Um entre cada quatro campistas na probreza extrema

 

População de rua improvisa abrigo no Jardim São Benedito (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

Povo de Campos tem fome!

O governo Wladimir Garotinho (PSD) celebrou esta semana o aumento do atendimento da secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (SDHS), em todas as suas pontas com a população carente de Campos. A comparação entre os períodos de janeiro a setembro de 2020 e 2021 apontam avanços concretos na área social, em atendimentos, serviços e concessão de benefícios. As 4.065 cestas básicas distribuídas nos nove primeiros meses do ano passado, nos nove primeiros deste ano já chegaram a 10.117 — aumento de 149%. Foi o índice que registrou maior crescimento. E revela o mais grave problema hoje do povo campista: a fome!

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Um entre cada quatro campistas

Pelo CadÚnico do governo federal, o município de Campos tem 50.246 famílias em situação de extrema pobreza, com renda mensal de até R$ 89,00. Individualmente, seriam hoje 135.222 campistas. Sem censo nacional desde 2010, o IBGE de 2021 estima 514.643 pessoas residentes em Campos. No cruzamento dos dados, é possível afirmar que 26,3%, ou mais de um entre cada quatro campistas, estão em condições de extrema pobreza. A situação reflete a grave crise do país, com a condução da pandemia da Covid-19 e da economia pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) criticada por todos os especialistas, no Brasil e no mundo.

 

Mudanças?

O percentual da miséria em Campos pode ser um pouco menor, caindo de 26,3% a 22,2%, se estiverem certas as estimativas que apontam para 600 mil pessoas vivendo hoje no município. Mas, mesmo sem melhora significativa na vida dos 135 mil campistas que hoje têm dificuldade para comer, o percentual da extrema pobreza pode crescer ainda mais. No artigo 20 da sua proposta de criação do Auxílio Brasil — novo nome ao Bolsa Família dos governos do PT, que por sua vez rebatizou o Bolsa Escola criado no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) —, Bolsonaro quer subir para renda familiar de R$ 100,00 a classificação de extrema pobreza.

 

Campos espelha o Brasil

É positivo que o governo Wladimir mostre vigor no atendimento às urgentes demandas sociais. Capacidade que é fruto do aumento das receitas petrolíferas. De janeiro a novembro de 2021, o município recebeu de royalties e Participações Especiais (PEs) 79,6% a mais que o mesmo período de 2020. Ainda assim, não é preciso ser especialista para constatar o reflexo local da crise brasileira. Basta sair às suas ruas de Campos e testemunhar o aumento exponencial dos pedintes e população de rua. Mas o que pensam os especialistas da cidade do aumento da miséria? E de como os governos municipal e nacional têm lidado com ela?

 

Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf

Visão do especialista (I)

“O crescimento do atendimento social em Campos tem dois motivos: a suspensão do Auxílio Emergencial federal, que durante o ano passado atendeu a 39% da população do município, além da falta de investimento público municipal em políticas de indução das atividades produtivas, que absorvem mão-de-obra de baixa e média qualificação. Entendo que a forma encontrada aos precatórios (PEC do governo aprovada na Câmara Federal e sob apreciação do Senado, para dar o calote em dívidas da União, furar o teto de gastos e bancar o Auxílio Brasil) pode não ser a mais adequada”, advertiu o economista Alcimar Chagas, professor da Uenf.

 

Fabrício Maciel, sociólogo e professor da UFF-Campos

Visão do especialista (II)

“O aumento da demanda social em Campos e todo o Brasil é resultado direto da política equivocada do governo Bolsonaro. O problema não é só orientação ideológica, mas a incompetência. A instabilidade política na qual o governo colocou o Brasil afeta diretamente a economia e gera esse aumento exponencial na miséria. O Auxílio Brasil é irresponsável e eleitoreiro. Sugere que vai atenuar a miséria, quando na verdade é apenas o remendo em um problema causado pelo governo. Substitui o Bolsa Família sem nenhuma discussão pública sobre o tema”, avaliou o sociólogo Fabrício Maciel, professor da UFF-Campos.

