Até Ortega com Merkel, Lula “estava indo tão bem!”

 

Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Ciro Gomes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Estava indo tão bem!”. Diria o Professor Raimundo, personagem do genial Chico Anysio, ao seu aluno Sandoval Quaresma, interpretado pelo comediante Brandão Filho. Este sempre acertava as perguntas iniciais do mestre. Mas quando caminhava para ganhar um 10, se saía uma pataquada sem tamanho na última questão, comprometendo sua aprovação no teste oral. Ainda a pouco mais de 10 meses, é o que se pode dizer da viagem de Lula à Europa. Que após reforçar a imagem do ex-presidente como estadista, terminou reforçando as dúvidas do seu compromisso real e do PT com a democracia.

Após ser recebido como chefe de estado pelos líderes da Alemanha, Olaf Scholz; da França, Emmanuel Macron; da Espanha, Pedro Sánchez; e de ter sido aplaudido de pé no Parlamento Europeu, na Bélgica; Lula foi entrevistado em Madri. Pelas jornalistas Pepa Bueno e Lucía Abellán, do El Pais, maior jornal espanhol.

 

 

Ao indagar sobre a deterioração democrática na América Latina, Lucía Abellán pediu a Lula o diagnóstico da eleição presidencial da Nicarágua, não reconhecida pela comunidade internacional e com os opositores presos a poucos dias do pleito. Na qual o ex-guerrilheiro sandinista e hoje ditador Daniel Ortega “concorreu” com cinco candidatos de fachada, para ter seu quarto mandato consecutivo. Lula respondeu:

— Não posso interferir nas decisões de um povo. Por que Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder, e Daniel Ortega não? Por que Margaret Thatcher pode ficar 12 anos no poder, e Chávez não? Por que Felipe González aqui (na Espanha) pôde ficar 14 anos no poder?

No que Lula foi lembrado do que deveria ser óbvio a qualquer democrata verdadeiro:

— Sim, mas Angela Merkel governou por 16 anos, Felipe González por 13, na Espanha, e não mandaram nenhum dos seus opositores ao cárcere — desenhou Pepa Bueno.

 

Lula e o ditador “companheiro” da Nicarágua, Daniel Ortega

 

Lula respondeu lembrando sua própria prisão. E aproveitou para desejar sorte a outro ditador “companheiro” de esquerda, Nicolás Maduro, nas eleições regionais da Venezuela:

— Não posso julgar o que aconteceu na Nicarágua. Eu fui preso no Brasil. Não sei o que essas pessoas fizeram. Só sei que eu não fiz nada. Na Venezuela espero que se Maduro ganhar (nas eleições regionais) se acate o resultado, e se perder também.

 

Nicolás Maduro, ditador “companheiro” da Venezuela, e Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

 

O desejo de Lula foi atendido. Com métodos semelhantes aos da Nicarágua de Ortega, Maduro elegeu 20 dos 23 governadores da Venezuela que o chavismo transformou no país mais pobre da América Latina. As contradições do ex-presidente em seu próprio continente, falando a outro, geraram mais um incômodo. Lucía Abellán lembrou que, na semana anterior à entrevista ao El Pais, houve a proibição dos protestos de rua em Cuba. O petista respondeu:

— É engraçado porque a gente reclama de uma decisão que evitou os protestos em Cuba, mas não reclama que os cubanos estavam preparados para dar a vacina e não tinham seringas, e os americanos não permitiam a entrada de seringas. Eu acho que as pessoas têm o direito de protestar, da mesma forma que no Brasil. Mas precisamos parar de condenar Cuba e condenar um pouco mais o bloqueio dos Estados Unidos.

E, constrangedoramente, foi mais uma vez lembrado por Pepa Bueno do que deveria ser óbvio a qualquer democrata:

— Mas, presidente Lula, é possível fazer as duas coisas: condenar o bloqueio e pedir liberdade nas ruas aos opositores.

