Moro x Bolsonaro por vaga no segundo turno com Lula

 

Sergio Moro, Jair Bolsonaro e Lula da Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

O governo Jair Bolsonaro (sem partido) vai conseguir aprovar a sua PEC dos Precatórios, também conhecida como PEC do Calote nas pessoas físicas e jurídicas com dívidas transitadas em julgado na Justiça a receber da União? Para furar o teto de gastos e, segundo todos os economistas, agravar ainda mais uma inflação de mais de 10%, que o Brasil com sua população pobre hoje comendo osso não vivia desde a implantação do Plano Real em 1994?

No Senado é muito pouco provável que a PEC do Calote passe como veio da Câmara. Onde foi aprovada em dois turnos, a troco das emendas sem fiscalização do Orçamento Secreto aos deputados que votaram a favor — Mensalão de Bolsonaro cujo pagamento foi barrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, e se passar no Senado, para permitir o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 400,00, este terá o efeito eleitoral desejado em 2022?

É muita coisa para combinar com os russos, na advertência do gênio Garrincha ao técnico Feola na Copa de 1958. Mas se a resposta a qualquer pergunta dos dois parágrafos acima for não, Bolsonaro passa a correr o risco de não estar no segundo turno da eleição presidencial. Como tudo até aqui indica que o ex-presidente Lula (PT) lá estará, quem hoje se apresenta para substituir o capitão é seu ex-ministro da Justiça, Sergio Moro (Podemos).

Em 22 de outubro, foi confirmado que Moro se filiaria ao Podemos, provavelmente para se candidatar a presidente da República. Animava o partido uma pesquisa interna que dava ao ex-juiz federal 10% de intenção de voto, ponto de partida razoável para tentar furar a polarização Lula/Bolsonaro. A primeira pesquisa divulgada depois disso foi a PoderData, feita entre 25 e 27 de outubro. Nela, Lula ficou com 35%, seguido de Bolsonaro, com 28%. E a novidade foi Moro em terceiro lugar, com 8%, já ultrapassando, mas ainda em empate técnico, Ciro Gomes (PDT), com 5%. O cearense mantinha a terceira posição durante todo o ano.

No início de novembro, foi realizada a pesquisa Quaest. Que deu Lula com 48%, seguido de Bolsonaro, com 21%. Seguidos de Moro, com 8%, em novo empate técnico com Ciro, que bateu 6%. Com 13 pontos a mais de intenções de voto com que apareceu na PoderData, Lula levaria a eleição no primeiro turno pela Quaest, com mais de 50% dos votos válidos, excetuados os 10% de votos brancos e nulos, além dos 4% de indecisos.

Da projeção à realidade, mesmo tendo alcançado seu recorde de 87% de popularidade em 2010, último ano do seu segundo mandato, Lula nunca levou a presidência no primeiro turno. Em 2002, venceu no segundo a José Serra (PSDB); em 2006, contra Geraldo Alckmin (PSDB). Desde que o segundo turno foi adotado no Brasil, em 1989, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) conseguiu a façanha. Em 1994 e 1998, bateu Lula e todos os demais em um só turno.

Feita entre 3 e 6 de novembro, a pesquisa Quaest foi divulgada só no dia 10. Curiosamente, foi o mesmo dia em que, marcado desde outubro, Moro se filiou ao Podemos. Demonstrando treinamento com media training e fonoaudiólogo, o ex-juiz federal de voz fina e esganiçada falou grosso: “Chega de corrupção, chega de Mensalão, chega de Petrolão, chega de rachadinha. Chega de Orçamento Secreto”.

 

 

“Ao contrário do que se esperava, em seu discurso não se limitou a falar do combate à corrupção. Tratou com propriedade de questões econômicas, sociais, ambientais e de gestão pública. Enfatizou a necessidade de erradicação da pobreza, defendendo a combinação de programas de transferência de renda com acesso à educação e oportunidades de trabalho, e propondo a criação de uma força tarefa a ser formada por servidores e especialistas. Também fez a firme defesa da liberdade de imprensa e acenou para os militares com a valorização das Forças Armadas como instituição de Estado. Assumiu o compromisso com o fim da reeleição e do foro privilegiado”, resumiu em bom artigo publicado ontem, sem declaração de simpatia, o consultor em estratégia Orlando Thomé Cordeiro.