 

Vitor Peixoto, cientista político e professor da Uenf

Visão do especialista (III)

“A demanda reflete a tragédia social brasileira em consequência da pandemia e da forma que o governo federal a administrou. No nível municipal, a atual administração tem demonstrado alguma sensibilidade. A reabertura do Restaurante Popular é um dos exemplos e cumpre papel fundamental. A destruição do Bolsa Família exemplifica a incompetência federal. O Auxílio Brasil tem financiamento provisório, sem controle, sem regras claras. Cumprirá a função de liberar recursos às bancadas em ano eleitoral, com o furo do teto. Mas garantirá a sobrevida do governo com o Congresso”, definiu o cientista político Vitor Peixoto, professor da Uenf.

 

Valter Martins, assistente social e professor da UFF-Campos

Visão do especialista (IV)

“O desemprego em larga escala, a corrosão da renda pela inflação de 10,67% no acumulado anual e a má gestão econômica, política e epidemiológica do país acenam para uma catástrofe social. Que se expressa no crescimento da pobreza em Campos, aos olhos de quem caminha pelas ruas da cidade. Isso tem tensionado os serviços públicos da assistência social, especialmente os de segurança alimentar e nutricional. E tende a se agravar pelo governo Bolsonaro, se aplicado o calote da dívida pública para criar um programa populista até as eleições de 2022” projetou o assistente social Valter Martins, professor da UFF-Campos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Este post tem 4 comentários

  1. William Passos

    Quem fala é muito menos o geógrafo e muito mais o mestre em Políticas Sociais, formado pela UENF em setembro de 2011. O Auxílio Brasil não é irresponsável. Também não sugere, ele vai atenuar a miséria num momento que precisamos da máxima proteção social possível. Quanto a ser eleitoreiro, toda política de impacto social tem impacto eleitoral, e isso faz parte da democracia. Governos entregam políticas e, em troca, esperam votos. É assim que funciona o jogo e o nome disso é política.

    Há os problemas causados pela gestão macroeconômica do governo Bolsonaro e há o choque pandêmico. É preciso separar. Independentemente da resposta, haveria aumento da miséria no Brasil, embora podendo ser bem menor. Na prática, o Auxílio Brasil não substitui o Bolsa Família, mas o amplia, introduzindo, inclusive, novos benefícios bastante interessantes, como o Auxílio Esporte Escolar, a Bolsa de Iniciação Científica Júnior, o Auxílio Criança Cidadã, o Auxílio Inclusão Produtiva Rural e Urbana e o Benefício Compensatório de Transição.

    Quanto a ter discussão pública sobre o tema, discussões são muito importantes, mas as pessoas estão passando fome. Um conhecido e falecido sociólogo bem menos elitista, o Betinho, costumava dizer “quem tem fome, tem pressa”.

    Quanto a ter financiamento provisório, sem regras claras, isso é comum em programas em processos de construção. O Bolsa Família, na origem, era o Fome Zero, que também não tinha um desenho muito claro, tanto que não se viabilizou como planejado.

    E quanto a dar “calote” na dívida pública para a criação de programas populistas (eu prefiro socioassistenciais porque esses programas são muito importantes para pessoas vulneráveis e tem uma função social e assistencial de combate à pobreza, à miséria e à vulnerabilidade), sempre me indigna a ideia de que devemos dar “calote” nos mais pobres para remunerar os interesses do grande capital especulativo. Um boa tarde especial à esquerda caviar!

  2. Cesar Peixot

    Se todos ficassem em casa como muitos queriam a situação da miséria seria bem maior.Agora pode show, estádio de futebol, autódromo, carnaval etc. Mais na hora que o bicho pegar de novo, vão dizer que a culpa é do presidente.

  3. Cricio Manhães Pinto

    IMPRESSIONANTE !! AGORA QUE “OS GAROTINHOS” DESCOBRIRAM ESSA REALIDADE? AÍ,VEM COMO DE.PLASTING O GOVERNO PASSADO ??? E O DE ROSA? ISSO É FATOR PRIMORDIAL QUANDO OS MENOS FAVORECIDOS FICAREM SEM INFORMAÇÕES;DIREITOS E DEVERES? MELHOR PARA OS OPORTUNISTAS TIRAREM PROVEITO DA POBREZA NO GERAL FALTA CONHECIMENTO!!!

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