos vendo algumas iniciativas se desenhando. A agroindústria açucareira hoje já gera 10 mil empregos no curso da safra. A pecuária, tanto de leite quanto de corte, está ganhando corpo. Novas culturas estão sendo introduzidas. Esse é um dos caminhos e o projeto Fênix vai impulsionar com certeza tudo isso.

José Maria – A iniciativa, sem dúvidas, é importante, mas minha maior preocupação é a falta de envolvimento do trabalhador do campo na discussão desse projeto. Entre os parceiros, a maior parte é de associações ligadas aos empresários, como a Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan). É fundamental que iniciativas como essa tenha a participação dos trabalhadores, que têm uma visão da realidade diferente do empresariado. O impacto de questões como escoamento da produção e a falta de estradas asfaltas são melhores entendidas pelos trabalhadores.

 

Municípios no processo de metropolização da região fluminense da Bacia de Campos

 

Folha – Atento a esses sinais de retomada de crescimento, o geógrafo William Passos, especializado em estatística e desenvolvimento regional, e produto do polo universitário goitacá, tem sua tese de doutorado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ dedicada ao processo de metropolização da região da Bacia de Campos, que seu estudo aponta como inevitável. Campos e região estão prontas para ele?

Fábio – Vejo com bastante satisfação o processo de metropolização e naturalidade. Campos, como já disse, é um município com grandes potencialidades: posição geográfica privilegiada, próxima ao Porto do Açu, um aeroporto agora internacional. Porém, preocupa a falta de planejamento do uso do solo dos municípios da região, da mobilidade urbana e, repito, aproveitando um dos nossos pontos fortes que é ser polo universitário. Podemos planejar através dos nossos universitários.

Igor – Com olhos de hoje, não me parece que a região esteja preparada para um salto de desenvolvimento no curto prazo. Havendo a necessidade de uma expansão produtiva em larga escala, teríamos muitos gargalos de infraestrutura, de capital humano, dentre outros problemas. Entretanto, um planejamento de longo prazo que estabeleça diretrizes claras e que consiga ser bem executado, poderia facilmente sanar tais limitações. Nem tudo é vontade política, mas o primeiro passo precisa ser dado pelo poder público.

José Francisco – O crescimento é inevitável e o ambicionamos. Quem não quer crescer? Campos já começa a ganhar traços metropolitanos. Crescer é bom, mas de forma ordenada. Então, se em médio prazo vamos nos tornar uma metrópole, precisamos nos preparar para isso, principalmente com infraestrutura em todos os sentidos, até para que esse crescimento aconteça. É a infraestrutura em todos os seus níveis, em saneamento, educação, saúde e transporte, que atrai os investimentos e as empresas.

José Maria – Há um otimismo, a meu ver, exagerado em realização à metropolização da região. Há um crescimento da indústria solar e a construção de novas térmicas na região que podem criar um certo dinamismo econômico. Mas, essas atividades têm um potencial de geração de renda e expansão da infraestrutura muito mais limitado que a indústria do petróleo. E, quando vivemos o auge do petróleo na região, boa parte da indústria de fornecedores permaneceu no Rio, muito em função das dificuldades do Norte Fluminense de prover a infraestrutura necessária para atraí-los.

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Folha – Sem ideologia política ou declaração de voto, o que espera como consequências econômicas das eleições a presidente da República e governador de 2022, nas quais as pesquisas até aqui apontam à polarizações entre Lula e Jair Bolsonaro? Acredita que, antes de 2023, o Brasil sairá do seu grave quadro de estagflação, associando estagnação do crescimento com altas da inflação e desemprego?  

Fábio – Para desenvolver precisamos investir. É verdade que estamos paralisados. Não temos geração de emprego, a inflação vem mantendo o índice ou com aumento mensalmente. O brasileiro está desempregado ou recebendo mal e tendo que pagar uma cesta básica mais alta, consequência imediata da inflação. Não vejo a possibilidade de mudança de quadro antes da eleição de 2022. Por causa do isolamento politico do presidente, falta articulação com os governadores e prefeitos. Não estou avaliando o governo do presidente, mas ponderando sobre a paralisação econômica do nosso país.

Igor – Após sucessivas violações das regras fiscais e frustração completa das medidas econômicas prometidas, o mercado parece não diferenciar a eleição de Lula ou de Bolsonaro. Com a derrubada informal do teto de gastos, os juros futuros e a inflação implícita lembraram os piores momentos do governo Dilma. Nesse cenário, dificilmente teremos qualquer notícia muito positiva até o fim do ano que vem, não descartando uma possível recessão econômica. A inflação deve ceder, já que parte do impacto foi causado por restrições de oferta que devem se dissipar nos próximos meses. Mas essas são péssimas notícias para o desemprego.

José Francisco – Incentivar essa polarização, embora exista, não é saudável. Hoje esperamos da política resultados econômicos. Acho que mais do que os políticos, a sociedade tem que buscar soluções dos problemas que vive em todos os níveis. E uma dela é fazer o bom uso do voto. Os governos atuais e eleitos, ou reeleitos, deveriam ter como prioridade baixar a inflação e fazer subir o nível de empregos.

José Maria – Não acredito que em um país onde as pessoas estão se alimentando de pé de galinha possa se imaginar uma melhora significativa do cenário econômico atual. A responsabilidade da crise é do atual governo, mas há uma tendência, com as proximidades das eleições, de que alguns setores transfiram essa responsabilidade à polarização política, por conta do favoritismo do ex-presidente Lula. Nos últimos três anos, o atual governo teve todas as condições políticas para conduzir o país e foi ele que nos levou a essa situação de miséria, desemprego e inflação. Por isso não vejo nenhuma possibilidade de mudança em 2022.

 

Página 11 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

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