Lula com o líder alemão Olaf Scholz, o francês Emmanuel Macron e o espanhol Pedro Sánchez (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Desde fevereiro, com o jornalista Luiz Carlos Azedo, do Correio Braziliense, Orlando esteve entre os primeiros articulistas políticos brasileiros a registrar a resiliência de Moro no tabuleiro eleitoral de 2022. Ambos, o consultor e o jornalista, têm sólida formação de esquerda. Que brilhou com Lula em seu tour na Europa. Ele foi recebido como chefe de estado pelo futuro chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, no dia 12; pelo presidente da França, Emmanuel Macron, no dia 17; e ontem (19) pelo primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

No dia 15, Lula discursou e foi aplaudido de pé no Parlamento Europeu, na Bélgica. Quando aproveitou para elogiar Alckmin, transformando seu tradicional adversário em São Paulo e na eleição presidencial de 2006 em pré-candidato a compor sua chapa em 2022. Aos olhos do Brasil e do mundo, acenou com sua capacidade de conciliação. Falando numa Europa que se recusa a reconhecer a radicalidade obscurantista de Bolsonaro como a cara do Brasil.

 

 

O contraste de Lula na União Europeia, com a viagem de Bolsonaro a ditaduras teocráticas do Golfo Pérsico, incensadas por ele como exemplo a ser seguido pelo Brasil, é autoexplicativo. Dispensa legenda a qualquer cultura humana da Terra. Também ontem, enquanto Lula se reunia com o premier espanhol no Palácio da Moncloa, em Madri, foi divulgada a primeira pesquisa presidencial após a filiação de Moro ao Podemos. Da Ponteio Política, feita entre 16 e 18 de novembro, deu Lula com 37%, Bolsonaro, com 24%; Moro, com 11%; e Ciro, com 8%.

Ainda restam as prévias do PSDB deste domingo (21). A previsão é que dê João Doria, que não deve ter nenhuma chance real com Bolsonaro e Moro já à sua frente na corrida. Governador gaúcho que realiza um grande trabalho em seu estado, Eduardo Leite seria candidato muito mais promissor. Mas poderia ter problemas por sua homossexualidade assumida em um país onde 13,7% da população, como numa ditadura teocrática do Golfo Pérsico, declara não votar em candidato homossexual por obscurantismo religioso.

Analistas políticos de todo o país apostam que Moro deve se descolar além do empate técnico com Ciro nas próximas pesquisas. Para tentar diminuir sua diferença de intenção de votos para Bolsonaro. O ex-juiz já está virando em um setor muito caro ao capitão do Exército. Também ex-ministro deste, militar mais brilhante da sua geração, conservador e democrata, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz esteve presente na filiação de Moro.

Já se cogita que Santos Cruz se lance eleitoralmente no Rio de Janeiro pelo Podemos, para dar palanque no estado ao ex-juiz. Assim como o vice-presidente, general Hamilton Mourão, descartado por Bolsonaro na chapa de 2022, criticou o Orçamento Secreto. Que já custou mais de R$ 20 bilhões aos cofres públicos entre 2020 e 2021. E é o único motivo pelo qual o Centrão e seu presidente da Câmara Federal, Arthur Lira (PP/AL), seguram até hoje os mais de 120 pedidos de impeachment do presidente da República. Seu vice também analisou com simpatia contida a pré-candidatura de Moro, mas ressalvou que falta a este falar com o povo.

Mourão não está errado. Todas as pesquisas apontam as dificuldades de Moro no Nordeste e com os pobres. Não por acaso, são os mesmos segmentos mais refratários a Bolsonaro, que conta com o Auxílio Brasil para tentar chegar. E aos quais Lula, na lembrança do Bolsa Família em que transformou o Bolsa Escola herdado de Fernando Henrique, ainda fala como ninguém. É esta a cara que a Europa reconhece como a do Brasil. Noves fora a corrupção do Petrolão, ou a de quem julgou parcialmente o caso para ajudar a colocar o Centrão no comando do país.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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