 

Lula entre os ditadores “companheiros” de Cuba, o ex-presidente Raúl Castro e o atual, Miguel Díaz-Canel (Foto: Site do PT)

 

Noves fora quem demande vacina contra febre aftosa, no lugar de contra a Covid-19, não se espera nenhum compromisso democrático de Jair Bolsonaro (sem partido). A não ser aquele que fez dele e seus filhos uma franquia político/eleitoral bancada pelo peculato das “rachadinhas”. Ou os que foram empurrados sua goela abaixo, nestes últimos dois anos e 11 meses, pela sociedade civil organizada, a imprensa profissional e as instituições do Estado Democrático de Direito. Neste, incluída a compra do Congresso Nacional com as emendas do Orçamento Secreto. Que já custaram mais de R$ 20 bilhões do contribuinte em 2020 e 2021, para impedir que um dos mais de 120 pedidos de impeachment do presidente seja aberto.

Acreditar que Lula “não fez nada”, como ele disse às duas afiadas jornalistas do El Pais, requer a mesma inversão de demanda de imunizante, entre Covid e aftosa, dos bolsonaristas “democratas”. Está aí a montanha de evidências da corrupção sistêmica do PT em seus 13 anos de poder, que quase jogou a Petrobras na bancarrota, com a devolução judicial de bilhões roubados dela por empreiteiros. Bem como os benefícios pessoais de Lula, no sítio de Atibaia reformado pelos mesmos empreiteiros para que ele gozasse do lazer com a família. Como é fato que a Vaza Jato revelou a parcialidade, tornada oficial pelo Supremo Tribunal Federal (STF), do então juiz federal Sergio Moro no julgamento e na condenação do ex-presidente.

Lula não é inocente. Mas sua condenação foi anulada por motivo justo, jurídica e moralmente. De volta ao jogo, ele o lidera com folga em 2021. Exatamente como fazia 2018, até ser sacado do campo por quem depois entraria nele como ministro da Justiça do principal beneficiado. Retirar o petista novamente da disputa seria inaceitável. Ao mundo e a qualquer brasileiro cujo senso de justiça supere a paixão política. Quem brada contra o fato, ou contra todas as pesquisas que o revelam, teria atitude mais produtiva se estocasse lenços para 2022.

Com rejeição acima dos 50% em todos os institutos, a reeleição de Bolsonaro hoje é aritmeticamente impossível. Os R$ 400,00 do Auxílio Brasil podem mudar isso? Podem! Assim como a influência da eventual vitória do candidato de extrema-direita José Antonio Kast, no segundo turno presidencial do Chile, em 19 de dezembro próximo. Já no provável segundo turno brasileiro de 30 de outubro de 2022, a melhor chance para Lula não estar é ele não querer. E a melhor chance dele não querer é se as pesquisas apontarem, até as convenções partidárias entre 20 de julho e 5 de agosto, que seu adversário não será Bolsonaro. Distante dele, todas as pesquisas e movimentos partidários/eleitorais colocam Moro (Podemos) como a opção de terceira via mais viável, ainda em empate técnico com Ciro Gomes (PDT).

 

Reichstag sob a bandeira dos conquistadores de Berlim, em 1º de maio de 1945 (Foto: Yevgeny Khaldei)

 

Não há nada hoje que indique isso. A não ser movimentos como a desistência do União Brasil, na união entre o DEM e o PSL, ex-partido de Bolsonaro, em lançar seu ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta a presidente, para provavelmente apoiar Moro. Mas Lula deve saber melhor do que ninguém: se ele perdesse no voto de 2022, para o seu algoz na Lava Jato, isso teria o mesmo efeito presente e à História que o Exército Vermelho tomando Berlim em 1945 teve ao nazismo. Protagonista daquela vitória na Europa, o “socialismo real” acabaria com a extinção da União Soviética em 1991, dois anos após a queda do Muro de Berlim.

 

Queda do Muro de Berlim em 11 de novembro de 1989 (Foto: Gerard Malie/AFP)

 

Por um anacronismo ideológico há 30 anos, Lula não deveria, após se apresentar como craque geopolítico nos gramados da Europa, isolar a bola do estádio diante das duas “Martas” do El Pais. Como diria o Professor Raimundo: “Estava indo tão bem!”.

Comparar Ortega com Merkel, que saiu da socialista Alemanha Oriental para consolidar a reunificação do seu país, foi um gol contra à democracia.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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